JARDIM DOS
SONHOS SEMEADOS
por
Evandro de Castro Sanguinetto
No início de 2003 estivemos no Fórum Social Mundial desenvolvendo as Oficinas de Sonhos Sementes da Paz, desenvolvimento de oficinas anteriores junto a professores, diretores e técnicos de educação.
Ao longo do caminho entre São Paulo e Porto Alegre coletamos uma infinidade de sementes de diferentes espécies e com elas desenvolvemos diferentes atividades.
Uma delas o Banco Semeador de Belezuras, construção ecopedagógica aprendida com o Mago Jardineiro em Curitiba e construída com sementes e materiais diversos (www.encantadordesonhos.hpg.com.br, Produtos/Ecopedagogia).
Outra, as Oficinas de Sonhos propriamente ditas, em que construímos os “MSVSAS - micro-sistemas vitais semi-autônomos sustentáveis” com garrafas PET e recuperamos áreas degradadas, jardins, floreiras, bosques, transformando-as em “Jardins dos Sonhos Semeados”.
O processo é simples e envolvente: dando corpo e sentido aos Quatro Pilares da Educação do Século 21 propostos pela Unesco (Relatório Delors), entrelaçando com a Fábula-Mito do Cuidado descrita por Leonardo Boff (Saber Cuidar – Ética do Humano Compaixão pela Terra), construímos a prática, a vivência desses pilares: aprender a aprender, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a ser, plantando sementes e mudas de árvores, flores e sonhos pessoais e coletivos de luz, paz, amor, harmonia, sustentabilidade e construção de futuro.
Com roupagens diferentes para
diferentes idades, objetivos e públicos, o texto abaixo é o fio condutor de
uma das oficinas.
As Origens
Eu sou um Encantador de Sonhos e a função de um Encantador de Sonhos é
encantar sonhos pessoais e coletivos, de tal forma que se transformem em seres
luminosos, capazes de percorrer o caminho entre o reino mental, dos sonhos e
ideais e o reino material, da plena manifestação física. Assim, convido todos
a participarem de uma jornada em busca da manifestação de seus sonhos mais
profundos e luminosos.
No começo de tudo uma grande explosão pariu a existência. O fogo cósmico consumia o nada e o transformava em matéria: hidrogênio e hélio se resfriavam no vazio gelado enquanto se distanciavam entre si.
Milhões de anos se passaram e toda aquela matéria dispersa abrandou seu individualismo rendendo-se a uma força maior que os atraía entre si, juntando-os, aumentando a massa, a consciência de grupo, e um dia o mesmo fogo que lhes deu origem, brotou novamente em seu coração e iluminou a escuridão – formavam-se as primeiras estrelas. E o universo começou a pontilhar luz: primeiro uma, depois outra, e mais outra. E cada ponto de luz brilhando na escuridão percebeu que não estava só, que estava em meio a iguais, e que juntas iluminavam vastas regiões do que até então fora a escuridão inominável. E surgiram as galáxias.
Desse turbilhão cósmico, dessa dança de Shiva, do girar das estrelas e galáxias, porções de matéria incandescente se uniram em torno da luz e formaram os planetas. Alguns muito próximos da origem queimam até hoje. Outros mais distantes de seu centro endureceram, perderam o brilho e se congelaram em si mesmos.
A meio caminho entre os extremos, alguns planetas buscaram o aprendizado pelo equilíbrio: nem tão longe que se congelassem, nem tão perto que se queimassem; nem tão grandes que fosse imensa a gravidade, nem tão pequenos que elementos mais leves se perdessem no vácuo do vazio insondável; nem tão rápidos em seu giro pelo espaço que se misturassem dia e noite, nem tão lentos que o lado claro fosse uma fornalha abrasadora enquanto o lado escuro um imenso deserto de frio e gelo e dor.
Nesses planetas, especiais por si mesmos, o que era quente e pastoso foi-se resfriando e solidificando, formando rochas, montanhas, vales. O fogo que lhes originou abrandou na superfície, recolhendo-se a seu interior. Água e ar libertos no calor intenso resfriaram-se e envolveram o planeta, cicatrizando suas feridas, modelando sua superfície, abrandando seu furor.
Em meio a milhões de galáxias, uma é nossa morada. Na porção mais externa de um dos braços da espiral Via Láctea, nossa estrela pai/mãe brilha há bilhões de anos. Ao seu redor nove planetas, filhos cósmicos do amor do tempo. No terceiro, ponto azul cintilante, fogo, terra, água e ar moldam a vida que evoluiu e hoje se auto-observa, têm consciência de si mesma e reflete em seus olhos a história da criação, que a cada momento, a cada instante se vê, se revê, se transforma, amplia a consciência, evolui, cria, destrói e recria. E expressa a beleza de uma dança fantástica, iniciada há eons atrás.
Fogo, terra, água e ar criam, nutrem, mantém, destroem e transformam pessoas, animais, vegetais, planetas, sistemas, galáxias, universos.
E
para explicar o nascimento da humanidade em meio a essa dança sagrada do
cosmos, culturas diferentes criaram diferentes mitos. Como a Fábula-mito do
Cuidado:
Certo
dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia
inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto
contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter.
Cuidado
pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado.
Quando,
porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o
proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome.
Enquanto
Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela
conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da
Terra. Originou-se então uma discussão generalizada.
De
comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a
seguinte decisão que pareceu justa:
Você,
Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por
ocasião da morte dessa criatura.
Você,
Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando
essa criatura morrer.
Mas
como Você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus
cuidados enquanto ela viver.
E
uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu:
esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que
significa terra fértil.
(Gaius
Julius Hyginus, Fábula-mito do Cuidado, em Saber Cuidar - Ética do Humano,
Compaixão pela Terra – Leonardo Boff).
No processo de encantar sonhos, aprendemos com a natureza e sua história. Aprendemos com o universo e os elementos. E procuramos reproduzir esse aprendizado no cotidiano, buscando equilíbrio, harmonia, sintonia.
E muitas vezes nos deparamos em nossos caminhos, cósmica caminhada, planetária existência, com o que está já pesado demais para carregarmos, que dificulta nossos passos em direção ao futuro, nos prende ao passado, com aquilo que está velho e ultrapassado e já não desejamos levar em nossa aventura, em nossa divina jornada de vida. E o que fazer? Como fazer para nos libertar?
Fogo, terra, água e ar... formam, deformam, constroem, destroem, limpam, modificam, purificam. Cada qual em seu tempo, cada qual em seu ritmo. O fogo mais rápido, forte, destrutor. O ar mais envolvente, benevolente, sedutor. A terra, mãe paciente, recicla, transforma, alimenta. A água, impaciente, renova, revolve, dissolve.
Quais seus medos mais presentes? Quais suas amarguras, angústias, inseguranças? Suas sombras, dúvidas, pesos?
Reaproveite um pedaço de papel, escreva tudo que já não quer mais em sua vida e deixe que os elementos os transformem: que o fogo queime e limpe; que a terra decomponha e transforme; que a água dissolva e transporte; que o ar envolva, carregue e dissipe.
Tome agora outro pedaço de papel e escreva nele todos seus sonhos, ideais, tudo de bom que deseja para si mesmo e para o outro. Amasse esse papel, transformando-o em um sonho-semente e coloque-o no fundo de um saquinho, preenchendo-o com terra. Plante então sementes, tantas e quantas representem seus sonhos dourados, seus anseios maiores, suas luzes interiores.
Forme assim um Jardim dos Sonhos Semeados e cuide da vida que brota, como Cuidado na fábula-mito. Seja o condutor das transformações que deseja, do novo que se constrói a si mesmo. Seja a rega, o amor, o carinho que embala e fortifica. Espelhe a abundância, alegria e felicidade que deseja no mundo. E seja muito, muito feliz!
Evandro de Castro Sanguinetto, autodidata com formação acadêmica
auto-gerida é Diretor da Encantador de Sonhos Educação e Meio
Ambiente, Educador Socioambiental, Palestrante e Consultor. Idealizou, coordena,
focaliza e facilita ações, processos e práticas do Projeto Semeador de
Belezuras, Oficinas de Sensibilização Socioambiental, Oficinas do Olhar Curvo
e Ecoficinas no Ambiente Natural junto a crianças, jovens e adultos. Aprendiz
de Contador de Histórias, desde 1990 atua nas áreas de (Eco) Turismo, Meio
Ambiente e Educação, voltado para Educação Socioambiental, Ecoeducação,
Alternativas de Sustentabilidade, Desenvolvimento Integral do Ser e Cultura de
Paz.
Contatos:Telefones: (11) 4425-4989 ou (11) 9770-9982
E-mail: evandrosanguinetto@terra.com.br
Web:
www.encantadordesonhos.hpg.com.br
www.oficinasementesdapaz.hpg.com.br
Projeto Apoema - Educação Ambiental