Destaques de agosto a setembro de 2006.
Crianças e Peixes
Berenice Gehlen Adams
Uma menina com seus quatro ou cinco anos de idade depara-se, pela primeira vez, com uma cena que provavelmente levará na lembrança pelo resto da vida: milhares de peixes mortos boiando na superfície do Rio dos Sinos. Seu olhar vago, sua postura, sua inércia diante do que estava vendo naquele sábado à tarde, evidenciaram o nascimento de muitas questões: “O que está acontecendo?”, “Quem fez isto?”, “Por quê estes peixinhos estão todos de barriga para cima, mortos?” – se é que ela já entende o que é a morte. Vai ser bem difícil para ela assimilar o que presenciou. Assim como ela, dezenas de crianças que estavam a bordo do Martim Pescador e que presenciaram a cena em pleno momento de atividades de Educação Ambiental, certamente ficaram sem compreender aquela visão assustadora, além de outras centenas de milhares de crianças que tomaram conhecimento do desastre através dos meios de comunicação.
É urgente apresentar respostas a estas crianças. E o que explicar? Como explicar? Por onde começar uma conversa sobre um assunto tão complexo e difícil até para nós adultos compreendermos?
É uma dura tarefa, porém, necessária: é preciso esclarecer os fatos, aos poucos, e ajudar as crianças a lidarem de forma significativa – e não fantasiosa - com o ocorrido, envolvendo-as em atividades de sensibilização e de reflexão, possibilitando a compreensão de como funciona o ciclo da vida, e de como é delicado o ecossistema frente a nossa forma de viver que reflete a cultura do consumo e da utilização desenfreada dos recursos naturais.
Através das fotos do desastre veiculadas nos meios de comunicação, é possível visualizar muito lixo (garrafas pet, embalagens, galões e outras coisas que bóiam), além dos peixes mortos, e, independente de a causa ter sido um fato isolado (que eu não acredito) ou ter sido resposta a uma situação cumulativa de poluição ambiental, é preciso levar respostas a estas crianças, antes que elas se sintam desprotegidas, a mercê de uma cultura que dia após dia degrada mais e mais a terra em que vivem, e, principalmente, antes que elas já não acreditem mais nos adultos que as educam.
Agonia de um rio
Andreia Fanzeres*
09.10.2006
Às 17h do último sábado, crianças a
bordo de um barco-escola tiveram uma aula prática de educação ambiental.
Testemunharam, em primeira mão, a tristeza de mirar uma espessa camada formada
por milhares de peixes mortos a boiar no rio dos Sinos, no município de Sapucaia
do Sul, a pouco menos de 20 quilômetros de Porto Alegre. A cena não estava
prevista no roteiro de excursão criado pelos instrutores do Instituto Martim
Pescador, que ao fim do passeio ligaram para o órgão ambiental do estado para
relatar uma das maiores mortandades já registradas no rio.
De Arroio Portão (pequeno rio localizado na parte mais poluída do rio dos Sinos)
até a foz, pelo menos 15 quilômetros do leito do rio dos Sinos ficaram
comprometidos. Pior: é época de piracema, quando os peixes começam a nadar
contra a corrente para reprodução. De acordo com o biólogo Jackson Muller,
diretor técnico da Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam), até a
tarde desta segunda-feira foram identificadas no mínimo dez espécies de peixes
afetados, entre traíras, dourados, pintados, piavas, grumatãs e lambaris.
O rio dos Sinos corre por 190 quilômetros e cruza uma das principais regiões
econômicas do Rio Grande do Sul, a grande Porto Alegre. Recebe os efluentes de
32 cidades e abastece cerca de 1,3 milhões de pessoas. Segundo Uwe Schulz,
biólogo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) que há 10 anos
estuda a ictiofauna da região, mortandades se tornaram eventos comuns, mas não
na escala atual. “A situação crítica no rio dos Sinos se repete na época de
estiagem, quando o nível da água é baixo e, de repente, ocorre uma enxurrada.
Isso eleva abruptamente a quantidade de água e remexe o fundo, deixando o rio
sem oxigênio, o que provoca a mortalidade dos animais”, relata.
Eventualmente, essa revolução no substrato pode levar à tona materiais pesados
depositados há anos, ainda que, na opinião de Schulz, a maioria das indústrias
tenha passado a cuidar bem melhor de seus efluentes nos últimos 20 anos. No
entanto, nem esse histórico de agressões parece suficiente para explicar o
aparecimento repentino de tantos peixes mortos.
Ao longo de Arroio Portão, existem pólos industriais dos setores alimentício,
químico e de couro. A região está tão saturada de empreendimentos poluidores, e
que necessitam de água, que a própria Fepam proibiu a instalação de novas
empresas ou a ampliação das existentes desde o ano 2000. Agora, uma equipe de
técnicos da fundação iniciou um trabalho de vistoria nas 40 maiores empresas
para saber em que condições estão sendo lançados resíduos industriais no rio. No
entanto, Muller admitiu que ficaram de fora as menores, exatamente as que não
dispõem de qualquer licenciamento ambiental.
Esgoto sem tratamento
Para o pesquisador da Unisinos, o problema maior vem do esgoto das cidades que
ficam às margens do rio. “À exceção do município de São Leopoldo, nenhuma outro
trata os efluentes domésticos antes de lançá-los no rio dos Sinos”, diz. A Fepam
admite que até agora as prefeituras não receberam quaisquer punições por
continuarem a despejar esgoto sem tratamento. A sensação de impunidade também é
conhecida por Schulz. Ele diz que durante todo tempo em que estudou a região
jamais presenciou a responsabilização de algum empreendimento após as freqüentes
mortandades de peixes. “Nem o governo do estado nem ninguém está preparado para
lidar com emergências como esse acidente”, diz o pesquisador. O diretor técnico
da Fepam afirmou que cada evento desses estimula o aumento da fiscalização, “mas
nesse caso não foi suficiente”, reconhece.
Muller acredita que pode ter havido uma confluência de fatores, como baixa
disponibilidade de oxigênio associado a um represamento natural do rio dos Sinos
ao desembocar no lago Guaíba. Segundo ele, por mudanças na direção dos ventos e
na vazão, o rio dos Sinos ficou parado desde a última sexta-feira, o que
“aparentemente impossibilitou a diluição da carga de poluentes lançados através
do Arroio Portão”, informa nota técnica do órgão. O professor Schulz, no
entanto, não crê que a causa do desastre ambiental possa ser atribuída a esse
represamento. “Peixe não morre pelo vento, mas por falta de oxigênio devido a
lançamento de poluentes”, atesta.
Desde o fim de semana, equipes da Fepam trabalham para recolher amostras de
oxigênio dissolvido no rio dos Sinos, além de efluentes e peixes para análise.
Muller acredita que até a próxima quinta-feira, dia 12 de outubro, os primeiros
resultados saiam sobre as causas do acidente. Henrique Pietro, presidente da ONG
Instituto Martim Pescador informou que vai entregar ao Ministério Público
Estadual uma cópia do relatório da Fepam para que ele também tome as
providências necessárias.
O órgão ambiental do estado informou ainda que espera colaboração da população
que vive ao longo do rio dos Sinos no fornecimento de mais dados que possam
ajudar a elucidar os motivos imediatos do acidente através do telefone
51-99827840 e de seu site
oficial.
*Colaborou Mariana Menezes.
Fonte da matéria: http://arruda.rits.org.br/notitia/servlet em 11.10.2006