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O Informativo da lista “Educação Ambiental”

No. 19 - Terceira Parte

Alguns textos apresentados na Lista de Discussão do Projeto Apoema - Educação Ambiental (Antigo Projeto Vida – Educação Ambiental)

Os textos não passaram por revisão ortográfica, portanto, podem haver erros.


Uma nova ética para a ciência

 

Gilberto Dupas

Enquanto a polêmica dos transgênicos avança por toda parte, o governo inglês acaba de autorizar cientistas a desenvolverem a clonagem humana para o que chamou de "fins terapêuticos". Mais uma vez o mundo se vê impactado com o paradoxo das novas tecnologias. Elas compõem as cenas da vida cotidiana, instalam-se em nossa intimidade. São filhas do desejo, parceiras ambíguas e desconcertantes, operam com autonomia, mas podem perverter-se, tornar-se nefastas e agredir o próprio homem. A sociedade parece aceitar que as técnicas se imponham como dotadas de um poder próprio, difuso, transnacional, controlado pelas grandes empresas mundiais que as constróem e exploram.
A questão da autonomia das técnicas não é nova. Quando a tecnologia nuclear acabou aplicada às bombas atômicas, um Oppenheimer cheio de culpa reconheceu que "os físicos conheceram o pecado". E declarou a Truman: "Minhas mãos estão cheias de sangue." Imaginava-se então que haveria possibilidade de uma deliberação madura e democrática sobre sua eventual utilização. Seis anos depois, os acontecimentos tomaram vida própria. A questão central é a do poder do sistema tecnocientífico sobre uma economia entregue unicamente a seus dinamismos, obcecada por seus avanços, como no caso da terapia genética e dos alimentos transgênicos.
A tradição filosófica tem questionado profundamente a questão da inevitabilidade da transformação dos avanços da ciência em técnica.
Heidegger achava ser preciso levar a técnica até seu ponto máximo, porque "lá onde está o perigo também viceja o que salva". No entanto, para a ética de Aristóteles, o que constituí o sentido da existência humana não é o domínio, mas o conhecimento. A moral deveria ser o conjunto de ações pelas quais o homem prudente, impregnado pela razão, dá forma à sua existência.
Para ele, somente esse comportamento garantiria que o homem não destruísse a si mesmo. Para Jasper, por exemplo, "não existe nenhuma lei histórica que determine o curso das coisas em seu todo. É da responsabilidade das nossas decisões e nossos atos humanos que o futuro depende". O saber não pode, enquanto tal, ser isolado de suas conseqüências.
Na verdade, um claro paradoxo se instala nas sociedades pós-modernas. Ao mesmo tempo em que elas se libertam das amarras dos valores de referência, a demanda por ética e preceitos morais parece crescer indefinidamente. A cada momento um novo setor da vida se abre à questão do "dever". As novas tecnologias na área do átomo, da informação e da genética causaram um crescimento brutal dos poderes do homem, num estado de vazio ético no qual as referências tradicionais desaparecem e os fundamentos ontológicos, metafísicos e religiosos se perderam. Quais os critérios atuais para definir se uma lei é justa? Justamente no momento em que as ações do homem se revelam grávidas de perigos e riscos diversos, estamos precisamente mergulhados nesse niilismo. É a partir da morte das ideologias, das grandes narrativas totalizadoras e dos sistemas unitários que se impõe reencontrar o "dever ser".
Jonas, pensador alemão aluno de Heidegger, lembra-nos que, pela primeira vez na História da humanidade, as ações do homem parecem irreversíveis. Isso nos remete basicamente ao princípio da responsabilidade, já enunciado por Platão, que governa a ética e a moral, tornando cada um responsável por seu destino. Instigado pelo potencial destruidor das novas tecnologias, Jonas introduziu a idéia de uma humanidade frágil e perecível, perpetuamente ameaçada pelos poderes de um homem perigoso para si mesmo. Esse novo princípio da responsabilidade corresponde a um certo minimalismo ético, um esforço de conciliação entre os valores e interesses.
É preciso emergir um "tu deves" como horizonte da ciência e obedecer a algumas normas éticas fundamentais. Mas como tornar viáveis essas condições iniciais, se boa parte da comunidade científica internacional está atrelada aos projetos privados das grandes corporações globais, submetidos à lógica do lucro e às rígidas regras de sigilo e patentes?
Urge rediscutir o mito do progresso em nossa civilização tecnológica. Até que ponto o prolongamento da vida, por exemplo, é desejável? A sociedade está preparada para receber os velhos? Quem, de fato, se beneficia de viver mais alguns meses atado a uma UTI, morrendo sem dignidade, longe do conforto da família? Para Kierkegaard, a morte levada a sério é uma fonte de energia sem igual, estimula a ação e dá sentido à vida. Já o controle do comportamento pelas drogas, as intervenções no cérebro, a terapia comportamental programando a ação humana e as manipulações genéticas envolvem profundos perigos que afetam a identidade pessoal. Para essas questões vitais a ética tradicional não tem nenhuma resposta.
Jonas propõe um novo imperativo: tenho o direito de arriscar minha vida individual, ou pô-la em perigo, mas não a da humanidade futura. Esse imperativo assume uma não-reciprocidade que se constitui em elemento característico. Como na responsabilidade relativa ao filho, da qual nada se deve esperar em troca; ou como na responsabilidade do homem de Estado, que, mesmo que movido pelo gosto do poder, deveria ter como objeto de sua ação o futuro da humanidade.
Os partidários da autonomia da técnica argumentam com sua neutralidade, um atributo básico de inocência que a tornaria imune a critérios maniqueístas de "bom" ou "ruim". No entanto, a tecnologia é uma produção do livre-arbítrio do homem e de sua cultura, informado por seus valores e éticas. O vetor tecnológico pode ter o rumo que a sociedade humana desejar, se for capaz de se organizar em função dos interesses da maioria de seus cidadãos. Essa aliança com as técnicas deve ser negociada continuamente e requer cidadãos esclarecidos, vigilantes e críticos, não consumidores fascinados.
Os inícios da humanidade e, portanto, da ética foram em parte selvagens e brutais. Os "gigantes" ainda dormem em nossas cavernas profundas. Eles misturam com promiscuidade a terra e o céu, poderes divinos e animais, deuses e feras; espelham a contradição do desejo humano, aprisionado entre os ideais mais elevados e os mais vis poderes; apresentam uma imagem dos originais grosseiros que ainda não trouxeram à luz um "eu" mais civilizado; são uma metáfora para o incorrigível estado de natureza, ainda protegidos da ira divina. Prometeu personifica a techné, o poder sem a sabedoria política ou ética. Irão os gigantes pós-científicos, Prometeus do Iluminismo, sair das sombras de nossas cavernas tecnológicas e fazer-nos sentir novamente o velho medo de um poder sem justiça?

Gilberto Dupas, coordenador da Área de Assuntos Internacionais do Instituto de Estudos Avançados da USP, é autor, entre outros livros, de Economia Global e Exclusão Social
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http://www.estadao-escola.com.br/eescola/pesquisa/artigos/ano2000/etica/2000082635571.htm

A Avaliação Escolar à Luz da Lei 9.394/96
Mestre em Educação e Professor Vicente Martins (vicente.martins@uol.com.br)


O sistema de tirânico de atribuir notas e médias finais, concentrado no poder autocrático do professor, não tem estimulado os desvios éticos na formação escolar? A idéia central do nosso artigo é mostrar a urgente necessidade de novas posturas dos docentes para a reversão do fenômeno da cola, mais conhecida por "pesca", no processo de avaliação escolar.

Há uma relação estreita, oriunda da tradição jesuítica, entre o sistema de notas e a avaliação escolar. Aos olhos da educação em valores, essa relação pode não ser assim tão próxima e inseparável, isto é, a atribuição de notas e médias finais não tem que obrigatoriamente estar inserida no processo de avaliação.

Alguns colegas já me indagaram: "Professor, a LDB acabou com a reprovação?". Não é bem isso. A LDB acabou, a rigor, com o sistema tirânico de notas e médias finais no processo de avaliação escolar. Claro, a nota pode existir como referência de verificação de estudos. Vejam bem: a nota verifica, não avalia. A verificação é parte do processo de aprendizagem e, portanto, não deve ser confundida com o julgamento do ensino. Ninguém aprende para ser avaliado. Nós aprendemos para termos novas atitudes e valores no palco da vida. A avaliação, meio e nunca fim do processo de ensino, não deve se comprometer em ajuizar, mas reconhecer, no processo de ensino, a formação de atitudes e valores.

A educação em valores é uma realidade legislatória. A LDB, ao se referir à verificação do rendimento escolar, determina que nós docentes observemos os critérios de avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais (Art. 24, V). Aspectos não são notas, mas registros de acompanhamento das atividades discentes.

A avaliação contínua e cumulativa é um recado para todos professores que nenhuma avaliação deve se decidida no bimestre, trimestre ou semestre, mas deve resultar de um acompanhamento diário, negociado, transparente, entre docente e aluno, daí seu aspecto diagnóstico. Ou seja, constatada no processo de avaliação a não retenção de conhecimentos, toma-se a medida de superar a limitação de aprendizagem.

A rigor, a avaliava contínua e cumulativa é exatamente para nos convencer que uma nota não deriva de uma eventual prova mensal, bimestral ou semestral. A nota, quando existe, resulta de processo de aprendizagem, em que, a partir de um pacto de convivência entre professor e aluno, define-se a avaliação, satisfatória ou insatisfatória. A avaliação insatisfatória não significa reprovação com conotação de promoção ou decesso.

Na educação escolar, a fase da educação infantil é o período mais fértil para mostrar as crianças que a avaliação é apenas um acompanhamento e registro de seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental (Art. 31).

Nos demais níveis escolares, inclusive a educação superior, a avaliação deve estar submetida aos objetivos de formação do cidadão, especialmente de levar o educando ao desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores.

É na educação básica que devemos reforçar que a cola resulta de atitude negativa, pode ser tornar viciosa, prejudicial à formação de valores. Não somos estimados, na vida, no mundo do trabalho, por notas, mas por merecimento intrínseco.

A nota, no meio escolar, é um julgamento de aproveitamento de estudos, expresso em números; contudo, uma nota dez, por exemplo, não é garantia de uma qualidade virtuosa. A virtude, um dos fins da educação em valores é construída a partir do sentimento de dever e do devir e nada tem a ver com notas ou conceitos de rendimento escolar.

Vamos começar com algumas verdades duras, mas necessárias: a primeira, os alunos na educação infantil enxergam a cola; a segunda, os alunos no ensino fundamental exercitam a cola; a terceira, os alunos no ensino médio se habituam a colar e quarta, os alunos na educação superior aperfeiçoam a cola. Resultado: os professores, desde a primeira fase da educação formal, entram em parafuso com essa constatação e mergulham no desvario pedagógico, sem que encontrem uma solução para essa problemática escolar.

Que os alunos "pescam" é um fato. Os docentes não podem negar e simplesmente fazer vista grossa. Os professores, os mais rígidos, são as maiores vítimas da cola clandestina. Uma pesca bem tramada, utilizando recursos rudimentares ou os mais sofisticados no mundo eletrônico, ocorre principalmente nas escolas dos filhos das classes favorecidas.

Venho observando há quase duas décadas de magistério em escolas privadas, as melhores de Fortaleza, em escolas públicas e nas universidades, públicas e privadas. Mas, dentro desse mar de clandestinidade, consegui, nos últimos anos, reverter em cem por cento a cópia ilegal.

A façanha de eliminar a cola em sala de aula não me torna um herói, dá apenas sentido a uma educação em valores. É isso mesmo. Uma educação voltada aos valores revela, desde cedo, às crianças que, na vida, a competência cognitiva não é tão determinante na conquista de uma vaga no mercado de trabalho. As empresas desejam pessoas competentes, mas equilibradas emocionalmente, com posturas éticas nos conflitos e contradições no mundo do trabalho, que garantem não só a prosperidade mas a própria integração e solidariedade de seus funcionários.

Minha fórmula é simples: eu dou a nota. Isso mesmo. Oferto a nota como se pergunta a macaco se ele quer banana. A nota que o aluno quiser. Isso para mostrar, desde cedo, ao aluno que meu magistério não se confunde com prova formal, escrita, periódica. A prova, claro, é aplicada, mas não para dar nota, mas validade aos conhecimentos apreendidos pelo discentes e respaldar meu método de ensino. Ao contrário de se criar desordem na avaliação, cria-se uma cultura auto-avaliação a partir da consciência-de-si.

Na prática, isso tem mostrado grande resultado: o fim da tensão avaliativa. Os alunos não se sentem pressionados ou tensos para aprender e realizar nossas avaliações. As provas passam a ter um caráter eminentemente de aprendizagem. Enfatizo a necessidade de estabelecermos um acordo de convivência, em que não há lugar, na sala de aula, para a prática do desarrazoado.

Meu papel, no decorrer do processo de aprendizagem, não é ser um detetive ou investigador de crime escolar, pronto para descobrir as mais sofisticadas fórmulas de "pesca". Meu papel é o de educar, modificar comportamento do aluno, levá-lo adiante, fazer avançá-lo não só em aspectos quantitativos mas também em aspectos qualitativos, isto é, os valores e princípios maiores da boa ensinança.

Confesso que, no início desse procedimento avaliativo, temia que muitos alunos, especialmente os mais ousados, chegassem a mim e simplesmente dissessem: "pronto, taqui, mestre, minha prova em branco. Pode colocar um dez". Esse leve temor me fez ver que, na prática docente, minha atitude não poderia ser demagógica ou falaciosa. Em sala de aula, ou você tem uma relação aberta, dialógica, fraterna, verdadeira ou não chega a lugar nenhum.

Facultar a nota e assumir uma educação em valores é o grande desafio para os novos mestres. No meu caso, já no primeiro dia de aula faço a oferta das notas e não há quem admita recebê-las espontaneamente, por puro comodismo. Confirmo a desconfiança de que vamos à escola não para aprender a tirar boas notas, e sim, termos uma formação de atitudes e valores. A vontade de aprender, e aprender em condições de tranqüilidade do espírito, é bem mais prazerosa e construtiva do que receber notas sem a paixão de aprender. A educação em valores não acolhe a lei do menor esforço.

Ora, minha tese é o seguinte: onde há transparência, não há clandestinidade ou ilegalidade. Se minha autonomia docente é capaz de outorgar uma nota, aparentemente graciosa, não se justifica a cola nessa situação, e sim, um maior envolvimento e solidariedade do aluno no processo de ensino proposto pelo professor. Se, eventualmente, o aluno obtiver uma nota baixa, estou ao seu lado para ajudá-lo a superar a deficiência de aprendizagem.

Decerto, esse não é melhor caminho, não é o melhor método para se acabar com a cola. Sei, apenas, que o contraveneno da cola vem das próprias entranhas da escola, da contradição de seu vício. Também nosso compromisso, no âmbito da educação escolar, não é perseguir métodos, e sim, conscientizar nossos alunos de que o conhecimento cognitivo não deve ser tomado como única garantia, no mundo do trabalho, de prosperidade ou sucesso na vida.

http://uvanet.br/artigos/avaliacao.php


Temas Transversais: a Escola da Ultramodernidade
Rafael Yus Ramos *

A história da educação demonstra que as teorias educativas respondem a necessidades imperiosas de adaptação a realidades sociais mutantes, sendo tentativas de superação de paradigmas fortemente assentados em nossa cultura. O testemunho de tal fato foram as propostas de mudança de importantes pedagogos, especialmente neste século. Muitas de suas contribuições se defrontaram com uma instituição, a Escola, que, em relação ao rigor e a profundidade dessas propostas de mudança, manteve praticamente indestrutível a estrutura em que se abrigou desde o nascimento da modernidade.

No fim deste século, um certo ar de milenarismo impregnou a comunidade educativa de alguns países, estimulando a reflexão sobre o sentido e a função da Escola. Algumas dessas reflexões resgataram velhos debates pedagógicos "esquecidos" da história da educação (Martínez Bonafé, 1994) sobre a função social da Escola. Mas, como era de se esperar, esse debate surge num contexto novo de emergência de valores pós-materialistas, na transição à ultramodernidade, diante da constatação da forte deterioração que o humanismo sofreu após um século de vertiginoso desenvolvimento material sem orientação moral.

Por isso, nas reformas educativas de muitos países foram incorporados entre seus princípios educativos todo um repertório de valores humanos a ser desenvolvido nas Escolas. Na Espanha, por exemplo, a Lei de Educação (LOGSE1) tem essa aspiração entre seus fins educativos. No entanto, em seu desenvolvimento, comete várias incongruências ilustrativas de outras similares que foram aparecendo em outros países de nosso entorno geopolítico:

 

  1. Os conteúdos educativos possuem essencialmente uma cultura acadêmica básica, um resumo do "saber" técnico-científico que atualmente está em vigor. Isso acarreta uma articulação do currículo em torno das disciplinas acadêmicas clássicas e de um predomínio do pensamento analítico como procedimento básico para entender a realidade. No entanto, um currículo desse tipo dificilmente pode desenvolver as aspirações que, em matérias de humanismo, refletem os princípios, fins e objetivos educativos.
  2. A formação inicial e permanente do professorado dirige-se fundamentalmente às habilidades de ensino e aprendizagem. Estimula-se a compreensão das bases psicológicas da aprendizagem para melhorar os rendimentos no ensino. Emprega-se muito tempo em familiarizar-se o professorado com todo um aparato pedagogista teórico e descontextualizado e amoral. Não há formação alguma relacionada ao trabalho no âmbito dos valores, que, por outro lado, é visto com certa prevenção por parte de um professorado pós-moderno que viveu etapas de doutrinação política e religiosa.
  3. Mantém-se a estrutura burocratizada da organização escolar. A instituição escolar é concebida como um departamento burocrático, agora modernizado com elementos de participação democrática pelos estamentos, mas sempre de caráter superficial, sem perder sua conexão com a administração educativa do país. Reproduz-se a hierarquia administrativa piramidal inspirada na razão instrumental de toda organização modernista. Conseqüentemente, com a burocratização do conteúdo escolar, mantém-se a estrutura por departamentos estanques. Nessa estrutura, que já filtra alguns valores contrários aos pretendidos, tenta-se fomentar o trabalho cooperativo, em evidente contradição com a estrutura na qual se insere.

 

Essa situação, claramente contraditória e totalmente inoperante para realizar os fins educativos que a própria Lei de Educação prescreve, levou a arbitrar algumas "saídas" para salvar a situação. Entre essas medidas, destaca-se a regulação, sempre a posteriori, de uma série de conteúdos que, não querendo desbancar os previamente fixados pelas disciplinas acadêmicas clássicas, se apresentam como temas transversais no currículo, e, portanto, comuns a todas as áreas e disciplinas. Desde o princípio, insistiu-se em que esses temas não são um "adendo" ao currículo acadêmico oficial, mas sim algumas "dimensões" em torno das quais articular o currículo. Mais adiante, deu-se mais ênfase a essas dimensões morais do currículo, através do programa de Educação em Valores, ainda assim de caráter transversal e para o qual se considera ideal o elenco de temas transversais referentes a valores universais.

Nesse contexto, nascem os temas transversais e a educação em valores, um conjunto de conteúdos educativos que classicamente tinham sido desenvolvidos paralelamente ao currículo oficial e sempre vindos dos setores do professorado mais inquietos ou sensíveis a alguns desses temas ou a partir de programas educativos desenvolvidos por outros ministérios (por exemplo: saúde, meio-ambiente, co-educação, etc.), como parte de sua política. De maneira geral, a Escola sempre respondeu a esses temas de uma forma marginal, episódica, com freqüência unicamente restrita a determinadas campanhas ou efemérides relacionadas com algum desses temas.

Ao contrário, partindo dos movimentos de renovação pedagógica, o debate sobre a transversalidade constituiu uma via para destacar as insuficiências do novo sistema educativo e chamar a atenção sobre velhas propostas pedagógicas que agora recebem uma nova atualidade. É desse contexto a proposta que temos feito (Yus Ramos, 1996). No entanto, na prática, a transversalidade foi interpretada de forma muito diferente pelos aplicadores do currículo:

 

  1. Como um conjunto de normas de caráter moral e, portanto, atribuível a disciplinas específicas, preparadas academicamente para isso, como a Filosofia-Ética.
  2. Como novas disciplinas a acrescentar às clássicas acadêmicas em horário específico, como acontece com as tutorias, ou como optativas (por exemplo, a educação ambiental entraria numa optativa chamada ecologia; a educação para a saúde em outra, chamada Nutrição e Saúde, etc.), ou simplesmente como um programa que dinamiza o Departamento de Orientação Escolar.
  3. Como unidades didáticas isoladas anexas a um temário superabundante de conteúdos acadêmicos de determinadas disciplinas (por exemplo, ciências naturais, ciências sociais, educação física, filosofia-ética), para dividir se houver tempo, deixando de lado o restante das disciplinas (por exemplo, matemática, linguagem, idiomas, etc.) nessa função.
  4. Freqüentemente, tudo isso acaba por centrar a atenção dos alunos em torno de um tema determinado durante um dia, coincidindo com sua efemérides mais representativa (por exemplo, Dia da Não-violência, Dia do Meio-Ambiente, etc.).
  5. Como temas que o professorado pode incluir opcionalmente no currículo, à medida que seja compatível ou reforce o restante do currículo acadêmico (currículo a la carte).
  6. Como um conjunto de temas para distribuir igualmente entre cada uma das disciplinas, forçando os temas acadêmicos a permitirem a entrada de temas transversais.
  7. Como uma espécie de infusão que se dilui no currículo. Na prática, não se entende como implementar isso, sendo freqüente que se traduza numa inibição generalizada.
  8. Como um conjunto de temas que não mantêm relação alguma entre si, o que só se justifica partindo de uma dimensão reducionista e localista da problemática transversal, limitando extremamente o potencial explicativo dos problemas que afligem atualmente a humanidade.
  9. Em todos os casos, não se realiza uma integração dos temas no Projeto de Centro, faltando o debate necessário sobre a priorização dos temas transversais em função das características ou necessidades do entorno social, nem um trabalho colegiado em torno desses temas que se supõem sejam uma responsabilidade comum ou interdepartamental.

 

Nenhuma dessas possíveis interpretações é correta e, freqüentemente, conduz a uma trivialização do conteúdo dos temas transversais ou assegura um efeito meramente estético. A que se deve essa falta de sintonia entre o que "se pretende" e o que "se faz" com os temas transversais? Na nossa opinião, os problemas são de natureza cultural e estrutural e refletem-se nas incongruências cometidas no desenvolvimento da política da Reforma Educativa. Para levar adiante a transversalidade é preciso ir construindo uma nova cultura acadêmica, o que levaria consigo novas estruturas de acordo com as exigências de implementação e mudanças de geração na forma de entender a função e a tarefa da Escola. Embora, pelo menos à luz da escassa ênfase que se dá, os temas transversais sejam uma espécie de "adorno" do sistema, uma forma de responder com ares de modernidade a um novo sistema educativo diante das exigências do mundo atual, o fato é que a transversalidade é um desafio muito mais importante do que em princípio se pretende propor. Ao invés de aprofundar-se nesse desafio, os governos optam por manter o velho estabelecimento modernista, cujas incongruências, indicadas anteriormente, são responsáveis pela manutenção de velhas inércias.

Efetivamente, como manifestamos em outras ocasiões (Yus Ramos, 1997), os temas transversais, isto é, a transversalidade, remetem inexoravelmente à complexização e à globalização do currículo. De fato, a tese da globalização não é nova, mas agora nos é apresentada com outros matizes, pois não são só os conhecimentos se globalizam, mas também as dimensões ético-morais e uma maneira diferente de conceber a função de um novo paradigma, que temos chamado paradigma sistêmico (chamado também de global, ecológico, complexo), o qual já está começando a afirmar-se, em todos os ramos do saber e da cultura, como necessidade e como reação diante das insuficiências do paradigma mecanicista (chamado também de analítico, cartesiano, simplificador), o qual tem dominado nossa cultura há séculos. O conflito aparece quando os temas transversais exigem um planejamento sistêmico, e o restante do currículo e a organização escolar persistem em seu planejamento analítico. Essa "dupla linguagem" se resolve infalivelmente a favor do paradigma atual, da ordem estabelecida, que também é o que sintoniza com a cultura do professorado, formado inicial e permanentemente por essas clássicas coordenadas.

É como se, nas reformas educativas atuais, se mantivesse uma "ordem moral" que remete a uma dupla concepção da educação; por um lado, interessa-nos indivíduos que assimilem uma cultura que se revelou imprescindível para o desenvolvimento (cultura científico-tecnológica), mas, por outro, também nos interessa deixar claro que somos sensíveis aos problemas que esse desenvolvimento provoca no tecido social e, por isso, também nos interessa indivíduos solidários, tolerantes, que saibam proteger sua saúde, a natureza, etc. Como é de se esperar, ambas as concepções têm escassos pontos de encontro: é preciso optar, e a opção a ser escolhida sempre será a que melhor se ajustar às exigências político-econômicas, o que é garantido pelo paradigma mecanicista. Essa questão reflete o divórcio entre os direitos humanos, os valores constitucionais e a economia. Nessa situação, a Escola continua igual, com novos discursos, mas com as mesmas ações.

Diante dessa situação, temos afirmado que o desafio dos temas transversais está na possibilidade, histórica, de fazer frente à concepção compartimentada do saber que caracterizou a Escola dos últimos anos, e "fazer educação", formar indivíduos autônomos e críticos, com um critério moral próprio, e capazes de fazer frente aos problemas apresentados hoje pela humanidade. Isso acontece porque, como muitos profissionais do ensino admitem, a transversalidade é uma opção ideológica que induz a novas propostas metodológicas, à medida que ajuda a dimensionar todo o processo em função dos aspectos que a comunidade educativa considera relevantes para a formação das novas gerações. Educar na transversalidade implica uma mudança importante na perspectiva do currículo escolar, à medida que vai além da simples complementação das áreas disciplinares, trazendo elementos éticos ou sociológicos, a não ser que, levada até suas últimas conseqüências, remova os fundamentos da sólida instituição escolar anacrônica, para rejuvenescê-la e colocá-la a serviço das exigências dos habitantes desta "aldeia global" que constitui nosso planeta.

Devido à grande potencialidade educativa dos temas transversais e à possibilidade de tomar partido na velha polêmica pedagógica, muitos profissionais meditaram sobre o alcance da situação que se propõe no momento de introduzir os temas transversais no currículo, inferindo grandes possibilidades de criar, a partir dessa "brecha" que o sistema deixa, uma Nova Escola, mais centrada nos valores universais. No entanto, o fato real é que os conteúdos científicos continuam tendo um peso indiscutível, sendo uma realidade com a qual se deve contar no momento de criar propostas pedagógicas realizáveis. Nesse sentido, alguns autores, como Moreno Marimón (1993), apontam como solução a integração dos saberes, descendo as disciplinas científicas de suas torres de marfim e deixando-se impregnar-se de vida cotidiana, sem renunciar, por isso, às elaborações teóricas imprescindíveis para o avanço da ciência.

Precisamente são as matérias transversais da atual reforma educativa que oferecem a possibilidade de realizar essa tarefa, e isso é possível pelo menos na Educação Obrigatória, na qual a própria Lei da Educação não contempla o papel do ensino na inserção no mundo do trabalho, e sim na inserção na vida em sociedade. Mas, já que as mudanças culturais não podem ser drásticas, propomos o aproveitamento do fenômeno da transversalidade (que sobre o papel é reconhecido institucionalmente, até torná-lo obrigatório) para ir incorporando novas propostas, pesquisar novos currículos que devem ir tornando-se complexos ou globalizando-se, impregnando-se da problemática de nosso mundo, e adequando as estruturas e os hábitos de trabalho profissional a essas novas dimensões mais flexíveis, cooperativas, interdisciplinares e comprometidas socialmente.

Em resumo, necessitamos de outra forma de Escola, que se ajuste à mudança de paradigma que se está produzindo numa escala sociológica e mundial. Uma escola com outra forma de contemplar a cultura, mais aberta e permeável à realidade pluricultural dos países modernos, liberando-a do monopólio do texto escrito, com uma organização mais aberta, relações mais flexíveis e democráticas, em que se vivenciem valores próprios de uma ética cívica ou ética de mínimos que admita o pluralismo axiológico próprio de sociedades pluralistas, através do estabelecimento de conflitos e do exercício da razão dialógica, do espírito crítico e do fenômeno da auto-estima e da auto-regulação dos indivíduos, que se comprometa com os problemas reais de seu entorno imediato e analise nosso papel nos problemas globais que afligem a humanidade. Para avançar nessa direção, a Escola deverá inclinar-se por uma forma alternativa de conceber o currículo, e os temas transversais, que remetem inexoravelmente ao conceito de globalidade curricular, deverão iluminar o caminho que precisamos percorrer para situarmo-nos nessa dinâmica.

 

Nota

1 Ley Orgánica de Ordenación General del Sistema Educativo (Lei Básica da Reforma Educativa Espanhola de 1990).

 

Referências Bibliográficas

MARTÍNEZ BONAFÉ, J. Los olvidados. Cuadernos de Pedagogía, 1994, n. 230, p.58-65.

MORENO MARIMÓN, M. Los temas transversales: una enseñanza mirando hacia delante. In: BUSQUETS et al. Temas Transversales. Santillana, Madrid: Aula XXI, 1993.

YUS RAMOS, R. Temas transversales: hacia una nueva escuela. Barcelona: Graó, 1996.

YUS RAMOS, R. Hacia una educación global desde la transversalidad. Madrid: Anaya, 1997.

 

Rafael Yus Ramos é Professor de Ensino Secundário, Coletividade Pedagógica da Axarquía, Espanha.

http://www.bibvirt.futuro.usp.br/acervo/paradidat/patio/patio5.html


"O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos, como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é um tipo de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto apenas pelas pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá atingir completamente este objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior".

Albert Einstein

TEXTO 1

EDUCAÇÃO AMBIENTAL HOJE – ferramenta para a  construção de sociedades sustentáveis

Ao lado dos direitos humanos, as questões relativas ao meio ambiente estão entre os assuntos polêmicos mais discutidos neste momento da história da humanidade. Nossa era se caracteriza pela informação e pela comunicação. Atingimos um nível de desenvolvimento científico e tecnológico altamente sofisticado, mas ainda não conseguimos recuperar os danos causados à natureza, nem possibilitar o reequilíbrio dos ecossistemas que garantem a existência da vida, equacionando os prejuízos resultantes da degradação ambiental e da utilização abusiva dos recursos naturais.

Muitas ações anteriormente empreendidas com estas finalidades se perderam em nossa cultura, durante o surgimento e a internacionalização da sociedade de consumo, ocorridos no século vinte, quando cada vez mais produtos foram inventados e fabricados  para serem comercializados, visando suprir necessidades reais e emergentes. Os bens de consumo que caracterizam o conforto material vivenciado pelos povos dos países ricos foram apresentados às populações dos países pobres,  fornecedores   das matérias primas que se transformam nesses bens. Estes países se tornaram também compradores e consumidores; suas reservas naturais, exploradas pelos grandes grupos econômicos internacionais, estão atualmente ameaçadas de esgotamento e degradação, tanto quanto as dos países ricos já o foram. E o modelo de desenvolvimento que sustém o consumo reproduz um círculo vicioso que não inclui a preservação, o cuidado ou a proteção ambientais.

Tal modelo se originou e se consolidou em premissas científicas e filosóficas que consideram o meio ambiente, o homem e todas as espécies vivas como partes separadas, que podem ser exploradas comercialmente, em benefício próprio de diferentes grupos.

A visão mecanicista estende “essa  visão fragmentada  à sociedade humana, dividindo-a em nações, raças, grupos religiosos e políticos. A crença de que todos esses fragmentos – em nós mesmos, no meio ambiente e na sociedade – são separados, alienou-nos da natureza e de nossos companheiros humanos e, assim, nos diminuiu.”( Fritjof Capra).

O homem, julgando-se com direito natural ao domínio do seu ambiente para seu bem-estar, estendeu esse direito ao domínio dos seus semelhantes e de todos os outros seres vivos. A  concepção fragmentada de mundo e de sociedade que considera o ser humano, a natureza e a sociedade como engrenagens, cujas peças separadas só se relacionam para garantir o funcionamento do conjunto, originou relações conflituosas baseadas na exploração, no corporativismo e na competição, que resultaram, de um lado, em elevados níveis de riqueza de poucos e de outro, em profundos índices de miséria para muitos.

Enfrentando essa realidade social, econômica e cultural da sociedade de nossos dias, precisamos operar algumas mudanças fundamentais no modo como consideramos o mundo, a vida e a natureza, bem como nos meios que utilizamos para manter a sobrevivência da espécie humana. Para começar, temos de recuperar a nossa humanidade, a nossa experiência de conexidade e interatividade com todas as formas de vida no planeta. E, para tanto, precisamos reconsiderar os processos educacionais, suas finalidades e instrumentos.

Temos de alterar o tipo de desenvolvimento sócio-econômico até agora adotado, que não respeita limites de exploração. Riqueza não pode mais ser entendida somente como acúmulo de dinheiro e bens materiais; de que adiantará o dinheiro se não possuirmos mais água, ar e alimento em condições adequadas para nos mantermos vivos e saudáveis?

Muito se tem falado sobre um tipo de desenvolvimento denominado sustentável, que procura equilibrar crescimento econômico, avanço científico e tecnológico e melhoria da qualidade de vida para todos os seres. Esta proposta não é nova. A própria natureza a observa, como se comprova no princípio de que “na natureza, nada morre, nada desaparece; tudo se transforma.’ E tudo se aproveita e reaproveita, podemos acrescentar. Esse é  um  conceito básico do desenvolvimento sustentável, fundamentado nas premissas comprovadas de que todas as fontes de energia em utilização são finitas,  todas as formas de vida são interdependentes e que somente será possível implementar um novo modelo de desenvolvimento  através da cooperação, da parceria e da proteção ao meio ambiente em sua totalidade. Hoje, ultrapassamos o conceito de desenvolvimento sustentável, ampliando-o para as “sociedades sustentáveis”.

Para tanto,é preciso pensar o mundo a partir de “novos modos de ser, de sentir, de pensar...”, que implicam em “novos valores, novos sonhos e novos comportamentos assumidos por um número cada vez maior de pessoas e de comunidades.” ( Leonardo Boff)

A educação ambiental, hoje, implica na construção de valores, conhecimentos e práticas de vida retomando os princípios de organização dos ecossistemas, como pontos de partida para sociedades sustentáveis: o fluxo cíclico da produção e do consumo; a interdependência, mediante relações em rede, e não hierárquicas ou sistêmicas; a parceria e a cooperação como estratégias de co-evolução; a flexibilidade, condição principal para a ocorrência do processo de adaptação; e a diversidade, vista não mais como obstáculo entre os seres, mas como manifestação da universalidade e enriquecimento do existir humano.  As metodologias e técnicas educativas deverão privilegiar a participação, a colaboração entre as comunidades, o compartilhamento de experiências de outras culturas e sua aplicação no próprio meio.

A construção de sociedades sustentáveis só ocorrerá a partir da mudança de valores, a começar pela substituição do termo “globalização” por “planetariedade”. Trata-se de superar o modelo atual, não-universalizável e auto- destrutivo, baseado na acumulação e na exclusão, e viabilizar um novo projeto civilizatório. A dimensão planetária implica em relações interativas e solidárias, visando a  proteção de todas as manifestações de vida, e em um amplo conceito de cidadania: a cidadania planetária.

Tal é o desafio da educação ambiental neste começo de século e de milênio, quando a manutenção da vida nos parece tão frágil, diante da incrível capacidade destrutiva do ser humano: ser a grande ferramenta mundial para o entendimento dos princípios da sustentabilidade e para a criação de sociedades sustentáveis, o que só poderá ser obtido com a revisão dos valores humanos, a construção de atitudes éticas e comportamentos concretos, envolvendo os homens entre si e estes com o planeta por inteiro.

 
TEXTO 2.

PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

                     Um trabalho de Educação Ambiental é, em sua essência, um movimento intencional no sentido da construção de determinados  valores de vida pelos seres humanos - uma outra  maneira de se relacionar consigo mesmos e com o mundo.

                     O enfoque se desloca do Homem Senhor da Natureza, detentor de todos os direitos sobre ela e tudo o que a compõe,  para uma perspectiva de conjunto,  de  ecossistema, de meio  ambiente - onde o ser humano é um elemento racional  no conjunto dos seres vivos, e como tal deve agir, para proteger e conservar o meio do qual dependem sua sobrevivência e a de todas as formas de vida.

                   Trata-se de um enfoque filosófico, em  se consideram os fins da educação - que tipo de pessoas, de mentalidade, de nova sociedade queremos e precisamos formar ? Tais questões devem ser discutidas pelos educadores ambientais. Sem  esta reflexão, qualquer prática educativa ficará “solta”, inconsistente, e, talvez, infelizmente inócua.

                   Fazer o máximo  que pudermos pelo que acreditamos, da melhor maneira que conseguirmos, visando a criação de novas formas de viver e estar no mundo - este deve ser o princípio ético de nossa atuação, cientes de que não existe boa  prática sem boa  teoria, e de que todas as nossas escolhas dependerão dos fins a que estivermos servindo.

                      Quando falamos sobre Práticas de Educação Ambiental, estamos nos referindo às  ações educativas envolvendo o conhecimento, o estudo e a análise das questões ambientais, bem como a participação em ações concretas e comprometidas com a viabilização de soluções para os problemas atuais e com o  processo de  construção de sociedades sustentáveis.

                   Uma vez que pretendemos promover novas formas de pensar e sentir o mundo e de se relacionar com ele, o ponto de partida de qualquer trabalho teórico e prático de Educação Ambiental será  a ação sobre a realidade vivida no dia a dia.

 “Pensar globalmente e agir localmente”

Este é um conceito básico para todo o trabalho de Educação Ambiental, e que resulta de nova maneira de atuar na realidade – a assim chamada cidadania planetária. Todas as questões devem ser analisadas na sua dimensão local e, ao mesmo tempo, global, associada aos seus aspectos comuns a toda a humanidade, em uma perspectiva não limitada pelas circunstâncias imediatas. Qualquer atividade deve incluir esta dimensão, ainda que se esteja trabalhando com crianças pequenas. Elas viverão em um mundo onde tudo será ainda mais interdependente do que é hoje. É fundamental respeitar a realidade imediata, mas tudo o que a criança aprende deverá lhe ser útil em outros tempos e lugares. O que está sendo realizado com as crianças e jovens, é  importante para o bairro, a cidade, o estado, o país, o mundo. Todos os esforços, por mais simples ou pequenos que pareçam, se envolverem ações de sustentabilidade e de proteção e preservação da vida, têm  valor e significado globais, o que torna compensador,  significativo e grandioso tudo o que fizermos em defesa do meio ambiente.

 

Realizar intervenções simples e construtivas na realidade imediata

A chave de qualquer proposta de educação ambiental.  É ultrapassar o discurso, a posição ameaçadora ou paranóica frente às questões ambientais, que, por só mencionar os seus aspectos negativos, se desgasta e perde efetividade.

                       É começar a mudar, mudando e colocando em prática ações objetivas, solidárias, desenvolvendo novos  hábitos de vida  na prática cotidiana  da  escola e da comunidade.

São atitudes simples,  relativas a:

·        Coleta e  separação do lixo reciclável;

·        instalação de lixeiras em todas as dependências da escola;

·        economia de recursos materiais e  de energia elétrica;

·        adoção de  cardápios naturais que promovam uma alimentação mais saudável;

·        reutilização, reaproveitamento e reciclagem de materiais que estejam sendo desperdiçados;

·        mais e melhor  convívio com a natureza, desenvolvendo-se projetos de paisagismo, plantios, hortas e jardins;

·        mudanças físicas e concretas, operadas  no  uso da água,  no cuidado com córregos e rios,   terrenos baldios, praças, arboretos e bosques;

·        novos comportamentos em relação ao trânsito, à higiene, ao convívio social, privilegiando-se a cooperação, a atuação solidária, o respeito mútuo, a tolerância com todas as diferenças;

·        pesquisa de experiências de sustentabilidade realizadas por outras comunidades, que possam ser adequadas à realidade local. 

               Enfim, é a construção de novos padrões de comportamento, mais adequados ao mundo de hoje, através de ações que possam ser realizadas concretamente  no espaço das salas de aula, das escolas, dos bairros, das diversas instituições sociais e das comunidades.

 

Articular todas estas ações aos conteúdos curriculares

 É óbvio que todas as alternativas de ação propostas acima envolvem conteúdos do currículo, pois não é mais possível trabalhar  na metodologia tradicional da decoreba, da aula ditada ou dos exercícios repetitivos. Cada professor poderá ter o prazer de criar sua própria metodologia, a partir da abordagem de temas ambientais, integrados aos  assuntos do currículo de Ciências, História e Geografia, das atividades de Educação Artística e Educação Física, aos exercícios e problemas matemáticos e às leituras e produção de textos em Língua Portuguesa.

                As Práticas de Educação Ambiental podem seguir dois caminhos:

Projetos participativos, envolvendo temas como lixo, plantios, cuidados com o solo, água, animais,  ar  e outros, a serem trabalhados em propostas dirigidas ao ambiente imediato. Tal trabalho é muito compensador e produtivo, levando à intensificação e aprofundamento dos estudos sobre os conteúdos curriculares, bem como à implantação de ações efetivas na comunidade, pesquisas, visitas a órgãos públicos, instituições sociais, empresas, etc.

 Enfoque ambiental dos conteúdos, tratando-se questões ambientais como temas transversais aos conteúdos curriculares. Destacamos que um estudo científico indispensável, que envolve observação, análise, pesquisa de campo e bibliográfica, etc., é o do funcionamento dos ecossistemas, para demonstração dos processos de sustentabilidade empregados na natureza e que poderão servir de referência para práticas sociais ambientalmente adequadas.

 

Liana Márcia Justen, pedagoga, especialista em Educação Básica e Planejamento Educacional,

assessora pedagógica da SEMA

 


A águia

 

A águia é a ave que possui maior longevidade da espécie. Chega a viver 70 anos. Mas para chegar a essa idade, aos 40 anos ela tem que tomar uma série e difícil decisão. Aos 40 anos ela está com: unhas compridas e flexíveis, não consegue mais agarrar suas presas das quais se alimenta; o bico alongado e pontiagudo se curva; apontando contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar já é tão difícil. Então a águia só tem duas alternativas: morrer ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 160 dias. Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher em um ninho próximo a um paredão, onde ela não necessite voar. Então, após encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico em uma parede, até conseguir arrancá-lo. Após isso, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar suas unhas. Quando novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E só após cinco meses sai para o famoso vôo de renovação e para viver então mais 30 anos. Assim, concluímos que: 1) A vitória é para os que tem coragem e não sentem pena de si mesmo; 2) Em nossa vida, muitas vezes temos de nos resguardar por algum tempo e começar um processo de renovação; 3) Para que continuemos a voar um vôo da vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes e outras tradições; 4) Somente livres do peso do passado, poderemos aproveitar o resultado valioso que uma renovação sempre traz.

Coluna Horácio Braun


A Montanha

Quando a próxima tarefa é uma montanha à sua frente,
ela pode parecer muito difícil de se escalar.
Mas você não precisa escalá-la de uma vez.
Dê apenas um passo de cada vez...
Dê um pequeno passo...
e dê mais um pequeno passo...
e, mais um...
e então, outro...
E você descobrirá que a tarefa, que era uma montanha à sua frente,
é apenas uma montanha que você já escalou!

Ashley Rice.

 



UM MANIFESTO ECOLÓGICO

 

O Poder de Destruir - O Poder de Criar

 


Murray Bookchin

 

O poder que esta sociedade tem para destruir atingiu uma escala sem precedentes na história da humanidade - e este poder está a ser usado, quase sistematicamente, para causar uma destruição insensata em todo o mundo da vida natural e nas suas bases materiais.

Em quase todas as regiões, o ar está a ser viciado, as águas poluídas, o solo está a ser levado pela água, a terra foi drenada e a vida natural destruída. As áreas costeiras e mesmo as profundezas do mar não são imunes ao alastramento da poluição. Com maior significância no fim de contas, os ciclos biológicos básicos, tais como o ciclo do carbono e do nitrogênio, dos quais todas as coisas vivas (incluindo os humanos) dependem para a manutenção e renovação da vida, estão a ser alterados até um ponto irreversível.

A introdução arbitrária dos desperdícios radioativos, pesticidas de longa atividade, resíduos de chumbo e milhares de produtos químicos tóxicos ou potencialmente tóxicos na comida, água e ar; a expansão das cidades em vastas cinturas urbanas com concentrações densas de populações comparáveis em tamanho a nações inteiras; o aumento de ruído ambiente; as pressões criadas pela congestão, pela aglomeração e manipulação das massas; as imensas acumulações de lixo, refugo, dejetos e desperdícios industriais; o congestionamento do trânsito nas auto-estradas e nas ruas citadinas; a destruição pródiga de preciosos metais em bruto; a cicatrização da terra feita pelos especuladores da propriedade, os barões das indústrias mineira e da madeira, os burocratas da construção de auto-estradas. Todos eles fizeram tais estragos numa simples geração, que excede os que foram feitos em milhares de anos pela habitação humana no seu planeta. Se tivermos em mente este ritmo de destruição, é aterrador refletir acerca do que acontecerá no futuro, à geração vindoura.

A essência da crise ecológica do nosso tempo é que esta sociedade - mais do que qualquer outra no passado - está a desfazer literalmente o trabalho da evolução orgânica. É um axioma dizer que a humanidade faz parte do edifício da vida. É talvez mais importante, nesta fase tardia, sublinhar que a humanidade depende perigosamente da complexidade e variedade da vida, e que o bem-estar e a sobrevivência humanas assentam sobre uma longa evolução de organismos em formas crescentemente complexas e interdependentes. O desenvolvimento da vida num tecido complexo, a criação dos animais e plantas primordiais em formas altamente variadas, tem sido a condiçãso prévia para a evolução e sobrevivência da própria humanidade e para uma relação harmônica entre a humanidade e a natureza.

 

 

Tecnologia e População

Uma vez que a geração passada tem testemunhado a expoliação do planeta, que ultrapassa todos os estragos feitos pelas gerações primitivas, pouco mais do que uma geração poderá restar antes que a destruição do meio ambiente se torne irreversível. Por esta razão, devemos debruçar-nos sobre as origens da crise ecológica com honestidade implacável. O tempo corre precipitadamente e as décadas que restam do século XX podem bem ser a última oportunidade que teremos para restaurar o equilíbrio entre a humanidade e a natureza.

Assentarão as origens da crise ecológica no desenvolvimento da tecnologia? A tecnologia tem-se tornado um alvo fácil para aqueles que querem evitar encarar as condições sociais profundamente marcadas por máquinas e processos técnicos perigosos.

É tão conveniente esquecer que a tecnologia tem servido não só para subverter o meio ambiente como também para o melhorar. A Revolução Neolítica, a qual produziu o período mais harmonioso entre a natureza e a humanidade pós-paleolítica, foi acima de tudo uma revolução tecnológica. Foi este período que trouxe à humanidade as artes da agricultura, tecelagem, cerâmica, da domesticação dos animais, a descoberta da roda e muitos outros melhoramentos básicos. É verdade que existem técnicas e atitudes tecnológicas que são inteiramente destruidoras do equilíbrio entre a humanidade e a natureza. É responsabilidade nossa separar a promessa da tecnologia - o potencial criativo - da capacidade da tecnologia para destruir. Na verdade, não existe tal palavra como "tecnologia" que presida a todas as condições e relações sociais. Existem sim, diferentes tecnologias e atitudes para com a tecnologia, algumas das quais são indispensáveis para restaurar o equilíbrio, e outras que têm contribuido profundamente para a sua destruição. Do que a humanidade necessita não é rejeitar em grande escala as tecnologias avançadas, mas sim peneira-las, necessita realmente de um maior desenvolvimento da tecnologia a par com os princípios ecológicos, o que contribuirá para uma nova harmonização da sociedade e do mundo natural.

Será o crescimento da população, a origem da crise ecológica? Esta tese é a mais inquietante, e de muitas maneiras a mais sinistra, a ser formulada pelos movimentos ecológicos ativos nos E.U.A. Neste sentido, um efeito chamado "crescimento populacional" baralhado na base de estatísticas e projeções superficiais, transforma-se numa causa. É dada assim supremacia a um problema de proporções secundárias no momento presente, obscurecendo as razões fundamentais da crise ecológica. De fato, se as atuais condições econômicas, políticas e sociais prevalecerem, a humanidade irá com o tempo superpovoar o planeta, e pelo puro peso dos números transformar-se-á num flagelo no seu próprio habitat global. Há qualquer coisa de obsceno, contudo, acerca do fato de que a um efeito "crescimento populacional", é concedida supremacia na crise ecológica por uma nação que tem pouco mais do que 7% da população mundial mas que consome prodigamente mais de 50% dos recursos mundiais, e que está atualmente ocupada no despovoamento de um povo do Oriente, que tem vivido à séculos em equilíbrio apurado com o seu meio ambiente.

Devemos fazer uma pausa para examinar o problema populacional tão amplamente observado pelas raças brancas da América do Norte e da Europa - raças que têm explorado arbitrariamente os povos da Ásia, África, América Latina e do Pacífico Sul. Os explorados têm explorado delicadamente os seus exploradores que, do que eles necessitam não são dispositivos anticoncepcionais, nem "libertadores" armados, nem do Prof. R. Ehrlich para resolverem os seus problemas populacionais; precisam antes, de uma devolução justa dos imensos recursos que foram roubados das suas terras, pela América do Norte e pela Europa. Equilibrar estas contas é mais premente no momento, do que equilibrar as taxas de nascimentos e mortes. Os povos da Ásia, África, América Latina e do Pacífico Sul podem justamente apontar que os seus "conselheiros" Americanos têm mostrado ao mundo como expoliar um continente virgem em menos de um século e têm acrescentado ao vocabulário da humanidade palavras como "esgotamento precoce".

Isto é claro: quando grandes reservas de mão-de-obra foram necessárias durante a Revolução Industrial dos princípios do século XIX para equipar as fábricas e diminuir os salários, o crescimento populacional foi saudado entusiasticamente pela nova burguesia industrial. E o crescimento populacional ocorreu apesar do fato que, devido ao pesado horário de trabalho e às cidades altamente superpovoadas, a tuberculose, cólera e outras doenças eram epidemicas na Europa e nos Estados Unidos. Se as taxas de nascimento excederam as da morte nessa altura, não foi porque os progressos feitos ao nível de cuidados médicos e sanitários tenham produzido qualquer declínio dramático na mortalidade humana; antes, o excesso de nascimentos em relação às mortes pode ser explicado pela destruição das formas da família pré-industrial, instituições de vila, ajuda mútua e padrões de vida estáveis e tradicionais, às mãos da "empresa" capitalista. O declínio da moral social introduzido pelos horrores do sistema fabril, o aviltamento das populações agrárias tradicionais transformadas em proletários e moradores urbanos, brutalmente explorados, produziu uma atitude concomitantemente responsável para com a família e a procriação. A sexualidade tornou-se um refúgio de uma vida de trabalho duro, bem como o consumo do gin barato; o novo proletariado gerou crianças (muitas das quais nunca sobreviveram até a idade adulta), tão inconscientemente como foi levado ao alcoolismo. É muito semelhante o caso ocorrido quando as vilas Africanas, Asiáticas e Latino-Americanas foram sacrificadas ao santo altar do imperialismo.

Hoje a burguesia "vê" as coisas de uma forma diferente. Os anos dourados da "livre empresa" e do "trabalho livre" declinam perante uma era de monopólio, cartéis, economias controladas pelo estado, formas institucionalizadas de mobilização operária (sindicatos), e de máquinas automáticas ou cibernéticas. Largas reservas de mão-de-obra desempregada não são já necessárias para ir ao encontro das necessidades de expansão do capital, e os salários são em grande parte mais negociados do que deixados à livre atuação do mercado de trabalho. Anteriormente necessárias, as reservas de mão-de-obra inútil acabaram por tornar-se numa ameaça à estabilidade de uma economia burguesa manipulada. A lógica desta nova "perspectiva" encontrou a sua mais aterradora expressão no fascismo alemão. Para os nazis, a Europa estava já "superpovoada" nos anos trinta e o "problema populacional" foi "resolvido" nas câmaras de gás de Auschwitz. A mesma lógica está implícita em muitos dos argumentos neo-Malthusianos que se mascaram hoje como ecologia. Que não haja dúvida quanto a esta conclusão.

Mais tarde ou mais cedo a proliferação descuidada de seres humanos terá de ser detida, mas, ou o controle populacional terá de ser feito por meio de "controles sociais" (métodos autoritários ou racistas e, no fim, ser um genocídio sistemático), ou por uma sociedade libertária, ecologicamente orientada (uma sociedade que desenvolva um novo equilíbrio com a natureza fora da veneração pela vida). A sociedade moderna encontra-se perante estas alternativas mutuamente restritas e deve fazer uma escolha sem dissimulação. A ação ecológica é fundamentalmente ação social. Ou vamos diretamente às origens sociais da atual crise ecológica, ou seremos logrados por uma era de totalitarismo.

Ecologia e Sociedade

A concepção básica de que a humanidade deve dominar e explorar a natureza, provém da dominação e exploração do homem pelo homem. Na verdade, esta concepção vem de tempos remotos em que o homem começou a dominar e explorar as mulheres dentro da família patriarcal. Desde essa altura os seres humanos foram olhados, cada vez mais, como meros recursos, como objetos em vez de sujeitos. As hierarquias, classes, sistemas de propriedade e instituições políticas que emergiram com o domínio social foram transferidas conceitualmente para a relação entre a humanidade e a natureza. Esta, também foi cada vez mais olhada como mero recurso, um objeto, uma matéria bruta a ser explorada tão implacavelmente como escravos num latifúndio. Esta "visão do mundo" impregnou não só a cultura oficial da sociedade hierárquica; tornou-se na maneira como os escravos, servos, trabalhadores da indústria e as mulheres de todas as classes sociais se começaram a considerar a eles mesmos. Contida na "ética do trabalho", na moralidade baseada na recusa e na renúncia, num modo de comportamento baseado na sublimação dos desejos eróticos e noutros aspectos mundanos (sejam eles Europeus ou Asiáticos), os escravos, servos, trabalhadores e metade das mulheres da humanidade foram ensinadas a vigiarem-se a si próprios, a talharem as suas próprias cadeias, a fechar as portas das suas prisões.

Se a "visão do mundo" da sociedade hierárquica começa hoje a declinar é especialmente porque a enorme produtividade da moderna tecnologia abriu uma nova visão: a possibilidade de abundância material, um fim á escassez de uma era de tempos livres (o chamado "lazer") com um mínimo de trabalho duro. A nossa sociedade está a ser impregnada por uma tensão entre "o que é" e "o que poderia ser", uma tensão exacerbada pela exploração e destruição irracional e desumana da terra e dos seus habitantes. O maior obstáculo que dificulta a solução desta tensão é a extensão até à qual a sociedade hierárquica ainda modela os novos pontos de vista e as nossas ações. É mais fácil refugirmo-nos nas críticas à tecnologia e ao crescimento populacional; tratar com um sistema social arcaico, destrutivo sobre as suas próprias condições e dentro da sua própria estrutura. Quase desde o berço temos sido socializados pela família, instituições religiosas, escolas e pelo próprio trabalho, aceitando a hierarquia, renúncia e sistemas políticos, como premissas sobre as quais todo o pensamento deve apoiar-se. Sem esclarecer essas premissas, todas as discussões, sobre o equilíbrio ecológico permanecerão meros paliativos e serão contraproducentes.

Em virtude da sua excepcional bagagem cultural, a sociedade moderna - sociedade burguesa orientada para os lucros - tende a exacerbar o conflito entre a humanidade e a natureza, de uma forma mais crítica do que as sociedades pré-industriais do passado. Na sociedade burguesa, os humanos não só se transformam em objetos mas também em mercadorias; em objetos claramente destinados a serem vendidos no mercado. A competição entre os seres humanos, como mercadorias, torna-se um fim em si, em conjunto com a produção de artigos totalmente inúteis. A qualidade transformou-se em quantidade, a cultura individual em cultura de massas, a comunicação pessoal em comunicação de massas. O meio ambiente natural tornou-se numa fábrica gigantesca e a cidade num imenso mercado: tudo, desde uma floresta Redwood até ao corpo de uma mulher tem "um preço". É tudo equacionado em dólares, seja uma catedral consagrada ou a honra individual. A tecnologia deixa de ser uma extensão da tecnologia. A máquina não amplia o poder do trabalhador; é o trabalhador que amplia o poder da máquina e na verdade ele mesmo se torna numa simples parte da máquina. É assim tão surpreendente que esta sociedade exploradora, degradante e quantificada oponha a humanidade a si própria e à natureza, numa escala mais assombrosa do que qualquer outra no passado?

Sim, necessitamos mudar, mas mudar tão fundamentalmente e em tão grande escala que mesmo os conceitos de revolução e liberdade devem ser ampliados para além de todos os primitivos horizontes. Não é já suficiente falar das novas técnicas para a conservação e promoção do ambiente natural; devemos tratar a terra comunalmente, como uma coletividade humana, sem aquelas peias da propriedade privada, que têm distorcido a visão da vida e da natureza da humanidade, desde a rutura da sociedade tribal. Devemos eliminar não só a hierarquia burguesa mas a hierarquia como tal; não só a família patriarcal, mas também todas as formas de domínio familiar e sexual; não só a classe burguesa e o sistema de propriedade, mas sim todas as classes sociais e a propriedade. A Humanidade deve tomar posse de si própria, individual e coletivamente, para que todos os seres humanos obtenham o controle de suas vidas diárias. As nossas cidades devem ser descentralizadas em comunidades ou ecocomunidades talhadas, fina e habilidosamente, para o aproveitamento da capacidade dos ecossistemas nos quais elas estão localizadas. As nossas tecnologias devem ser readaptadas e formuladas em ecotecnologias, fina e inteligentemente adaptadas para usarem as fontes de energia local e os materiais, com um mínimo ou sem poluição do ambiente. Necessitamos recuperar um novo sentimento das nossas necessidades - necessidades que fomentem uma vida saudável e que exprimam as nossas inclinações individuais, não as "necessidades" ditadas pelos meios de comunicação. Temos que restaurar a escala humana no nosso ambiente e nas nossas relações pessoais, substituto medianeiro das relações pessoais diretas na gestão da sociedade. Finalmente, todas as formas de domínio - social ou pessoal - devem ser banidas das nossas concepções, de nós próprios, dos nossos semelhantes e da natureza. A administração dos humanos deve ser substituída pela administração das coisas. A revolução que pretendemos deve envolver não só as instituições políticas e as relações econômicas, mas também a consciência, o estilo de vida, os desejos eróticos e a nossa interpretação do significado da vida.

O balanço aqui, é o espírito antiquado e os sistemas de domínio e repressão que não só opuseram o homem ao homem, mas a humanidade à natureza. O conflito entre estas é uma extensão do conflito entre o ser humano. A não ser que o movimento ecológico envolva o problema do domínio em todos os seus aspectos, ele não contribuirá em nada para a eliminação da origem das causas da crise ecológica do nosso tempo. Se o movimento ecológico se detém em simples reformas de controle da poluição e conservação, sem tratar radicalmente da necessidade de ampliação de um conceito de revolução, ele servirá meramente como uma válvula de segurança do sistema existente da exploração humana e natural.

Objetivos

Sobre certos aspectos o movimento ecológico de hoje está a mover uma ação tardia, contra a destruição desenfreada do ambiente. Noutros aspectos os seus elementos mais conscientes estão envolvidos num movimento criativo, pronto a revolucionar totalmente as relações sociais dos indivíduos para com os outros e da humanidade para com a natureza.

Embora elas se interpenetrem intimamente, os dois esforços devem distinguir-se um do outro. Ecology Action East (Ação Ecológica Leste) apoia qualquer esforço para a conservação do ambiente: preservar a água e o ar puros; limitar o uso dos pesticidas e adubos químicos nos alimentos; reduzir o trânsito de veículos nas ruas e auto-estradas; tornar as cidades mais saudáveis fisicamente; impedir que os desperdícios radioativos penetram no ambiente; proteger e aumentar as áreas desertas e os territórios para a vida selvagem; e defender as espécies animais da depredação humana.

Mas a Ecology Action East não se ilude a si própria pensando que estas ações tardias constituem uma solução para o conflito fundamental que existe entre a atual ordem social e o mundo natural. Nem tão pouco que estas ações tardias possam deter o ímpeto esmagador de destruição existente nesta sociedade.

Esta ordem social joga conosco. Ela concede reformas a longo prazo, aos poucos e dolorosamente inadequadas, a fim de desviar os nossos esforços e atenção de atos destruidores ainda mais vastos. Em certo sentido, é-nos oferecido um pedaço de terreno da floresta Redwood em troca das Cascades. Visto numa maior perspectiva, esta tentativa para reduzir a ecologia a uma relação de permuta não salva nada; é um modus operandi barato de negociar a maior parte do planeta por umas quantas ilhas desertas, por parques de bolso num mundo devastado de betão.

A Ecology Action East tem dois objetivos principais: um é incrementar no movimento revolucionário, o conhecimento de que a consequência mais urgente e destrutiva da nossa sociedade exploradora e alienante é a crise ambiente, e que a verdadeira sociedade revolucionária deve ser construída de acordo com preceitos ecológicos; o outro objetivo é provocar na mente de milhões de Americanos que estão preocupados com a destruição do nosso ambiente, uma tomada de consciência de que os princípios da ecologia, levados até ao final lógico, exigem mudanças radicais na nossa sociedade e no nosso modo de olhar o mundo.

A Ecology Action East fundamenta-se na revolução do estilo de vida que, no máximo, pretende uma consciência aumentada de experiência e de liberdade humanas. Nós pretendemos a libertação das mulheres, das ciranças, dos homossexuais, dos povos negros e colonizados, dos trabalhadores de todas as profissões, como parte da crescente luta social contra as tradições e instituições que têm tão destruidoramente modelado a atitude da humanidade para com o mundo natural. Nós apoiamos comunidades libertárias e lutas pela liberdade aonde quer que surjam; apoiamos também qualquer esforço para promover o auto-desenvolvimento espontâneo dos jovens; opomo-nos a qualquer esforço para reprimir a sexualidade humana e negar à humanidade a experiência do erótico em todas as suas formas. Unimos todos os esforços para fomentar um artifício feliz, na vida e no trabalho: a promoção dos ofícios e da qualidade de produção; o planejamento de novas ecocomunidades e ecotecnologias; o direito à experiência, numa base diária da beleza do mundo natural, o parzer aberto, espontâneo e sensual que os humanos podem oferecer uns aos outros, o respeito crescente pelo mundo da vida.

Em resumo, nós temos esperanças numa revolução que produza comunidades politicamente independentes cujas fronteiras e populações sejam definidas por uma nova consciência ecológica; comunidades cujos habitantes determinarão por si mesmos, dentro da estrutura desta nova consciência, a natureza e o nível das suas tecnologias, as formas tomadas pelas suas estruturas sociais, visões do mundo, estilos de vida, artes expressivas e todos os outros aspectos das suas vidas diárias.

Mas nós não nos iludimos a nós mesmos de que este mundo orientado para a vida possa ser desenvolvido, inteiramente ou mesmo parcialmente conseguido, através de uma sociedade orientada para a morte. A sociedade Americana como hoje está constituída, está penetrada de racismo e ergue-se no topo do mundo inteiro não só como consumidora de sua riqueza e recursos, mas como um obstáculo a todas as tentativas de auto-determinação no interior e no estrangeiro. Os seus objetivos inerentes são a produção pela produção, a manutenção da hierarquia e do trabalho árduo à escala mundial, manipulação das massas e controle por meio de instituições políticas centralizadas. Este tipo de sociedade contrapõe-se inalteravelmente a um mundo orientado para a vida. Se o movimento ecológico não tira estas conclusões dos seus esforços para conservar o ambiente natural, então a conservação torna-se um mero obscurantismo. Se o movimento ecológico não dirige os seus esforços principais para uma revolução em todos os aspectos da vida - social bem como natural - então o movimento tornar-se-á gradualmente numa válvula de segurança para a ordem estabelecida. A nossa esperança está em que os grupos como nós, brotarão através do país, organizados como nós próprios numa base humanista e libertária, empenhada na ação conjunta e com um espírito de cooperação baseado no apoio mútuo. É também esperança nossa que eles tentem fomentar uma nova atitude ecológica, não só para com a natureza mas também para com os humanos: uma concepção de relações espontâneas variegadas dentro e entre grupos, dentro da sociedade e entre os indivíduos.

Nós esperamos que os grupos ecológicos evitarão todos os apelos aos "chefes de governo" e às instituições estatais nacionais e internacionais, os verdadeiros corpos criminosos e políticos que têm contribuído materialmente para a crise ecológica do nosso tempo. Cremos que os apelos devem ser feitos ao povo e à sua capacidade para a ação direta, que lhe possa permitir tomar o controle das suas próprias vidas e destinos. Porque só desta maneira pode emergir a sociedade sem hierarquia e domínio, a sociedade na qual cada indivíduo é o dono ou a dona da sua própria sorte.

As grandes cisões que dividiram os humanos dos humanos, a humanidade da natureza, o indivíduo da sociedade, a cidade do campo, a atividade mental da física, a razão da emoção e geração de geração devem ser agora ultrapassadas. O cumprimento da luta antiquada pela sobrevivência e segurança material num mundo de escassez foi uma vez olhado como a condição prévia para a liberdade e para uma vida inteiramente humana. Para viver nós tivemos que sobreviver. Como Brecht disse: "Primeiro a alimentação e depois a moralidade".

A situação começou agora a modificar-se. A crise ecológica do nosso tempo, crescentemente, inverteu esta máxima tradicional. Hoje, se nós temos que sobreviver, devemos começar por viver. As nossas soluções devem ser proporcionais ao nível do problema, ou então a natureza vingar-se-á, terrivelmente, da humanidade.

http://www.ceca.org.br/edgar/murray2.htm

 

ECOLOGIA SOCIAL

Murray Bookchin

 


 

Porque Ecologia Social?

É hoje impossível considerar pouco importantes, marginais ou "burgueses" os problemas ecológicos. O aumento da temperatura do planeta em virtude do teor crescente de anidrido carbônico na atmosfera, a descoberta de enormes buracos na camada de ozônio - atribuíveis ao uso exagerado de clorofluorcarbonetos - que permitem a passagem das radiações ultravioletas, a poluição maciça dos oceanos, do ar, da água potável e dos alimentos, a extensa deflorestação causada pelas chuvas ácidas e pelo abate incontrolado, a disseminação de material radioativo ao longo de toda a cadeia alimentar... tudo isto conferiu à ecologia uma importância que não tinha no passado. A sociedade atual está a danificar o planeta a níveis que superam a sua capacidade de auto-depuração. Avizinhamo-nos do momento em que a Terra não terá condições de manter a espécie humana nem as complexas formas de vida não humana, que se desenvolveram ao longo de milhões de anos de evolução orgânica.

Face a este cenário catastrófico há o risco, a julgar pelas tendências em curso na América do Norte e nalguns países da Europa ocidental, de se tentar curar os sintomas em vez das causas e de pessoas ecologicamente empenhadas procurarem soluções cosméticas em vez de respostas duradouras. O crescimento dos movimentos "verdes" um pouco por todo o mundo - inclusive no Terceiro Mundo- testemunha a existência de novo impulso para combater corretamente o desastre ecológico. Mas torna-se cada vez mais evidente que se necessita de bastante mais que de um "impulso". Por importante que seja deter a construção de centrais nucleares, de auto-estradas, de grandes aglomerações urbanas ou reduzir a utilização de produtos químicos na agricultura e na indústria alimentar, é necessário darmo-nos conta que as forças que conduzem a sociedade para a destruição planetária têm as suas raízes na economia mercantil do "cresce ou morres", num modo de produção que tem de expandir-se enquanto sistema concorrencial. O que está em causa não é a simples questão de "moralidade", de "psicologia" ou de "cobiça". Neste mundo competitivo em que cada um se acha reduzido a ser comprador ou vendedor e em que cada empresa se deve expandir para sobreviver, o crescimento limitado é inevitável. Adquiriu a inexorabilidade duma lei física, funcionando independentemente de intenções individuais, de propensões psicológicas ou de considerações éticas.

Hecatombes de Quarenta Milhões de Bizontes

Atribuir toda a culpa dos nossos problemas ecológicos à tecnologia ou à "mentalidade tecnológica" e ao crescimento demográfico (para citar dois dos argumentos que mais freqüentemente emergem na mídia) é como castigar a porta que nos trancou ou o cimento em que caímos e nos machucamos. A tecnologia - mesmo a má como os reatores nucleares- amplifica problemas existentes, não os cria. O crescimento populacional é um problema relativo, se efetivamente o é. Não é possível dizer com segurança quantas pessoas poderiam viver decentemente no planeta sem produzir transtornos ecológicos. Os Estados Unidos, na última metade do século XIX, chacinaram quarenta milhões de bisontes, exterminaram espécies como o pombo correio, cujos bandos obscureciam o céu, destruiram vastas áreas de floresta original e entregaram à erosão ótima terra cultivável, de superfície comparável à de um grande país europeu... e todo este dano foi levado a cabo com uma população de menos de cem milhões de habitantes e uma tecnologia atrasada, pelos padrões atuais. Em suma, Havia outros fatores em jogo além da tecnologia e da pressão demográfica quando este drama se desenrolou. A praga que afligiu o continente americano era mais devastadora que uma praga de gafanhotos. Era uma ordem social que se deve chamar sem cerimônias pelo nome que tinha e tem: capitalismo, na sua versão privada a Ocidente e na sua forma burocrática a Oriente. Eufemismos como "sociedade tecnológica" ou "sociedade industrial", termos muito difundidos na literatura ecológica contemporânea, tendem a mascarar com expressões metafóricas a brutal realidade duma economia baseada na competição e não nas necessidades dos seres humanos e da vida não humana. Assim a tecnologia e a indústria são representadas como os protagonistas perversos deste drama, em vez do mercado e da ilimitada acumulação de capital, sistema de "crescimento" que por fim devorará toda a biosfera se para tanto se lhe consentir sobrevivência suficiente.

Sem Hierarquia e Sem Classes

Aos enormes problemas criados por esta ordem social devem juntar-se os criados por uma mentalidade que começou a desenvolver-se muito antes do nascimento do capitalismo e que este absorveu completamente. Refiro-me à mentalidade estruturada em torno de hierarquia e do domínio, em que o domínio do homem sobre o homem originou o conceito do domínio sobre a natureza como destino e necessidade da humanidade. É reconfortante que se haja insinuado no pensamento ecológico a idéia de que esta concepção do destino humano é perniciosa. Contudo, não se compreendeu claramente como surgiu, persiste e como pode ser eliminada esta concepção. E se se quer achar remédio para o cataclismo ecológico, deve procurar-se a origem da hierarquia e do domínio. O fato da hierarquia sob todas as formas -domínio do jovem pelo velho, da mulher pelo homem, do homem pelo homem na forma de subordinação de classe, de casta, de etnia ou de qualquer outra estratificação da sociedade - não haver sido identificada como tendo âmbito mais amplo que o mero domínio de classe, tem sido uma das carências cruciais do pensamento radical. Nenhuma libertação será completa, nenhuma tentativa de criar harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza poderá ter êxito se não forem erradicadas todas as hierarquias e não apenas a de classe, todas as formas de domínio e não apenas a exploração econômica.

Estas idéias constituem o núcleo essencial da minha concepção de ecologia social e do meu livro A Ecologia da Liberdade. Sublinho cuidadosamente o uso que faço do termo "social", quando me ocupo de questões ecológicas, para introduzir outro conceito fundamental: nenhum dos principais problemas ecológicos que hoje defrontamos se pode resolver sem profunda mutação social. Esta é uma idéia cujas implicações não foram ainda plenamente assimiladas pelo movimento ecológico. Levada ás suas conclusões lógicas significa que se não pode transformar a sociedade presente aos poucos, com pequenas alterações. Quando muito estas pequenas mudanças são entraves que apenas reduzem a velocidade louca a que se está a destruir a biosfera. Devemos certamente ganhar o máximo tempo possível nesta corrida contra o biocídio e fazer todo o possível para a deter. Não obstante o biocídio prosseguirá, a menos que as pessoas se convençam da necessidade duma mudança radical e da de se organizarem para esse efeito. Deve aceitar-se a substituição da sociedade capitalista atual pelo que denomino "sociedade ecológica", isto é, por uma sociedade que implique as mutações sociais indispensáveis para eliminar os abusos ecológicos.

É imprescindível refletir e debater profundamente sobre a natureza de tal "sociedade ecológica". Algumas conclusões são quase óbvias. Uma sociedade ecológica deve ser não-hierárquica e sem classes, deve eliminar mesmo o conceito de domínio da natureza. A este propósito têm de se retomar os fundamentos do eco-anarquismo de Kropotkin e dos grandes ideais iluministas da razão, liberdade e força emancipadora da instrução, defendidos por Malatesta e Berneri. Melhor, os ideais humanistas que guiaram os pensadores anarquistas do passado devem ser recuperados na globalidade e transformados num humanismo ecológico que incarne nova racionalidade, nova ciência e nova tecnologia.

O motivo pelo qual sublinhei os ideais iluministas libertários não é redutível aos meus gostos e predileções ideológicas. Trata-se realmente de ideais que não podem dispensar atenta consideração de qualquer indivíduo empenhado ecologicamente. Oferecem-se, hoje em todo o mundo, alternativas inquietantes ao movimento ecológico. Por um lado vai-se difundindo, sobretudo na América do Norte, mas também na Europa, uma espécie de doença espiritual, uma atitude contra iluminista que, em nome do "regresso à natureza", evoca racionalismos atávicos, misticismos e religiosidade de índole "pagã". Culto de "divindades femininas", "tradições paleolíticas" (ou "neolíticas", consoante os gostos), rituais "ecológicos" (espécie de ecologia vodu da administração Reagan) vão tomando forma deste e do outro lado do Atlântico em nome duma nova "espiritualidade". Este revivalismo do primitivismo não é fenômeno inócuo: frequentemente está imbuído de um neo-malthusianismo pérfido que se propõe, no essencial, deixar morrer de fome os pobres, vítimas principais da carestia do Terceiro Mundo, com a finalidade de "reduzir a população". A Natureza, diz-se, deve ser deixada livre para "seguir o seu curso". A fome e a carestia não são causadas, diz-se, pelos negócios agrários, pelo saque levado a cabo pelas grandes empresas, pelas rivalidades imperialistas, pelas guerras civis nacionalistas, mas têm a sua origem na superpopulação. Deste modo o problema econômico é completamente esvaziado de conteúdo social e reduzido à interação mítica das forças naturais, freqüentemente com forte carga racista de pendor fascistizante. Por outro lado está em construção o mito tecnocrático segundo o qual a ciência e a engenharia resolveriam todos os males ecológicos. Como nas utopias de H. G. Wells procura-se fazer acreditar na necessidade duma nova elite para planificar a solução da crise ecológica. Fantasias deste tipo estão implícitas na concepção da terra como "astronave" (segundo a grotesca metáfora de Buckiminister Fuller), que pode ser manipulada pela engenharia genética, nuclear eletrônica e política (para dar um nome altissonante à burocracia). Fala-se da necessidade de maior centralização do Estado, desembocando na formação de "mega-Estados", em paralelo arrepiante com as empresas multinacionais. E como a mitologia se tornou popular entre os eco-místicos, promotores dum primitivismo em versão ecológica, o sistema tecnoburocrático logrou grande popularidade entre os "eco-tecnocratas", criadores dum futurismo em versão ecológica. Nos dois casos o ideal libertário do iluminismo - valorização da liberdade, da instrução, da autonomia individual - são negados pela pretensão de nos impedir a quatro patas para um "passado" obscuro, mistificado e sinistro, ou de nos catapultar como míssil para um "futuro" radioso, igualmente mistificante e sinistro.

 

O Que É a Natureza

A ecologia social, tal como a concebo, não é mensagem primitivista tecnocrática. Tenta definir o lugar da humanidade "na" natureza - posição singular, extraordinária - sem cair num mundo de cavernícolas anti-tecnológicos, nem levantar voo do planeta com fantasiosas astronaves e estações orbitais de fição científica. A humanidade faz parte da natureza, embora difira profundamente da vida não humana pela sua capacidade de pensar conceitualmente e de comunicar simbólicamente. A natureza, por sua vez, não é simplesmente cena panorâmica a olhar passivamente através da janela, é a evolução na sua totalidade, tal como o indivíduo é a sua própria biografia e não a simples edição de dados numéricos que exprimem o seu peso, altura, talvez "inteligência" e assim por diante. Os seres humanos não são unicamente uma entre muitas formas de vida, forma especializada para ocupar um dos muitos nichos ecológicos no mundo natural. São seres que, pelo menos potencialmente, podem tornar auto-consciente e, por conseguinte, auto-dirigida a evolução biótica. Com isto não quero dizer que a humanidade chegue a ter conhecimento suficiente da complexidade do mundo natural para poder ser o tomoneiro da sua evolução, dirigindo-a à sua vontade. As minhas reflexões sobre a espontaneidade sugeram prudência nas intervenções sobre o mundo natural, (sustentam que se requer) grande cautela nas modificações a empreender. Mas, como disse em "Pensar Ecologicamente", o que verdadeiramente nos faz únicos é podermos intervir na natureza com um grau de auto-consciência e flexibilidade desconhecido nas outras espécies. Que a intervenção seja criadora ou destrutiva é problema que devemos enfrentar em toda a reflexão sobre a nossa interação com a natureza. Se as potencialidades humanas de auto-direção consciente da natureza são enormes devemos contudo recordar que somos hoje ainda menos que humanos.

A nossa espécie é uma espécie dividida - dividida antagonisticamente por idade, carácter, classe, rendimento, etnia, etc. - e não uma espécie unida. Falar de "humanidade" em termos zoológicos, como fazem atualmente tantos ecologistas - inclusivamente tratar as pessoas como espécie e não como seres sociais que vivem em complexas criações institucionais - é ingenuamente absurdo. Uma humanidade iluminada, reunida para se dar conta das suas plenas potencialidades numa sociedade ecologicamente harmoniosa, é apenas uma esperança e não apenas uma realidade, um "dever ser" e não um "ser". Enquanto não tivermos criado uma sociedade ecológica, a capacidade de nos matarmos uns aos outros e de devastar o planeta fará de nós - como efetivamente faz - uma espécie menos evoluída do que as outras. Não conseguir ver que atingir a humanidade plena é problema social que depende de mutações institucionais e culturais fundamentais é reduzir a ecologia radical à zoologia e tornar quimérica qualquer tentativa de realizar uma sociedade ecológica.

Vínculos Comunitários

Como é possível conseguir as transformações sociais de grande alcance que preconizo? Não creio que possam vir do aparelho de Estado, quer dizer, num sistema parlamentar de substituição dum partido por outro (por altamente inspirado que este último possa parecer durante o seu período heróico de formação). A minha experiência com o movimento verde alemão demonstrou-me (partindo do princípio que teria necessidade dessa demonstração) que o parlamentarismo é moralmente nocivo no melhor dos casos e totalmente corrupto na pior das hipóteses. A representação dos verdes no Bundestag confirmou, nestes últimos tempos, os meus piores temores: a sua maioria "realista" é favorável à participação da Alemanha Ocidental na NATO e apoia uma forma de "eco-capitalismo" (contradição nos termos) incompatível com qualquer abordagem ecológica radical.

Além disso o parlamentarismo mina invariavelmente a participação popular na política, no significado que há muitos séculos lhe é atribuído. Para os antigos atenienses política significava a gestão da polis, isto é, da cidade, diretamente pelos cidadãos reunidos em assembléia e não através de burocratas ou de representantes eleitos. É verdade que somente os homens eram cidadãos e que, além das mulheres, estrangeiros e escravos eram igualmente excluídos. É ainda verdade que os cidadãos ricos dispunham de recursos materiais e gozavam de privilégios recusados aos cidadãos pobres. Mas é também verdade que a antiga cidade mediterrânea não havia ainda alcançado, há dois mil e tantos anos, o seu pleno desenvolvimento, a "sua verdade" como diria Hegel. A liberdade do cidadão participar na vida política não dependia da tecnologia mas do trabalho: dos escravos, das mulheres e do seu próprio. Aristóteles não via qualquer dificuldade em admitir que quando os teares tecessem sozinhos os gregos não necessitariam de escravos, nem - acrescento eu - de explorar o trabalho alheio para dispôr de tempo livre para si mesmos. Hoje as máquinas fazem o que Aristóteles dizia e muito mais. Podemos finalmente fruir o tempo livre necessário para nos desenvolvermos e participar amplamente na vida pública sem precisarmos de pôr em perigo o mundo natural nem explorar o trabalho alheio. A ecologia radical não pode ser indiferente ás relações sociais e econômicas. O delicado equilíbrio entre o uso da tecnologia com fins libertadores e o seu uso com fins destrutivos para o planeta é matéria de apreciação social, mas tal apreciação é grandemente ofuscada quando ecologias sui generis denunciam a tecnologia como mal irrecuperável ou a exaltam como virtude indiscutível. Curiosamente, místicos e tecnocratas têm importante característica em comum: nem uns nem outros examinam a fundo os problemas nem seguem a lógica para além das premissas mais elementares e simplistas.

Uma nova política deveria, quanto a mim, implicar a criação duma esfera pública "de base" extremamente participativa, a nível da cidade, do campo, das aldeias e bairros. Decerto o capitalismo provocou destruição tanto dos vínculos comunitários como do mundo natural. Em ambos os casos encontramo-nos face a simplificação das relações humanas e não humanas, à sua redução a formas interativas e comunitárias elementares. Mas onde existam ainda laços comunitários e onde - mesmo nas grandes cidades - possam nascer interesses comuns, esses devem ser cultivados e desenvolvidos. Estudei este tipo de política comunal (repito: entendo política no sentido helenico, não no seu significado atual que denomino "estatalidade") no meu livro "O Progresso da Urbanização e o Declínio da Cidadania". Por difícil que pareça, na Europa (e em menor grau, creio, nos Estados Unidos) acredito na possibilidade duma confederação de municípios livres como contra-poder de base à centralização crescente do poder por parte do Estado-nação. Quero fazer notar que, neste campo, a política ecológica é em muitos casos não apenas possível mas também coerente com a ecologia concebida como estudo da comunidade, quer humana quer não humana. Uma sociedade ecológica pressupõe formas participativas de base, comunitárias, que tal política se propõe realizar no futuro. A ecologia não é nada se se não ocupar do modo como interatuam as formas de vida para construir e se desenvolverem como comunidades (...).

http://www.ceca.org.br/edgar/murray3.htm


Cidadania Ambiental

Entrevista com Rubens Harry Born
Em busca de um novo padrão de desenvolvimento sustentável e de ética


Por Simone Silva Jardim

Entre ambientalistas do Brasil é completamente dispensável uma apresentação de Rubens Harry Born. Melhor aproveitar este espaço para registrar uma reflexão, dada por “Rubinho”, como é chamado por todos, na conversa informal que manteve com  repórteres, antes do início da entrevista, “Tive o privilégio de nascer numa família comprometida com questões de justiça social. Meu pai era judeu e lembro-me que ele vivia repetindo para nós uma estória. Começava com a perseguição de um vizinho e ninguém fazia nada para defendê-lo. No dia seguinte, outro vizinho era perseguido até que aquele que só observava tudo e não fazia nada, também foi perseguido e ninguém fez nada por ele. Não posso tomar uma iniciativa só quando o problema chega na minha casa. Como cidadão, tenho que me manter alerta, sempre interessado e ativo. Essa é uma forma de viver com ética, solidariedade e responsabilidade. As pessoas são por natureza individualistas, mas não devemos viver só em função dos nossos interesses, fechando os olhos para o que está ocorrendo no mundo. As coisas são inseparáveis e há quem veja nisso a presença de Deus, Gaia ou a teoria do mundo sistêmico. Há de fato uma ligação em tudo; os processos ecológicos e sociais se interpenetram e isso é que impulsiona minha idéia de cidadania. É uma postura mais que política, é humana no sentido de perceber que existe essa unidade, essa interdependência, Ou seja, cidadania é uma questão política e e de posicionamento perante o mundo, os outros seres humanos e perante si mesmo. Para dormir tranqüilo à noite, preciso saber que tenho emprego e que estou fazendo alguma coisa para o mundo ficar melhor, sem a pretensão de fazer tudo sozinho”.
Nosso entrevistado já foi o dirigente nacional do LEAD International (http://www.lead.rg.br/abdl.htm/), programa de fortalecimento de lideranças nas áreas de meio ambiente e de desenvolvimento sustentável, que anualmente seleciona pessoas dos vários segmentos sociais – universidades, sindicatos, meios de comunicação etc. – com a finalidade de proporcionar a troca de experiências, potencializando as ações que já tocam no seu dia-a-dia. O LEAD teve início em 1991, e hoje está presente em 35 países do mundo. Atualmente, Born concentra esforços na organização não-governamental ambientalista Vitae Civilis (www.vitaecilis.org.br), da qual é um dos fundadores. A entidade é uma das mais atuantes do País e seu trabalho é respeitado por financiadores estrangeiros como Fundação Ford e GEF.

Cidadania Ambiental – Não há dúvida que, no mundo inteiro, as ONGs ambientalistas vêm dando uma contribuição muito importante para o desenvolvimento humano rumo a uma sociedade global sustentável. O Sr. tem uma visão particular sobre os papéis sociais que esses atores têm desempenhado ao longo desses últimos cinco anos, dividindo-os em cinco fases...

Rubens Harry Born - Hoje, o esforço das ONGs está voltado para a capacitação da coletividade, no sentido de se atingir, em nível global, uma sociedade sustentável para todos. Esse trabalho vem se desenvolvendo ao longo dos últimos 20 anos. Vale lembrar que o primeiro papel das ONGs, na década de 70, era o de fazer denúncias; o segundo papel histórico desempenhado por essas entidades, muitas rotuladas de “ecochatas”, surgiu com a percepção de que não bastava fazer denúncias, era preciso somar a esse comportamento a educação ambiental e a conscientização pública mais voltada para mobilizar as pessoas, engajando a sociedade nos problemas que estavam sendo denunciados. Depois surgiu um terceiro papel: além de oferecer denúncias e conscientização social, também apresentar soluções para aqueles problemas, através da promoção de estudos e pesquisas norteados por valores éticos e sócio-ambientais. Em seguida, veio a percepção de uma nova linha de ação: a interferência consistente nas políticas públicas, fazendo inclusive lobby. Hoje, além de todos esses papéis, as ONGs também começam a viabilizar projetos de sustentabilidade, como reciclagem de lixo e manejo florestal. São essas as cinco funções sociais das ONGs. Tem ONG que hoje nasce na quinta função; outras estão evoluindo de uma para outra e outras, ainda, fazem tudo ao mesmo tempo. Há que haver um setor que defenda os interesses públicos e as ONGs têm essa função de organizar cidadãos e defender os interesses públicos, sem ser governo.

CA – Por que o Estado não é um bom defensor do interesse público?

Born – Além de ter trabalhado no setor privado e militar em várias ONGs como voluntário, também fui funcionário do setor público e para mim está claro que não é o governo que vai defender o interesse público. Reconheço que há pessoas que encontram a oportunidade de fazer um trabalho em prol da cidadania a partir do aparelho do Estado. Eu acho que isso é possível, dependendo da proposta de trabalho. O Estado verdadeiramente democrático só existe na medida em que houver uma cidadania ativa e participativa. Isso é um processo de constante aperfeiçoamento e construção porque é fácil constatar que existe uma grande massa de excluídos, de pobres urbanos e rurais que não têm condições de acessar alguns instrumentos jurídicos básicos para defender os seus direitos; onde muitas vezes os órgãos do Estado atropelam direitos básicos e fundamentais, como o caso do trabalhador que acaba perdendo um dia do seu salário para poder reclamar da conta d’água porque o órgão responsável exige que ele o faça pessoalmente. Isso é uma falta absoluta de respeito aos direitos humanos. O Estado brasileiro tem muito para avançar nessa área porque a verdadeira cidadania vem dessas pequenas coisas. Mas entre nós é preciso haver um esforço concentrado em prol da cidadania porque ainda existe muita gente que suporta esse tipo de comportamento autoritário por parte do Estado. O Estado só é democrático quando a sociedade é democrática.

CA – Nessa linha de pensamento, como o Sr. vê a atual composição do Congresso Nacional – não chega a 10 o número de parlamentares eleitos realmente engajados com a questão ambiental?

Born - Esse é um sinal seguro de que a questão ambiental, da sustentabilidade, da sobrevivência no longo prazo é ainda muito marginal entre nós e não foi incorporada, de forma madura, pela sociedade brasileira. As pessoas só pensam no dia de hoje, no ganho imediato; elas precisam pensar no amanhã e no depois de amanhã, também. O sistema do lucro fácil e rápido está levando empresas que dependem dos recursos naturais a uma crise perversa. Essa é uma responsabilidade de todos. Não sei se o problema está na falta de clareza do discurso ambiental, o que poderia estar fazendo com que a população não incorpore esses novos valores. Dada a conjuntura, hoje poderíamos estar falando não só em colapsos financeiros, mas em economia em sentido sustentável, porque essa sim é capaz de gerar empregos e proteger o meio ambiente. As eleições do ano passado foram despolitizadas –não se falou das várias abordagens possíveis para enfrentar os problemas que temos na nossa nação e qual o preço que a sociedade brasileira está disposta a pagar para resolvê-los e o que não quer sacrificar. Essas questões de fundo não foram discutidas, ficamos apenas no banal. As novas ações na economia e na política têm que corresponder aqueles princípios que se configuram como pertinentes à sociedade sustentável. Para que nossa ação seja realmente transformadora, materializando essa sociedade sustentavel, nossa ação no presente tem que estar coerente com os princípios que queremos concretizar no futuro e não com os princípios que norteiam o presente e que vêm do passado. E dou um exemplo disso. Hoje se fala muito em parceria e cooperação na sociedade civil, mas as ações das ONGs ainda se dão muito na base da competição, portanto, num paradigma do passado e não no paradigma futuro da cooperação da sociedade sustentável.

CA – No mundo globalizado, parece menos difícil a construção da sociedade sustentável, aclamada por tantos ambientalistas. Mas como ficam as diferenças culturais, ou seria mais realista nos referirmos à construção de várias sociedades sustentáveis?

Born - Independentemente do processo de globalização econômica e comercial hoje em curso, preexiste uma unidade ambiental, uma certa interdependência e complementariedade já consolidada por todo o planeta. A sociedade civil também está se globalizando e é muito importante que haja intercâmbio de esforços entre as diferentes instituições e agrupamentos humanos para se tentar mudar nossa trajetória do ponto de vista do desenvolvimento sócio-econômico e ético. Uma sociedade sustentavel no planeta pressupõe várias sociedades sustentáveis. Não posso ser sustentável aqui se, em razão da minha sustentabilidade, um índio caiapó tem de perder uma parte de sua sustentabilidade, assim como esse mesmo índio não poderá desfrutar de uma sociedade sustentável se eu também não estiver em tal estado. Temos que encontrar formas que respeitem toda essa diversidade étnica, as várias culturas, as histórias diferentes. Para isso, precisamos que os vários agrupamentos humanos espalhados pelo planeta compartilhem de alguns valores e princípios básicos, respeitadas as suas diferenças culturais, que vão nortear a sociedade sustentável. Esses valores, princípios e regras de funcionamento só podem ser compactuados mediante a construção de alguns acordos globais. Seria um esforço internacional para moldar políticas locais e nacionais com a mesma base de valores e princípios comuns, tais como a pluralidade, a solidariedade, a equidade, a ética, etc., visando a feitura da sociedade sustentável e não de uma sociedade sustentável.

CA –O Fórum das ONGs, no qual o Sr. integra a coordenação, é uma experiência que visa delinear alguns desses valores e princípios comuns?

Born – Essa é uma experiência que eu considero muito interessante, porque teve início no Brasil, já tem oito anos de existência e acabou gerando iniciativas análogas em outros países. Seu objetivo é reunir sindicalistas, ambientalistas, moradores de bairros, enfim, diferentes tipos de organizações e segmentos sociais, para um mesmo espaço de discussão dos principais problemas do país e do mundo. Isso representa uma nova forma de fazer política, coisa que os partidos políticos não estão mais dando conta. Não é um trabalho fácil porque nossas ações e atitudes estão marcadas, muitas vezes, por fortes raízes no passado, mas é uma tentativa de construir alguma coisa diferente, que se possa perpetuar e se consolidar para a frente. Hoje, as ONGs formam um importante espaço público, extremamente propício para a reflexão dos desafios a serem enfrentados para que possamos construir as sociedades sustentáveis. Creio que o desafio principal dessa mecânica, é menos encontrar os pontos comuns, mas saber trabalhar e respeitar as diferenças porque isso nos leva a saber quais são os limites reais. Esse é um aspecto fundamental para a questão de cidadania. O Fórum não é uma experiência em nome de uma pseudodemocracia, cujo discurso é que todos têm direito de ser diferentes e acaba-se aceitando coisas fora dos limites, como o nazismo, o preconceito sexual e outros. Tem certos valores humanos que devem definir o limite ético do que é aceitável na diferença. Não podemos ser ingênuos e continuar ignorando esse fato.

CA –O Sr. é um dos fundadores do Vitae Civilis, Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, que tem uma linha de atuação diferente das demais ONGs ambientais.

Born – Acreditamos que para haver uma transformação de verdade, é necessária a existência de entidades muito bem constituídas e consolidadas, formando uma rede extensa de grupos da sociedade civil, conectados uns com os outros a fim de promoverem o constante intercâmbio de experiências pois só assim há ressonância. Não adianta ter uma única entidade forte no Rio, outra em SP, isso não possibilita a ressonância do Oiapoque ao Chui e assim não mudamos a configuração sócio-ambiental do País. O Vitae Civilis foi criado para ser um instrumento para o fortalecimento da vida civil. É um instituto que integra o desenvolvimento, meio ambiente e paz porque temos uma abordagem da realidade que rompe com a visão dicotômica e ultrapassada de que meio ambiente e desenvolvimento são incompatíveis. Queremos promover um outro padrão de desenvolvimento em que entra a questão do meio ambiente e da paz. Nós não fazemos campanhas contra a guerra ou questões militares porque para nós paz é um estado ou estágio onde há ausência de todo o tipo de violência e injustiça entre seres humanos e destes com o meio ambiente. Estaremos defendendo a paz promovendo um tipo de desenvolvimento que leve à justiça social e à construção de sociedades sustentáveis.

http://sites.uol.com.br/simjardim/artigo4.htm