InformaLista
O Informativo da lista “Educação
Ambiental”
Alguns textos apresentados na Lista de Discussão do Projeto Apoema - Educação Ambiental (Antigo Projeto Vida – Educação Ambiental)
Os textos não passaram por revisão ortográfica, portanto, podem haver erros.
"A hora em que você precisa fazer alguma coisa é quando ninguém
mais quer fazê-la ou quando todos dizem que é impossível."Eudora Welty
Por Sérgio de Mattos Fonseca*
Pois é, que 500 anos nosso país está fazendo ? Antes disso já existíamos,
nossos compadres índios, a Mata Atlântica e muito antes segundo os
paleoantropólogos, há quase 50.000 anos quando surgiu a espécie sapiens
poraqui. Mas se olharmos um pouco mais para trás no jurássico os dinossauros
brasileiros existiram, um pouco mais atrás, há cerca de 300 Milhões de anos,
quando não tinha atlântico, os bichos da gente e os dos africanos. No carbonífero
o que se formava era o nosso petróleo, muito derramado por aí. E até onde
nossa ciência de registros enxerga, no Pré-Cambriano, há mais de 500 Milhões
de anos, nossas bactérias se formavam na água, protegendo-se lá de uma
atmosfera ainda inóspita.
Essa seria uma proposta muito louca para ser apresentada como de comemoração
do nosso aniversário, mas é preciso despertar para a dimensão da Vida.
Aproveitarmos esses 500 anos de lutas para enxergar mais uma que vivemos, quer
queiramos ou voltemos o rosto: a luta por uma consciência ecológica. Afastar
de vez os Messias, buscando um Deus em si e no outro em síntese com a
Natureza. A miséria humana não esta localizada na África, nos guetos ou nas
favelas: está em nosso interior enquanto houver miséria no planeta. De nada
vale o sucesso, as conquistas, vitórias, promoções, amadurecimentos, se
existe miséria entre nossa espécie somos miseráveis. Nos ecossistemas as espécies,
sejam mais ou menos fortes, conseguem pelo menos lutar a seu jeito para
conquistar seu alimento a cada dia e regulam-se na arena das condições físico-químicas
como predador-presa ou sucumbindo em catástrofes climáticas.Face a nossa eficiência
atingimos o topo da cadeia e nada na Natureza
consegue predar o sapiens, mas a Natureza olhando-nos no ardil da perfeição
deu-nos uma enorme lição que até hoje sismamos em ignorar, tornando-nos
nós mesmos o nosso predador. A lição, qual é ? Tá na cara.
Ontem andando na praia observamos nos presentes um sinal, um sintoma,
alvíssaras: numa rede de arrastão uma tartaruga e imediatamente diversas
manifestações, aporrinhando o pescador que repetia: vô soltá !vô soltá !vô
soltá !
O trabalho de conscientização para salvação dos quelônios serviu para
despertar um pedacinho da consciência ecológica nas pessoas, espécimes como
tantas e nada diferente de quaisquer outras, podendo até significar a volta da
sopa de tartarugas e do pente, face a superlotação provocada, mostrando,
entretanto, a viabilidade econômica-ecológica dos projetos de preservação
bem feitos e também bem administrados. A preservação ecológica (e de seus
processos) é um ramo de investimento intensivo em capital e com retorno
assegurado, da engenharia genética aos parques florestais e aquários oceanográficos,
garantindo aos investidores retorno compensador acima das taxas de mercado, pelo
investimento e credibilidade da cidadania. Nos mais de 500 Milhões de anos que
comemoramos (as vésperas do quincentésimo milésimo de milênio) lançamos a
maior das commodities: o meio ambiente, que pode ser divisível por
cotas-ecossistemas ou ações-habitats ou nichos-de-opções.
Senhores empresários, entidadades de fomento, cidadãos, o investimento no
meio ambiente em nosso país, com milhões de jovens alijados da globalização,
é uma das soluções para os próximos 500 ou 500 Milhões de anos. Ou teremos
uma bomba relógio crescente que ao explodir privará a todos da liberdade, quem
sabe, da sobrevivência da espécie ao estender-se pelo planeta, ou
contribuímos para despertar a cidadania e a consciência ecológica,
disseminando-as pela sociedade brasileira.
Sérgio de Mattos Fonseca é Mestrando em Ciência Ambiental Universidade
Federal Fluminense e Diretor do Instituto EcoCiência - Email:
ecocien@nitnet.com.br <mailto:ecocien@nitnet.com.br>
Instituto EcoCiência
Rua Dr. Macário Picanço, 825 parte - (antiga rua 54) Maravista
Itaipu Niterói-RJ Brasil CEP 24.342-330
Tel / Fax: (021) 609-8573
Repres. Alemanha: HARDT 41 D WILLICH 47.877
tel: 0021+49+ 2159+ 59-7953
http://www.sindecon-esp.org.br/cta_text/reflexao.htm
Mercado de Trabalho e Qualidade de Vida é Meio Ambiente
Jornal do Economista - Conselho Regional de Economia - SP - Jan.2000
Por Amyra El Khalili*
Quando crianças, ouvimos nossos pais questionarem num coral orquestrado: o que meu filho vai ser quando crescer? Como se o momento mais importante na vida de uma criança fosse decidir seu destino profissional. Nossos pais idealizam e projetam para nós o que gostariam que fôssemos, ou como reza a teoria psico-somática, o que de fato gostariam de ser e não foram.
Observando os jovens, descobrimos que na nossa geração os conflitos se desencadeavam de forma distinta, de acordo com padrões de vida de cada indivíduo. Se pobres, tínhamos de trabalhar desde logo cedo; o discurso persuasivo era: 'Vamos depressa arrumar um emprego'. Se classe média, o conflito entre o sacrifício dos pais para que seus filhos tivessem boas escolas e o 'ócio dos filhos', que se dedicavam exclusivamente aos estudos graças aos pais, criava pressões para que o jovem entrasse logo em alguma universidade pública. Isso acontecia também se a família era rica, numa relação menos conflitante. A criança que trabalha recolhendo lixo ou vendendo doces nos faróis não tem, provavelmente, essa crise, a do saber o que vai ser quando crescer. Ela já que nasceu crescida.
Conflito de Gerações e a Conquista da Profissão
Em tempos de Fuvest, bate-papos com profissionais especialistas entrevistados via Internet por crianças de 10 anos perguntado se esta ou aquela profissão dá dinheiro, a angústia de não saber o que ser quando crescer nasce antes mesmo que o indivíduo possa crescer. Na virada do milênio, a diferença entre ser pobre, classe média e rico se dissipa. O conflito se torna igual para todos, já que mesmo aquele que frequentou boas escolas enfrenta as mesmas dificuldades dos demais para conquistar uma colocação no mercado.
Com o tempo, porém, a vida nos obriga a tomar uma decisão compulsória. Você será o que o mercado de trabalho quiser que você seja, independentemente da escolha ou aptidão para esta ou aquela profissão. Assim sendo se o indivíduo cursou química mas conseguiu um empregozinho de auxiliar de escritório numa empresa de exportação, provavelmente será trader; se o sujeito estudou enfermagem e conseguiu um espaço em uma indústria de manufaturados, terá como uma das múltiplas opções ser operário ou administrativo, e assim por diante. O que isto tem a ver com minha opção profissional? Absolutamente tudo!
O fato é que quem determina o que você vai ser quando crescer é o mercado de trabalho, não os seus desejos e muito menos a de seus pais, salvo caso de filhotes que têm "pai-trocínios". Nesses casos, a crise de identidade será eterna, pois se o indivíduo não tiver força interior, jamais saberá quem é quando um dia puder crescer. Isso não quer dizer que, mesmo sabendo elaborar um plano estratégico para nossas carreiras, nossos projetos, nossos desejos não possam se concretizar.
É comum na carreira de um profissional bem sucedido, respeitado pelos inimigos depois de muita luta e erros e acertos, desabar em crise existencial. Vem aí a pergunta fatal: "Hoje sou finalmente crescido, mas não sei se é isto que eu gostaria de ser!". Na maioria dos casos, o indivíduo apenas se pergunta se sua profissão gerou o suficiente em bens materiais para justificar seu esforço; no caso mais individualista, ele alega que o fez para dar conforto aos filhos, ou que o faz por culpa dos filhos.
De qualquer forma, toda crise se dá exclusivamente por um grande motivo: trabalhamos para ganhar dinheiro para pagar nossas contas e poder acumular bens. Assim, independentemente de minha felicidade profissional, a meta deve ser alcançada. É o que se denomina comumente "ganhar a vida" , como se a vida precisasse ser ganha e não conquistada ou resgatada.
Mas quem são os profissionais realizados? Será que eles não existem?
É claro que existem! Estes profissionais felizes são geralmente aqueles que através das dificuldades e das agruras no trabalho conseguiram reverter a pressão do mercado concretizando seus projetos de vida ganha e de carreira com atividades sociais, seu plano é dimensionado apartir de uma grande obra, ele vislumbra o todo tentando mesmo que previsivelmente quantificar as pessoas que estará ajudando, as famílias que serão beneficiadas por isso, qual o tamanho do seu potencial de crescimento nesta atividade e qual a resposta da sociedade diante do seu competente resultado. Ele quer dividir o dos seus com os outros. Ele não raciocina pequeno, tem visão de 360 graus e procura, a cada instante, um assunto que tenha relação com sua atividade; se não tem, ele cria um. Como? É simples, ele cruza um mercado de trabalho com outro. Ele se pergunta o que a água tem a ver com florestas? Em tudo ele vê novas oportunidades, a cada notícia percebe uma nova chance. Cada tombo passa a ser uma deliciosa provocação para continuar, para desafiar, para dizer a todos que ele sabe quem ele é por que ele já cresceu e que sua maior satisfação é colaborar para que os outros cresçam.
Gerando Negócios para Gerar Empregos
Mas quem é ele? Ele é gerador de negócios. Ele não procura emprego, ele faz o emprego. Ele não perde tempo discutindo e elocubrando sobre o que ganharia com isso se fizer aquilo, sua moeda não é a relação financeira, seus valores de troca são outros. Seu preço é estabelecido pelo seu prêmio que o mercado de trabalho tratará de valorar. Sua equipe é captada pela sinergia da agregação natural de muitas pessoas ao seu redor.
Ele aglutina e lidera "clusters" uma teia de relações afetivas muito intensas. Faz do seu hobby profissão e transforma sua profissão em hobby. Ele sabe o vai ser quando crescer por que ele cresce buscando saber. Então ao escolher sua profissão, ao buscar uma colocação no mercado de trabalho, ao tentar um novo negócio para competir e ser feliz pense bem: O que água tem a ver com florestas?
*Amyra El Khalili é economista, coordenadora do Projeto CTA (Constultant, Trader and Adviser Geradores de Negócios nos Mercados Futuros e de Capitais) do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo e do Genoma Grupo dos Estudos de Negócios e de Operações em Marketing em Agribusiness da Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM.
Email: amyra@netdoctors.com.br
http://www.sindecon-esp.org.br/cta_text/mercado.htm
Talvez em conseqüência do sucesso das civilizações egípcia e Mesopotâmica, sociedades fortemente dominadas pelo papel dos rios e por poderosos mitos, a água, e não os alimentos, logo incorporou qualidades divinas. Nas mãos dos Gregos, compartilhou com o Ar o Fogo e a Terra do papel de substância fundamental. A face mágica da água sobrevive em nossos dias em muitas cerimônias religiosas como as de batismo, banhos de purificação em rios santificados, nas águas ativadas por diferentes cultos espiritualistas, etc..
Os grandes conflitos da Antigüidade sempre envolveram disputas acirradas pelas águas e pelas terras, conflitos que a vontade dos deuses decidia soberanamente. Os vencidos, vítimas de sua ira, terminavam condenados à servidão, pobreza e fome.
O advento do cristianismo modificou a organização da divindade, mas apenas reorientou o misticismo: pobres e ricos continuavam réus, condenados ou absolvidos em julgamentos invisíveis onde um deus único tomava as decisões.
Thomas R. Malthus rompeu com o misticismo, enunciando uma razão objetiva para a divisão entre pobres e ricos. Atribuiu o avanço inexorável da pobreza à diferença de velocidades entre o crescimento das populações e o da produção de alimentos. Segundo ele, enquanto a produção de alimentos cresce pela adição de novas glebas, a população cresce por multiplicação; cedo ou tarde a produção de alimentos torna-se insuficiente, deixando pobreza e fome no seu rastro. Pregou a contenção do crescimento populacional como a única forma de superar essa contingência.
O futuro mostrou que vários pontos do pensamento de Malthus estavam incorretos; por exemplo, há casos em que as populações entram em regime de extinção, decrescendo em vez de crescer progressivamente. Também desconhecia as possibilidades que o futuro tecnológico veio abrir para o crescimento na produção de alimentos, substituindo a anexação de novas áreas, pelo aumento da produtividade da terra. A despeito de essencialmente incorreto o pensamento de Malthus permanece válido enquanto resultado prático: a fome aumenta impiedosamente, assolando parte ponderável da população do planeta, a despeito do progresso na produção de alimentos. Há quem diga que não se trata da Lei, mas de Maldição do Malthus.
O mérito de Malthus sobreviveu na coragem de transferir o problema da área religiosa para a área do pensamento racional.
Outro equívoco da abordagem malthusiana foi o de desconsiderar a necessidade da água para a produção de alimentos. Não que achasse dispensável, provavelmente, mas porque essa componente parecia originar-se de um reservatório infinito, inesgotável; incluí-la seria assim uma complicação desnecessária do problema. O Dilúvio bíblico, a chuva copiosa na Europa, o mar imenso, embora salgado, contendo quantidade incalculável daquela substância, o gelo das calotas polares, as neves eternas no topo das montanhas elevadas, as novas reservas hídricas reveladas pelos descobrimentos do final do século XV, tudo convergia para justificar a idéia de que o conteúdo em água do planeta ultrapassava qualquer limite presumível, podendo ser tomado, para efeitos práticos, como infinito.
No final do século XVIII, quando Malthus divulgou suas idéias, ninguém se dava conta, em contrapartida, das enormes quantidades de água requeridas para sustentar a vida. O peso de um ser vivo tem uma componente hídrica extremamente elevada, não raro 70%-80% e mesmo mais. Assim, considerada a enorme massa dos reinos Animal e Vegetal, vê-se que a sustentação da vida imobiliza quantidades de água tão fantásticas quanto aquelas dos reservatórios naturais acima alinhados. Sem contar aquela retida em minerais e rochas da crosta da Terra no processo de sua solidificação. Cada novo ser que nasce, cada homem, cada coelho, cada repolho, à medida que se torna adulto, incorpora quantidades de água progressivamente crescentes e dessa forma o crescimento da população também pressiona os recursos hídricos. É verdade que alguma água nova é fabricada nos organismos vivos a partir do Oxigênio e da massa de reserva energética acumulada com a ingestão de nutrientes; entretanto a água é um poderoso solvente e praticamente toda a produção eliminada, contém em solução componentes diversos que tornam inviável seu reaproveitamento sem tratamento prévio.
Quais as possibilidades de agregar novos recursos hídricos? Fundir o gelo das calotas polares ou as neves eternas das montanhas é façanha cujas conseqüências são imprevisíveis em termos de modificações climáticas, dos regimes oceânico e dos ventos e de alteração de alguns movimentos do planeta. Nova água pode ser obtida por purificação, dessalinizando a água do mar ou a água salobra de aqüíferos subterrâneos, mas esses processos consomem quantidades colossais de energia elétrica cuja produção, além de custosa, seja por via nuclear ou combustão de combustíveis fósseis, envolve turbinas a vapor e, portanto, água em abundância. Para não falar na geração hidráulica que ainda imobiliza quantidades maiores do precioso líquido. O uso de aquecedores solares para destilar a água tem sido empregado com algum sucesso no Oriente Médio, a peso de ouro, mas numa escala ainda muito abaixo das necessidades de uma grande metrópole. A água também pode ser obtida como produto final de diversas reações químicas, mas sua condição de poderoso solvente torna em geral o método inviável, a menos que todos os produtos tomando parte na reação sejam insolúveis - uma autêntica raridade. Pode ser sintetizada a partir de Oxigênio e Hidrogênio, mas além do custo da obtenção desses gases o processo é extremamente perigoso, dada a violenta liberação de energia na reação; em escala de laboratório tudo bem, mas para sustentar uma megalópole é impensável. Algum progresso pode ser atingido na prospecção de novos aqüíferos subterrâneos, embora se corra sempre o risco de encontrar água imprópria para o consumo. Nada muito brilhante quando se projetam as necessidades para fazer face ao crescimento da população do planeta no primeiro quarto do século XXI.
A situação parece muito mais dramática do que a encontrada por Malthus no confronto população x produção agrícola. Não há muito espaço para acrescentar água, nem mesmo linearmente. Resta o progresso tecnológico nessa área, mas não se pode fechar os olhos às suas limitações atuais e apostar cegamente em alguma solução adequada dentro de um futuro compatível com o agravamento da carência. Um cenário mais provável, face os aspectos emergentes do processo de globalização, é que os países do bloco desenvolvido retardem as pesquisas em novas tecnologias para proteção e reciclagem da água, pela transferência das indústrias mais poluentes e devoradoras de água para as regiões periféricas do planeta.
Vale a pena lembrar que a presença de água faz da Terra um planeta muito especial dentre seus companheiros do sistema solar. Nenhum outro a possui nem tampouco a possibilidade de sustentar vida biológica. A atmosfera da Terra primordial tinha uma composição semelhante às de seus companheiros do sistema solar; a formação de água se tornou possível por uma conjunção rara de fatores, combinando a velocidade de resfriamento, a termodinâmica dos gases e estado elétrico, com reações químicas que levaram à água como produto final. Foi um evento insólito, de rara ocorrência mesmo em termos siderais. A água é, assim, desde o nascimento, uma substância preciosa e rara. Não se pode esperar que a história se repita: que as viagens interplanetárias estendam, em futuro previsível, os limites de nossos horizontes hídricos, como o fizeram os grandes descobrimentos.
Do machado de pedra ao computador a água foi uma presença constante na história da civilização. A horda primitiva deixou de ser gregária quando encontrou a bacia dos rios que durante milênios dominaram o progresso, influindo claramente na urbanização, na agricultura, no saneamento, no escoamento da produção, no comércio marítimo, etc. A água também inspirou a formação dos instintos mais agressivos do ser humano, quando sua carência levou as tribos primitivas a lutar até a morte pela posse das cacimbas. É, assim, um insumo que tem muito a ver com a essência do comportamento humano. Não seria um exagero cogitar da possibilidade de uma regressão a valores primitivos, caso a carência de água se agrave e prolongue pelos anos.
Assim é de todo necessário que as providências mais urgentes sejam planificadas e sobretudo, levadas à prática, enquanto o computador e o satélite podem ajudar na formulação das questões e na proposição de soluções. Tudo que se pode fazer cabe, entretanto em três conceitos simples: proteção, racionalização do uso, reprocessamento. Cada um desses temas envolve esforços colossais, face às dimensões que o problema da água e suas tendências de crescimento já atingiram. O homem moderno encontra assim, novamente, o enigma de sua velha companheira, a Esfinge: ou o resolve ou será engolido.
Alfredo Marques* é Pesquisador Titular Aposentado do CNPq, Diretor Científico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas;Professor Titular Visitante da UNICAMP; Livre Docente e Doutor da cadeira de Física da Escola Nacional de Química UFRJ: Alfredo Marques email: serena@npoint.com.br
http://www.ujgoias.com.br/redecta03/03027053/03027053025.htm
A Educação Ambiental e os Temas Transversais
Professor
Joel Irineu Lohn
Mestre em Educação e Ciência
Colégio Coração de Jesus.
e-mail: provetinha@mail.coracao.g12.br
e-mail: jodi@matrix.com.br
Grandes descobertas em Ciência e Tecnologia são anunciadas a cada dia. Em cem anos de história a Ciência desenvolveu-se mais que em todo o resto da história da humanidade. Automóveis, aviões, viagens interplanetárias, transplantes de órgãos, computadores e muitas outras novidades a cada momento. Este é realmente um mundo de grandes e rápidas transformações e nele a Ciência aparece como um dos mais fascinantes diálogos que a humanidade já travou. Mas, com todas essas novidades a humanidade está conquistando uma existência mais digna? Está mais feliz? Diminuiu a miséria no mundo? Melhorou a qualidade do ar? Os rios e oceanos estão mais limpos? Os habitantes das cidades vivem em harmonia entre si e com as plantas e animais?
As modalidades de transformação e de desenvolvimento que a humanidade tem adotado ao longo da história são depredadoras, de cunho fundamentalmente exploradoras e cruéis, na exploração da natureza e na exploração do homem pelo homem. Se pretendermos construir um mundo para as gerações futuras, devemos mudar radicalmente nossas ações. Mas será possível alguém que vive e foi "educado" para este mundo atual, efetivamente, tentar melhorar o mundo para gerações que não chegará a conhecer, que estão muito longe, se não é capaz de ser solidário com as gerações presentes? Será que as crianças que estão aqui pedindo dinheiro e comida nas ruas e não estão na escola não nos preocupa? É muito difícil acreditar que possamos ser solidários com o futuro sem começar a construir esse futuro no presente. Os processos tecnológicos que constróem o progresso presente conduzem a processos de contaminação e poluição, onde os recursos naturais estão se tornando escassos. A utilização de descartáveis, de difícil degradação está se tornando cada vez maior, produzindo quantidades gigantescas e crescentes de lixo.
A questão ambiental está se tornando cada vez mais urgente e importante para toda a humanidade, pois o futuro depende da relação entre a natureza e o tipo de uso que a humanidade faz dos recursos naturais disponíveis. A medida que a humanidade aumenta sua capacidade de intervir na natureza, surgem cada vez mais conflitos. O modelo de sociedade construído com a industrialização crescente e a conseqüente transformação do mundo em um grande centro de produção, distribuição e consumo, está trazendo rapidamente conseqüências indesejáveis e que se agravam com muita rapidez.
" De onde se retirava uma árvore, agora retiram-se centenas. Onde moravam algumas famílias, consumindo água e produzindo poucos detritos, agora moram milhões de famílias, exigindo imensos mananciais e gerando milhares de toneladas de lixo por dia. Sistemas inteiros de vida vegetal e animal são tirados de seu equilíbrio. A riqueza, gerada em um modelo econômico que propicia a concentração da renda, não impede o crescimento da miséria e da fome. Algumas das conseqüências desse modelo, são o esgotamento do solo, a contaminação da água, o envenenamento do ar e a crescente violência e miséria nos centros urbanos." (PCNs vol. 9 pg. 20)
Os problemas ambientais não se restringem apenas à proteção da vida, mas também à qualidade de vida. A injustiça social, que faz com que parte da população brasileira tenha baixa qualidade de vida, está relacionada diretamente ao modelo de desenvolvimento. É urgente a necessidade da mudança de mentalidade, para transformar a consciência das pessoas em direção a construção de um mundo mais justo, digno e ecologicamente equilibrado. Essas mudanças são possíveis através da escola que precisa muito mais cultivar comportamentos do que transmitir informações. Isto é, a escola deve oferecer condições para que o aluno compreenda os fatos naturais e humanos, de modo crítico e que permita cultivar atitudes que possibilitem viver uma relação construtiva consigo mesmo e com o seu meio, colaborando para que a sociedade seja ambientalmente sustentável e socialmente justa.
A principal função do trabalho da escola com o tema Educação Ambiental, de acordo com os Temas Transversais, dos Parâmetros Curriculares Nacionais, é a "...contribuição para a formação de cidadãos plenos, capazes de decidirem e atuarem sobre a realidade de modo ético e comprometido com a vida, com a sociedade local e global". Para que isso ocorra, é muito pouco informar e dar conceitos. É necessário trabalhar com atitudes, com formação de valores, com o ensino e a aprendizagem de habilidades e procedimentos. É um grande desafio. A escola não está só nesta tarefa, os padrões de comportamento da família, as informações e as opiniões veiculadas pelos meios de comunicação de massa exercem especial influência sobre as crianças e por extensão na sociedade como um todo. Infelizmente, de maneira geral, o discurso e a ideologia implícita, nos meios de comunicação muitas vezes são conflitantes com a idéia de um desenvolvimento sustentado, de respeito ao meio ambiente. São propostos e estimulados valores de consumismo, desperdício, violência, egoísmo, desrespeito, preconceitos, irresponsabilidade e outros.
A raça humana já ultrapassou a marca de 5 bilhões de habitantes. É impressionante verificar que há três mil anos a população humana sobre a Terra era de apenas seis milhões de habitantes. Dentro de vinte anos ( 2020 ) seremos mais de 8 bilhões. Esse aumento populacional em escala geométrica, juntamente com a péssima distribuição da riqueza e o consumismo extremo dos países desenvolvidos, tem transformado a raça humana em uma ameaça aos demais seres do planeta. Neste quadro, o Brasil está se tornando o centro das atenções internacionais, já conquistou o título de campeão mundial de desmatamentos. São milhares de focos de destruição e devastação ambiental por todo o país. Ainda temos de maneira muito forte a concepção de que " animal é bicho para se matar e floresta é mato para se derrubar".
Apesar de todo esse quadro, aos poucos e muito lentamente a situação começa a se modificar para melhor. Está surgindo uma nova filosofia para o Meio Ambiente. Falar em Educação Ambiental não significa mais só proteger orquídeas, bromélias, árvores e não matar jacarés e borboletas. Hoje é muito forte a idéia de um desenvolvimento sustentado. Busca-se conciliar desenvolvimento, preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida do ser humano.
A Educação Ambiental, de maneira formal, não pode ser definida como uma área especializada de conhecimento. Transcende as áreas formais de conhecimento trabalhadas na escola. È necessário todos os profissionais que atuam na escola, construindo o fazer pedagógico, envolvam-se na questão ambiental. È o futuro da vida no planeta Terra que está em jogo. Valores, ética, cidadania, amor a vida e ao próximo, pluralidade cultural, racionalização do consumo, higiene e saúde, urbanização, saneamento básico, sustentabilidade, diversidade biológica, ocupação do solo e muitas outras áreas são importantíssimas para a realização de um bom trabalho.
O planeta Terra é um patrimônio de toda a humanidade e como tal a sua utilização deve estar sujeita a regras e princípios de respeito a vida. Portanto, deve-se considerar acima de tudo a máxima renovabilidade de seus recursos e as condições de sustentabilidade dos diferentes ecossistemas. Portanto, para a escola, trabalhar educação ambiental, significa antes de tudo favorecer ao aluno o reconhecimento de fatores e situações que realmente produzam felicidade e ajudá-lo a desenvolver capacidade crítica em relação ao consumo de produtos, bens e serviços. Também é igualmente importante desenvolver no aluno o senso de responsabilidade e solidariedade em relação a tudo que o cerca, de forma que aprenda a respeitar o ambiente e as pessoas de sua comunidade. A escola é fator decisivo para a aprendizagem de valores e atitudes. A escola é hoje não mais o segundo lar do aluno, mas em um grande número de casos, o primeiro e único lar que ele tem a sua disposição. Desta forma, a escola constitui-se em um dos ambientes mais imediatos do aluno, então a compreensão das questões ambientais, bem como o desenvolvimento de hábitos e atitudes, passam a ocorrer primordialmente a partir do cotidiano escolar.
A questão ambiental vem sendo considerada cada vez mais urgente e importante para o conjunto da sociedade, pois o futuro da humanidade e do planeta Terra depende da relação estabelecida entre a natureza e o homem. A Educação Ambiental como um tema de preocupação mundial aparece pela primeira vez na conferência de Estocolmo, na década de setenta. Em 1977, em Tbilisi, ocorre a primeira conferência de Educação Ambiental. É um marco de referência para todos os trabalhos realizados. O princípio básico é de que o ser humano precisa se apropriar e transformar o mundo natural. Não existe a possibilidade de não transformá-lo. O ser humano só consegue transformar-se no decorrer dos tempos através de sua ação sobre a natureza. O ser humano tem o direito e a necessidade de intervir na natureza. È um princípio cultural. Não haveria cultura humana se o ser humano não tivesse feito intervenções na natureza. Seríamos iguais aos pássaros, árvores ou outro ser vivo qualquer que não modificou sua maneira de ser e de viver através dos tempos. Ao mesmo tempo, porém, é necessário considerar a existência de limites éticos nesse direito de intervenção. Portanto, o conceito de sustentabilidade direciona a ação humana para a viabilização da espécie humana na Terra, com qualidade e harmonia. O grande desafio da educação ambiental é ajudar a criar um homem mais humano. Que possa recuperar e recriar a nós mesmos como seres humanos capazes de acreditarmos uns nos outros, capazes de acreditar que a transformação do mundo ocorre através da intervenção humana. Através de uma transformação que se constrói na medida em que nos construímos como pessoas que respeitam a vida e que buscam novas formas de unir e educar.
Referências bibliográficas:BRANCO, S. M. ECOLOGIA DA CIDADE. Moderna. São Paulo. 1996.
CHASSOT, A . A CIÊNCIA ATRAVÉS DOS TEMPOS. Moderna. São Paulo. 1995
FARÍAS, M. del C. LA CIENCIA DESDE MÉXICO - UNA EXPERIÊNCIA EN LA DIVULGACION CIENTÍFICA. Fondo de cultura económica. México. 1996.
LOHN, J.I. e Zunino,A.V. Ciência, Tecnologia e Sociedade: na direção de uma escola de integração a partir do ensino de ciências. CED/CME/UFSC, Florianópolis. 1990.
MARCONDES. A . C. ECOLOGIA. Atual. São Paulo. 1993.
MERCURI, O . COLECCION ECOLOGICA. Buenos Aires. 1996.
ANAIS DA 1ª CONFERÊNCIA CATARINENSE DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL. IOESC. Santa Catarina. 1997.
PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. Meio ambiente e saúde. Vol. 9. Brasília. 1997.
Copyright© 1999 C.C.F.M. Todos os direitos reservados. All rights reserved.
http://www.coracao.g12.br/provetinha/eatt.htm
Todo mundo sabe por experiência própria o que é estar consciente. Portanto, qualquer pessoa deveria conseguir explicar o que é a consciência, não é? Mas quem tentar verá que a tarefa não é tão simples. Uma definição não escapa somente de dedos leigos: nem mesmo a ciência chegou a um acordo sobre o que é a consciência. Na hora de escrever livros de divulgação sobre o tema, até cientistas respeitados como o prêmio Nobel Francis Crick se esquivam, alegando que como todos sabem na pele o que ela é, não é necessário perder tempo com definições para poder explicar como a consciência é produzida pelo cérebro. E na falta de uma definição, a maioria dos livros populares que se dispõem a explicar ?como nasce a consciência? ou ?como a mente funciona? discorre com fluência sobre vários processos relacionados, como a atenção, a percepção, a linguagem e a memória – mas não conclui nada sobre a questão mais importante: o que é, e como surge, a consciência. O resultado? Leitores frustrados.
A esses leitores, uma boa notícia: em uma prateleira perto de você já se encontra o livro "O Mistério da Consciência", de António Damásio, que trata justamente de oferecer uma explicação para o que é, e como surge, a consciência.
Ao contrário do que o título em português sugere, a intenção original do autor não era entender a consciência, e sim resolver um impasse a que tinha chegado em suas pesquisas: como é possível sabermos que sentimos uma emoção, ou termos "a sensação do que está acontecendo", que é o título original do livro. Neurologista português radicado nos EUA, Damásio transformou as emoções em um tema legítimo da Neurociência experimental. Em suas mãos, o que antes era tradicionalmente domínio exclusivo da Psicologia e da Filosofia, por ser considerado assunto puramente subjetivo e portanto imensurável, passou a ter bases biológicas. Para ele, a emoção não é uma abstração mental, mas um processo que envolve corpo e cérebro, uma idéia que ele expôs em seu livro anterior, ?O Erro de Descartes?. Além de demonstrar como as emoções contribuem na tomada de decisões, Damásio propõe que elas nascem da interação entre o corpo e o cérebro, e sugere que a emoção na verdade é uma sequência de dois processos: ter uma emoção, e depois senti-la. Ter uma emoção seria o que acontece quando o cérebro, induzido por uma lembrança, uma cena ou uma situação real, provoca alterações no corpo – aceleração dos batimentos cardíacos, suor, queda da pressão arterial, por exemplo. Sentir a emoção, ou ter um sentimento, é o que aconteceria no passo seguinte, quando o cérebro registra aquelas alterações no corpo.
Mas "O Erro de Descartes" deixava no ar uma terceira questão: como tomamos conhecimento de sentir uma emoção? Em outras palavras, como identificamos aquela emoção como nossa? Não há como encontrar uma resposta sem conhecer primeiro o que é o ?eu? consciente de si mesmo, o self. Para responder à pergunta, portanto, Damásio se viu forçado a desenvolver uma teoria, que ele expõe em seu novo livro, sobre as origens biológicas do self e da consciência.
Ou melhor, as consciências: central, ampliada, e moral, na visão de Damásio três níveis diferentes de uma espiral ascendente construída a partir do proto-self, que é como ele chama a imagem que o cérebro tem do corpo.
O proto-self seria o conjunto de padrões neurais, ou os mapas mais básicos, ditos de "primeira ordem", que representam no cérebro acordado o estado do corpo em todos seus detalhes, e a cada momento. Quando o corpo é modificado pela interação com o mundo, seja mudando de postura e posicionando os olhos para apreciar uma pintura, se deslocando para colocar a chave na ignição ou simplesmente se descontraindo para escutar uma boa música, muda a imagem que o cérebro tem do corpo. Damásio propõe que existem no cérebro "mapas de segunda ordem" que representam essas mudanças como "re-representações" do corpo. Quando essas são relacionadas às representações do objeto que causou as mudanças nasce o self central, a noção de indivíduo situado no aqui e agora, e com ele a consciência central. Para Damásio, ?a presença de você é o sentimento do que acontece quando seu ser é modificado pelas ações de apreender alguma coisa.?
E o "sentimento de ter um sentimento", afinal, de onde vem? Depois de ler sua explicação do sentimento do self, a resposta é simples: basta considerar as alterações que a emoção provoca no corpo e no próprio cérebro como um objeto a ser apreendido. Temos uma emoção quando alterações no cérebro provocam mudanças no corpo. Sentimos uma emoção quando as mudanças no corpo são representadas no cérebro. E temos consciência desse sentimento quando a representação das mudanças no cérebro e a representação das mudanças no corpo são re-representadas nos mapas de segunda ordem no cérebro como causa e consequência.
Qual a relação entre consciência e emoção? Para quê serve a consciência? Segundo Damásio, tanto a consciência do self central como a consciência do sentimento de uma emoção dependem de representações de mudanças no corpo nas mesmas estruturas cerebrais. Não é de se espantar, então, que emoção e consciência sejam inseparáveis: quando uma lesão cerebral afeta uma, a outra também é abalada. Para Damásio, o laço estreito entre emoção e consciência seria inclusive um dos valores adaptativos da consciência, útil por permitir aos organismos conhecer suas emoções. Poderia se argumentar que as emoções são suficientes para promover a sobrevivência, promovendo reações específicas às situações e regulando o estado interno no organismo de modo que ele possa estar preparado para essa reação. No entanto, ter conhecimento dos sentimentos é extraordinariamente valioso para a orquestração da sobrevivência. O sentimento do sentimento alerta o organismo para a situação que provocou a emoção, além de puxar a atenção sobre si, incentivando o planejamento de formas de reação adaptativa que sejam novas e talhadas sob medida para a ocasião.
Embora o tema central do livro seja a consciência do self central, Damásio também esclarece o que seriam as outras formas de consciência. A consciência ampliada, em que o self recebe identidade e perspectiva histórica, tornando-se autobiográfico, com passado, presente e futuro, nasceria da combinação da consciência central com os diferentes tipos de memória, inclusive a autobiográfica, e com os processos atencionais que focalizam os esforços cerebrais. Sobre a consciência ampliada entrariam então em cena as chamadas funções superiores como a linguagem e a criatividade, construindo a consciência moral, nível em que se situam as relações sociais e noções abstratas como amor, honra e altruísmo. A distinção é bem-vinda, e seria útil adotá-la, para o bem do público e dos próprios cientistas. Afinal, vários autores falam desses diferentes processos chamando-os simplesmente de ?consciência?, gerando confusões que podem ser resolvidas simplesmente através da distinção proposta por Damásio.
Além de esclarecedor, "O mistério da consciência" é um livro agradável de se ler. Damásio vai direto ao assunto em linguagem simples, sem jargões, e pessoal; o tom do livro é o de uma conversa descontraída de fim de tarde. Ao contrário de tantos outros neurocientistas que escrevem para o público leigo, Damásio não começa dando uma desnecessária lição de neuroanatomia ou de transmissão sináptica. Na maioria das vezes (há alguns deslizes), não é preciso conhecer a localização no cérebro ou a função de cada estrutura à qual ele se refere; quando é, ele mostra ilustrações simples e adequadas.
O livro é recheado de descrições vívidas de casos clínicos, acumulados ao longo dos anos de prática como neurologista e relatados no livro em narrativas carinhosas das histórias pessoais de pacientes que freqüentam seu consultório de longa data. As hipóteses de Damásio são corroboradas pelas deficiências de seus pacientes. A observação mais marcantes é que o comprometimento das estruturas do proto-self arrasa com todos os níveis de consciência, apoiando sua proposição de que a representação do corpo é o nível mais básico da consciência. Além disso, a dissolução da consciência central, por exemplo durante ataques epilépticos ou crises de ausência, fatalmente arrasta consigo a consciência ampliada. Em comparação, a consciência ampliada pode ser comprometida sem que a consciência central seja afetada, como acontece na amnésia e nos estágios iniciais do mal de Alzheimer. Vigília e consciência central também não são sinônimos, como confirmam certas formas de epilepsia em que o indivíduo permanece acordado, mas se comporta como um autômato.
Damásio não tem a pretensão de ter solucionado o problema da consciência; ele espera simplesmente que as idéias apresentadas em seu livro contribuam para que por fim se elucide o problema do self, do auto-conhecimento, de uma perspectiva biológica. Além de apresentar uma hipótese concreta e testável, o simples fato de oferecer uma definição operacional da consciência é um avanço muito importante. Como todo cientista sabe, definir o problema é uma das chaves para encontrar a solução. Quem sabe, agora que Damásio oferece tanto uma definição como uma hipótese de trabalho, o estudo da consciência consiga entrar em uma nova fase de progresso.
Como era de se esperar, o próprio Damásio é o primeiro a colocar suas idéias em prática. Em um artigo publicado na revista Nature Neuroscience em outubro deste ano, ele e sua equipe mostram que de fato há ativação das regiões cerebrais que contêm mapas de primeira e de segunda ordem do estado do corpo quando a sensação de uma emoção chega ao conhecimento do indivíduo. Ou seja: o estado do corpo é peça importante na consciência das emoções.
Se ele estiver certo, sem cérebro não há consciência - mas sem corpo, também não. Segundo Damásio, a consciência depende do corpo específico que abriga o cérebro, aquele corpo que vem interagindo com o mundo, sendo modificado pela interação, o corpo no qual as reações emocionais acontecem, e cujas lembranças ficam guardadas no cérebro. Por isso, mesmo se fosse possível reproduzir os padrões neurais do cérebro de uma pessoa, não seria possível experimentar sua consciência. Pela mesma razão, a consciência não deixa o corpo junto com o cérebro. Escritores de ficção científica, anotem essa: aquele cérebro brilhando sozinho dentro de uma redoma de vidro pode até continuar funcionando, mas não tem consciência...
Artigo publicado originalmente na revista Ciência Hoje, jan/fev de 2001.
Fonte:
António Damásio (2000). O mistério da consciência. Do corpo e das emoções
ao conhecimento de si. Companhia das Letras, São Paulo, 474 pp.
http://www.cerebronosso.bio.br/paginas/damasio.html
Artigo Inédito
A Carta da Terra na Perspectiva da Educação - Um desafio para o terceiro milênio
Por Moacir Gadotti e Gustavo Belic Cherubine*
Se olharmos para o céu atentamente em uma noite de lua minguante, longe das luzes artificiais dos grandes centros urbanos, poderemos identificar no espaço infinito uma miríade de corpos celestes que estão distribuídos por cerca de um bilhão de galáxias, cada galáxia com bilhões de astros. A fantástica e deslumbrante visão proporcionada pela natureza teve origem na grande explosão de um único corpo celeste, formando o universo que conhecemos e que, segundo os estudiosos, continua em expansão.
O grande espaço universal ocupado pelos corpos celestes é medido por distâncias em anos-luz, tornando tudo ainda mais gigantesco, com proporções inimagináveis que continuamente despertam na humanidade o desejo de decifrar a origem e a totalidade do universo e da vida.
As mesmas dimensões do universo que provocam na humanidade um desejo pelo seu conhecimento que nunca finda, também servem para demonstrar o quanto o fenômeno da vida é raro. Até onde sabemos, dentro da infinitude espacial, somente no minúsculo corpo celeste chamado terra a vida se fez, e com uma diversidade que nos fascina e encanta. Foi necessário que o caudaloso rio do tempo transcorresse para que as condições adversas da grande explosão abrandassem e longos processos sucessivos de acomodações e evoluções tivessem início e fim, continuamente, para que condições invulgares e de delicada textura tornassem possível o milagre da vida na Ecosfera, a fina camada que recobre o corpo da terra.
Na história da humanidade, o século 20 é cultuado pelos ocidentais como um período de tempo onde pudemos avançar enquanto seres criadores de obras e objetos técnicos e informacionais, cuja função e finalidade seria a de contribuir com o desenvolvimento e o progresso material dos seres humanos.
É inegável o avanço proporcionado por processos produtivos e tecnológicos, geradores de produtos e soluções para as questões práticas da vida humana, principalmente as relacionadas aos setores de comunicação, transporte e consumo.
Mas, ao analisarmos detidamente o fim de século com um olhar acurado e sensível de observador interessado nos rumos da humanidade, podemos perceber que os valores universais construídos ao longo dos tempos por diversas culturas e pensamentos - valores e conceitos sobre a paz, a solidariedade e a harmonia - há muito deixaram de existir no cotidiano da vida do planeta. É como se a humanidade não levasse em consideração o quanto foi necessário de tempo e de adequação do espaço para que a vida, e toda espécie de vida, acontecesse no minúsculo corpo celeste chamado Terra.
A Carta da Terra, cujo papel e significado tem por base os esforços das Nações Unidas e dos povos em identificar as questões fundamentais relativas à segurança mundial, surgiu primeiramente na Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro de 3 a 14 de junho de 1992, juntamente com outro importante documento mundial intitulado Agenda 21.
Os dois documentos que nasceram
juntos são muito diferentes, mas destaca-se uma diferença fundamental: a
Carta da Terra foi aprovada no
Fórum Paralelo da Sociedade Cível e não na plenária oficial dos chefes de
Estado. Tal condição histórica de nascimento é determinante para dizermos
que a Carta da Terra é o legítimo documento da Cidadania Planetária, pois a
composição do Fórum Paralelo da Sociedade Civil representava todos os
povos, principalmente os que não possuem "governo" ou "chefes
de estado", como exemplo podemos citar os Xavantes, os Curdos e os
Pigmeus.
Como podemos pensar numa sociedade global se só aceitamos como legítimos os anseios supostamente populares levados às plenárias mundiais por chefes de estado constituídos? E os povos que não se organizam como os estados-nação, principalmente os que se encontram nos continentes diversos culturalmente do Ocidente dito "moderno"? Como defendermos - outro exemplo - os direitos dos Beduínos Nômades? A Cidadania Planetária, anunciada na Carta da Terra e que no momento está sendo fundamentada teoricamente pelos estudiosos da Ecopedagogia e da Pedagogia da Terra, nos dará sentido para agirmos enquanto seres vivos que compartilham com demais vidas a experiência do Planeta Terra.
Diferentemente da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU, em 1948, por um grupo de especialistas e negociada pelos Estados Membros da organização sem que houvesse consulta prévia aos povos, a Carta da Terra, graças a um esforço que permanecerá e mobilizará numerosas pessoas e instituições num imenso processo pedagógico, foi proclamada no dia 14 de março de 2000 pela Unesco, em Paris, e deverá ser apresentada e assumida pela ONU no ano 2002 com o mesmo valor da Declaração dos Direitos Humanos.
Nós, do Instituto Paulo Freire e
do Movimento da Ecopedagogia, que participamos do I Encontro Internacional da
Carta da Terra na Perspectiva
da Educação, realizado em São Paulo entre os dias 23 e 26 de agosto,
acreditamos que a aprovação poderia ser melhor precedida por um abrangente
processo de consulta que, partindo da demanda dos povos, promulga-se os
direitos da vida da terra, incluindo os Direitos Humanos.
Teremos tempo até 2002 para continuarmos realizando o trabalho que iniciamos no ano passado com os Educadores que estiveram conosco nos quatro dias de trabalhos e vivência. A Carta da Terra, já percebemos, não é um documento conhecido como o é a Agenda 21: poucas pessoas conhecem e entendem seu significado, especificidade e importância.
Para os Educadores, a Carta da Terra é um projeto inspirado em uma variedade de fontes que inclui a ecologia, as ciências contemporâneas, as tradições espirituais e filosóficas do mundo, além da literatura sobre ética global, o meio ambiente e o desenvolvimento, a Arte, a experiência prática dos povos que vivem de maneira sustentada e nas declarações e nos tratados intergovernamentais e não-governamentais relevantes. A Carta da Terra é parte integrante de um projeto social global de construção de uma sociedade humana que respeita e aplica cotidianamente a Ética, a Cultura da Sustentabilidade e a Prática da Não-violência.
Muitos estudiosos já identificaram no conceito de desenvolvimento sustentável um formidável componente educativo, pois a preservação do meio ambiente depende de uma consciência ecológica e a formação da consciência depende da educação. Como a Carta da Terra, além de ser um projeto dialógico e construtivo, é também um projeto político educacional que terá a função de contribuir para a criação de melhores condições e qualidade de vida, um dos espaços mais privilegiados para que a construção do documento seja feito com a verdadeira expressão dos povos é a Escola.
O educador, que através dos tempos cumpre o papel magnífico de impregnar de sentido o caminhar da humanidade, terá neste novo século um papel decisivo e único. Para a construção de um novo milênio no qual uma verdadeira sociedade planetária comungue dos mesmos princípios e ideais civilizatórios, será preciso que o Educador ingresse no processo de consulta e participe do Movimento da Ecopedagogia, em parceria com os animadores da Carta da Terra que já estão trabalhando nesse sentido; pois somente assim conseguiremos construir uma metodologia da Carta da Terra que parta do universo sócio-cultural dos segmentos com os quais trabalha, que promova o pensar, o perguntar, o construir junto o conhecimento sobre nosso Planeta - próximo e distante - e que nos leve, coletivamente, a agir de maneira consciente sobre o espaço em que vivemos.
A Escola se tornará um dos grandes palcos de discussão dos rumos da vida no planeta, partindo da elaboração dos seus respectivos projetos político-pedagógicos, aliada a uma organização curricular coletiva que envolva democraticamente os animadores da Carta da Terra, coordenadores pedagógicos, educandos, pais e mães, visando a uma seleção crítica, criteriosa, fundamentada e flexível de conteúdos, dos trabalhos a serem desenvolvidos e das metodologias a serem adotadas.
A metodologia da Carta da Terra reconhece que a seleção de conteúdos é um recorte do conhecimento universal historicamente produzido e, assim, pode ser reconstruído e recriado. Por ser um recorte, implica numa opção, e toda opção é ideológica. É fundamental a clareza em torno do poder de escolher um conteúdo e não outro e qual o porquê desse novo modo de abordá-lo. O desafio lançado aos educadores e às escolas é o de contribuir para a construção da Carta da Terra a partir de uma visão interdisciplinar que se utilize do variado universo simbólico da linguagem e da comunicação humana, considerando a contribuição das diferentes áreas do conhecimento, integrando-as no processo de busca de compreensão dos problemas ecológicos e organizando-as por meio de atividades expressivas e criativas tais como: estudo da realidade local, observação das condições ambientais, caminhadas ecológicas que despertem a consciência da necessidade de preservação da natureza, discussão e debate de temas pertinentes, palestras, filmes, fotografias e slides, teatro, música, dança, desenho, esportes, comemorações, festas e jogos.
No Brasil, o Instituto Paulo Freire, enquanto membro da coordenação nacional da Carta da Terra, por meio de acordo de cooperação com o Conselho da Terra, está incumbido de realizar a consulta mundial para sistematizar as contribuições dos educadores à Carta da Terra.
A Rede Mundial pela Carta da Terra está aberta a toda escola e cidade que queiram ajudar a escrever o futuro do nosso planeta privilegiando os seguintes eixos temáticos: Visão Prospectiva de Sistemas Educacionais, Pedagogias de Afirmação Ética, Educação e Cultura da Sustentabilidade, Educação para a Cidadania Planetária e Sistemas Educativos Planetários de Comunicação e Intercâmbio.
Moacir Gadotti é Professor titular da USP, Diretor do Instituto Paulo Freire e auto de vários livros.
Gustavo Belic Cherubine, técnico
agropecuário, bacharel em Direito,
pesquisador CIETEC/USP, membro CONAT e coordenador do Programa de Ecopedagogia
do Instituto Paulo Freire. email: cherubin@paulofreire.org
A estrutura central do artigo já foi publicada pelos jornais da APEOESP e do SINPEEM, sindicatos estadual e municipal dos professores da rede pública.
Os interessados em participar podem escrever para o Instituto Paulo Freire, Rua Cerro Corá, n. 550, 02. Andar, Cj.22, CEP 05061-100 - Tel : (011)3021-5536 / fax : (011)3021-5589 - São Paulo- SP - Web site : www.paulofreire.org - e-mail : ipf@paulofreire.org
"A Terra é um só país, e os seres humanos os seus cidadãos" Bahá'u'lláh
"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo" Peter Drucker
http://www.ujgoias.com.br/redecta03/03000000001.htm
A
Era de Frankenstein
Eduardo Galeano
http://www.cultura-e.com.br/orbita/estado/
Em seu romance Admirável Mundo
Novo, Aldous Huxley havia profetizado a fabricação de seres humanos em série.
Em tubos de ensaio de laboratórios, os embriões se desenvolveriam de acordo
com sua futura função na escala social, desde os alfas, destinados ao mando,
até os ipisilones, produzidos para a servidão.
Setenta anos depois, a biogenética nos promete, como presente do recém-nascido
milênio, uma nova raça humana. Mudando o código genético das gerações
futuras, a ciência produzirá seres inteligentes, belos, saudáveis e talvez
imortais, de acordo com o preço que cada família possa pagar. James Watson, prêmio
Nobel, descobridor da estrutura do ADN e chefe do Projeto Genoma Humano, predica
o despotismo científico. Watson se nega a aceitar limite algum para a manipulação
das células humanas reprodutivas: nenhum limite à pesquisa, nem ao negócio.
Sem papas na língua, proclama: "Devemos nos manter à margem dos
regulamentos e das leis".
Gregory Pence, que dita a cátedra de ética médica na Universidade de Alabama,
reivindica o direito dos pais a escolher os filhos que terão, "da mesma
forma que os criadores fazem cruzamento buscando o cão mais adequado a uma família".
E o economista Lester Thurow, do Massachusetts Institute of Tecnology, exitoso
teórico do êxito, se pergunta quem poderia negar-se a programar um filho com
maior coeficiente intelectual. "Se o senhor não fizer isso" --
adverte -- "seus vizinhos farão, e então seu filho será o mais bobo do
bairro".
Se a sorte nos acompanhar, as estufas da futura geração irão gerar
super-crianças parecidas a esses gênios. O melhoramento da espécie humana já
não irá exigir os fornos a gás onde a Alemanha purificou a raça, nem a
cirurgia que os Estados Unidos, a Suécia e outros países realizaram para
evitar que fossem reproduzidos os produtos humanos de baixa qualidade. O mundo
fabricará pessoas geneticamente modificadas, como já fabrica alimentos
geneticamente modificados.
2001, odisséia no espaço: já estamos em 2001 e já comemos comida química,
como havia anunciado, há mais de trinta anos, o filme de Stanley Kubrick.
Agora, os gigantes da indústria química nos dão de comer. Questão de siglas:
depois de produtos como o DDT, que finalmente foram proibidos quando já fazia
anos que se sabia que davam mais câncer que felicidade, chegou a vez dos GM, os
alimentos geneticamente modificados. Dos Estados Unidos, da Argentina e do Canadá,
os GM invadem o mundo inteiro, e somos todos cobaias desses experimentos gastronômicos
dos grandes laboratórios.
Na verdade, nem sabemos o que estamos comendo. A não ser por raras exceções,
as etiquetas dos alimentos não nos advertem que eles contêm ingredientes que
sofreram a manipulação de um ou de vários genes. A empresa Monsanto, a
principal abastecedora, não inclui esse dado em suas etiquetas de origem, nem
mesmo no caso do leite proveniente de vacas tratadas com hormônios transgênicos
de crescimento. Esses hormônios artificiais favorecem o câncer da próstata e
dos seios, segundo várias pesquisas publicadas em The Lancet, Science, The
International Journal of Health Services e outras revistas científicas, mas a
Food and Drug Administration dos Estados Unidos autorizou a venda do leite sem
menção nas etiquetas, porque afinal das contas os hormônios apressam o
crescimento e aumentam o rendimento, e portanto, também aumentam a
rentabilidade e o lucro. Primeiro o que vem primeiro, e em primeiro lugar, a saúde
da economia. Seja como for, quando a Monsanto é obrigada a confessar o que
vende, como no caso dos herbicidas, a coisa não muda muito. Faz alguns anos a
empresa precisou pagar uma multa por causa de "setenta e cinco menções
inexatas" nos galões do venenoso herbicida Roundup. Foi a preço de ocasião.
Três mil dólares por cada mentira.
Alguns países se defendem, ou pelo menos, tentam se defender. Na Europa, a
importação de produtos da engenharia genética está proibida em alguns casos,
e em outros, está submetida a controle. Desde 1998, por exemplo, a União Européia
exige etiquetas claras para a soja geneticamente modificada, mas é muito difícil
levar as boas intenções à prática. O rastro se perde em múltiplas combinações:
segundo o Greenpeace, a soja GM está presente em 60% de toda a comida
processada que é oferecida nos supermercados do mundo.
Nas manifestações ecologistas, um grande peixe azul ergue um cartaz: "Não
se metam com meus genes". Ao lado, um tomate gigante exige a mesma coisa.
No mundo inteiro multiplicam-se as vozes de protesto. A atitude européia é
resultado da pressão da opinião pública. Quando os granjeiros franceses
incendiaram os silos cheios de milho transgênico, por causa do dano notório
que trazia ao ecossistema, o agitador camponês José Bové converteu-se num herói
nacional, num novo Asterix, que alegou em sua defesa: Quando foi que nós, os
granjeiros e os consumidores, fomos consultados sobre isso? Nunca.
O governo francês, que havia metido Bové na cadeia, desautorizou os cultivos
de milho inventado pela biotecnologia. Algum tempo depois, a empresa
norte-americana Kraft Foods devolveu milhões de tortilhas de milho, marca Taco
Bell, sufocada pelas queixas dos consumidores que tinham sofrido reações alérgicas.
Enquanto isso, a secretária de Estado Madeleine Albright dizia e repetia na
Europa, conforme obrigação prioritária da diplomacia dos Estados Unidos:
"Não existe nenhuma prova de que os alimentos geneticamente modificados
sejam prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente".
Os europeus têm motivos muito concretos para desconfiar das piruetas tecnocráticas
na mesa de jantar. Estão escaldados pela sua recente experiência com as vacas
loucas. Enquanto comiam pasto ou alfafa, durante milhares de anos, as vacas
haviam se comportado com uma cordura exemplar, e haviam aceitado, resignadas,
seu destino. Foi assim até que o sistema louco que nos rege decidiu obrigá-las
ao canibalismo. As vacas comeram vacas, engordaram mais, ofereceram à
humanidade mais carne e mas leite, foram cumprimentadas pelos donos e aplaudidas
pelo mercado -- e ficaram loucas de pedra. O assunto deu motivo a muitas piadas,
até que começou a morrer gente. Um morto, dez, vinte, cem ...
Em 1996, o ministério britânico de Agricultura havia informado à população
que a ração de sangue, sebo e gelatina de origem animal era um alimento seguro
para o gado e inofensivo para a saúde humana.
Eduardo Galeano é escritor uruguaio, autor de
As veias abertas da América Latina
http://www.biodiversidadla.org/documentos/documentos117.htm
| Nossos
diferentes medos
Nossos
diferentes medos
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo da comida. Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados. A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. É tempo do medo. Medo da mulher à violência do homem e medo do homem da mulher sem medo. Medo dos ladrões, medo da polícia. Medo da porta sem fechadura, do tempo sem relógio, da criança sem televisão... Medo de morrer, medo de viver.
Nas guerras, quem vende as armas? Essa é a pergunta que jamais será respondida por um noticiário de televisão, rádio ou pelo jornal. Quando temos essas terríveis guerras ao redor do mundo quem está fazendo negócio com essas tragédias? Temos cinco países que são os principais vendedores de armas no mundo, esses cinco países são os que têm direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, são os que cuidam da paz do mundo, são os que fazem o negócio da guerra. Do ponto de vista da economia, a venda de armas não se distingue da venda de alimentos. Nas guerras, quem vende as armas? Essa é a pergunta que jamais será respondida por um noticiário de televisão, rádio ou pelo jornal. Quando temos essas terríveis guerras ao redor do mundo quem está fazendo negócio com essas tragédias? Temos cinco países que são os principais vendedores de armas no mundo, esses cinco países são os que têm direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, são os que cuidam da paz do mundo, são os que fazem o negócio da guerra. Do ponto de vista da economia, a venda de armas não se distingue da venda de alimentos.
Cultura não é apenas a produção de livros, de peças de teatro, de quadros. Cultura é a forma em que cada coletividade se define através dos símbolos que cria, que são os símbolos de comunicação que provêm da forma que cada povo tem de dançar, comer, jogar futebol, de sonhar, de sentir, de falar, de calar. Felizmente somos todos diferentes, por isso a solidariedade está baseada no respeito pela diferença do outro. É a única forma de igualdade que é parecida com o que queremos que o mundo seja, a igualdade baseada no respeito pela diferença, que é o melhor que o mundo tem. Paz e infância Os últimos números de organizações internacionais como a Unicef, ONU e o próprio Banco Mundial nos permitem afirmar que se o mundo dedicasse 12 dias, somente 12 dias do dinheiro investido em armamentos, para ajudar as crianças pobres do mundo, elas poderiam ter escola, assistência médica e comida... Só com 12 dias de gastos militares em armamentos. |
Educação
ambiental: uma discussão entre o político e o cultural
Sueli Barbosa Thomaz
Pensar
em Educação Ambiental exige compreensão da realidade, partindo do todo às
partes e destas ao todo, num processo dinâmico e encadeado. Implica considerar
as coisas como provisórias, transitórias, influindo tudo sobre tudo, evoluindo
num processo circular a um plano mais elevado – espiral ascendente – fruto
de uma evolução contínua, que gera a si mesma e se transforma a partir das
contradições.
A compreensão da realidade, considerando todas as coisas em sua interação e
sua globalidade, necessita, também, de um redimensionamento, de modo a não
permanecer no nível da pura e simples constatação ou da aceitação das
explicações lógicas, racionais, atingindo um antagonismo tal que o “todo”
contenha as “partes”, e essas por sua vez contenham o “todo”.
Através dessa articulação, parece ser possível levar em conta o estudo da
questão do ponto de vista de seu movimento, do encadeamento, ligando o
particular ao conjunto e vice-versa.
Do ponto de vista macropolítico, a Educação Ambiental pode perceber a política
perversa do neoliberalismo, uma vez que o processo de globalização, calcado na
competitividade e não na proclamada interdependência, gera uma fragmentação
de espaço-tempo, numa posição autoritária dos países ricos que dominam uma
periferia pobre sem poder de discussão sobre a disponibilidade e consumo dos
recursos naturais do globo. Isso significa que invariavelmente o fato local está
quase sempre atrelado a um global mais distante.
Deve, também, a Educação Am-biental estar atenta ao privilégio que tem sido
imposto ao naturalismo, ao ecologismo, ao verde, numa visão biologista
reduzida, desprezando o político e o cultural.
Conservar os recursos naturais, apregoando seu uso racional, está ligado ao que
se costuma denominar de conservacionismo através de três princípios básicos:
1¼) uso dos recursos naturais pela geração presente; 2¼) preservação do
desperdício; 3¼) desenvolvimento dos recursos naturais para muitos.
Há uma outra visão da questão ligada ao preservacionismo, que se refere à
natureza no sentido de apreciação estética e espiritual da vida selvagem e
proteção da natureza contra o desenvolvimento moderno, através de áreas
protegidas.
Numa dimensão mais abrangente, surge o ambientalismo, preo-cupado com o homem
na natureza, ligado ao darwinismo, aparecendo, assim, uma ética ambiental. Esta
desencadeia na ecologia para a qual os organismos vivos interagem entre si,
envolvendo preservação de grandes áreas, encontro com a natureza. Entretanto,
torna-se esta uma ciência abstrata, quantitativa e reducionista. O ecologismo
assume a responsabilidade de luta pela vida, culpando a tecnologia pela crise
ambiental. Ao mesmo tempo, critica o uso de biocidas e questiona a questão
populacional, propondo a volta às práticas de uma vida ecologicamente sadia.
Preocupa-se com o futuro do planeta, com o esgotamento dos recursos minerais,
com a superpopulação humana, com a poluição, a guerra nuclear e o
crescimento econômico.
A partir do movimento ecologista, a questão ambiental passa a ser
institucionalizada através da criação de Ministério e de Secretarias do Meio
Ambiente, formação de partidos verdes e organizações não- governamentais.
Portanto, quando se fala na questão ambiental surgem idéias como preocupação
com o verde, ambientalismo, movimentos ecológicos, havendo confusões semânticas
no uso do termo.
Há, também, confusões de interesses, no sentido de que, como afirmam Alphandéry,
Bitoun e Du-pont (1991), os políticos decidem pensar, os cientistas proteger a
terra, os industriais vender os produtos, os consumidores modificar seus
comportamentos e os habitantes das cidades e dos campos defender sua qualidade
de vida.
Temos, desse modo, questões básicas que levam a discussões múltiplas e que
podem não levar a lugar algum, em função de que cada grupo detém seu
interesse e seu poder, abrindo mão de questões mais amplas.
Se esse aglomerado de posições parece ambíguo, ele, no entanto, leva a uma
preocupação – a preservação da natureza – e ao surgimento de diferentes
teses, algumas de perspectivas pragmáticas, outras redu-cionistas, futuristas e
até turísticas. O fato é que, por um caminho ou por outro, a questão
ambiental tem sido alvo de muitas polêmicas.
Percebe-se, entretanto, que não existe mais, por parte de muitos, a consciência
ingênua de que tais questões se resolvem por si mesmas, ou que é um problema
que pode ser resolvido sem uma vontade política. Sabe-se que a questão do
verde não estará sendo resolvida pelo simples discurso ou por atitudes
isoladas de alguns pequenos grupos que, apesar de terem voz, de fazerem discurso
e até barulho, não conseguem usar a força do silêncio, que é o voto.
Guattari (1995) lembra que as questões ambientais estão sendo vistas apenas
parcialmente, no campo dos danos industriais, numa perspectiva tecnocrática,
necessitando de uma articulação ético-política, que ele denomina de ecosofia
entre os três registros ecológicos: o do meio ambiente, o das relações
sociais e o da subjetividade humana. Acredita, também, que a resposta à crise
ecológica está numa revolução política, social e cultural, reorien-tando os
objetivos da produção de bens materiais e imateriais, atuando nas forças visíveis
e na sensibilidade, na inteligência e no desejo.
A política neoliberal e o meio ambiente
Por outro lado, hoje é clara a intenção da dimensão macropolítica em
explicar, de modo não-reducionista, em nome de quem o meio ambiente vem
sofrendo esse impasse, transformando, como afirma Baudrillard (1992), o próprio
planeta em detrito, em resíduo, e com ele o próprio homem.
A política neoliberal que vem assolando a América Latina é fruto de uma
dimensão maior, denominada de globalização, desafiadora do Estado Nacional,
uma vez que coloca em jogo a autoridade da Nação-Estado, no momento em que
propõe, também, globalizar a democracia.
Isso significa permitir que uma ou mais potências decidam pelo resto do mundo,
deixando de lado as peculiaridades territoriais. Por outro lado, já não somos
tão ingênuos de acreditar que estarão interessados em apenas ajudar a
construir um mundo melhor.
Portanto, essa política parece só servir aos grandes centros hegemônicos que
decidem a vida vivida nos países pobres, deixando-nos sem poder de barganha e
de luta por melhores condições de vida.
Dentro da política da globalização, o neoliberalismo econômico exige o
enxugamento da máquina do Estado, pouca intervenção em programas sociais,
como combate à pobreza, melhoria dos sistemas públicos, educação e saúde e,
conseqüentemente, desemprego e empobrecimento do povo.
O neoliberalismo, como afirma Castro (1995), é uma doutrina da moda imposta ao
mundo de hoje, que sacrifica impiedosamente, nos países subdesenvolvidos, os
gastos para a saúde, educação, justiça, cultura, esportes, securidade
social, habitação, água potável etc.
Pode-se concluir que o neoliberalismo aprofundará a miséria, criando um
verdadeiro appartheid social, embora de modo não-declarado.
Pensar no projeto neoliberal é pensar em: combate à inflação; ajuste fiscal;
privatização das estatais; desregulamentação dos mercados, liberalização
financeira e comercial e retomada dos investimentos financeiros, deixando de
lado o povo, a saúde, a educação, ficando o País nas mãos do FMI e do Banco
Mundial, isto é, do consenso de Washington1.
Alternativas de intervenção
Retomando a questão ambiental, é preciso observação permanente, visto que,
em face a essa política, ela estará à mercê de interesses múltiplos, mas
pode ter o perfil que interessa aos diferentes segmentos.
Portanto, é importante que ela não se torne ingênua e docilizada, mas que
saiba perceber que o homem e a natureza não podem mais sofrer o problema da
ruptura, necessitando de uma retomada da idéia de ser humano e assumindo, como
afirma Morin (1977), a concepção de homem como conceito trinário indivíduo,
sociedade e espécie, no qual nenhum termo se pode reduzir ou subordinar ao
outro.
Esse quadro de complexidade da questão tem levado a educação a navegar sem
rumo na questão am-biental. Por outro lado, a própria educação tem carecido
de uma definição de sua abrangência, do que deseja alcançar, perdendo-se em
vocábulos que mais justificam sua importância do que definem sua ação.
Com isso, os educadores vestem-se de psicólogos, de biólogos, de conteudistas,
de políticos, fazendo um discurso denunciatório e exercendo uma práxis
autoritária. Tudo cabe na educação, como tudo parece caber na questão
ambiental, englobando fatos inteiramente diversos, que não devem ser reunidos
num mesmo vocábulo, sem perigo de confusão.
A educação, a partir das diferentes visões, concepções, abordagens ou tendências,
enquanto maneira de teorizar a prática, precisa estar atenta a duas questões básicas:
ser ao mesmo tempo una e múltipla.
Múltipla, no sentido de que existem tantas espécies de educação quantas
forem as diversidades culturais, uma vez que a cidade não é o campo, que as
famílias têm aspirações diferentes para seus filhos, que as comunidades têm
necessidades de vida diferentes, que a questão histórica do grupo faz com que
ele lute por objetivos próprios.
Portanto, a heterogeneidade precisa ser respeitada a partir de uma perspectiva
una que afaste as injustas desigualdades de acesso e de permanência.
Agindo assim, pode-se chegar ao ideal de educação de Durkheim, embora Freitag
(1980) alerte que esse autor não vê na educação um processo de
desenvolvimento e de superação de estruturas societárias arcaicas, mas apenas
a transmissão da bagagem de geração para geração, capaz de manter a
estrutura e o funcionamento de uma sociedade.
Não é possível deixar de considerar, também, que a educação é
extremamente dinâmica, como é dinâmica a sociedade, e, desse mo-do, transmite
os componentes essenciais da cultura. Educação passa, então, a conduzir o
indivíduo a um comportamento social, a se relacionar com outros, com a
natureza, e a integrar todos esses relacionamentos. E é na dimensão da
cultura, enquanto esfera que se produz entre os indivíduos, as pessoas, os
grupos e a sociedade, que a educação pode ir além da simples reprodução da
cultura, satisfazendo o que Durkheim (1975) denomina de necessidades sociais.
Nessa perspectiva de característica sociocultural, Linton (1972) defende como
indispensável a análise das relações entre personalidade e estrutura social,
uma vez que a cultura de qualquer sociedade determina os níveis mais profundos
da personalidade de seus membros, resultando em diferentes personalidades. A idéia
sobre o papel passivo do indivíduo e de como este é moldado por fatores
culturais e sociais precisa ser revista, uma vez que:
qualquer que seja o cuidado com que o indivíduo seja treinado e o grau de
perfeição de seu condicionamento, ele permanecerá um organismo distinto, com
necessidades próprias e capacitado para pensar, sentir e agir com independência,
retendo, ainda, um grau considerável de individualidade. (Linton, 1977, p.100)
A especificidade da Educação Ambiental traz o direito à vida como eixo
central da Educação, promovendo o fim da dicotomia homem-natureza, em um
processo crítico de busca da autonomia comunitária. Mas, como ignorar que numa
comunidade, cada indivíduo pertence, a uma pluralidade de grupos, possui uma
pluralidade de status, é sujeito a uma infinitude de modelos, vulnerável a
pressões contraditórias, a mensagens divergentes, em face às quais ele deve
desenvolver estratégias próprias de sobrevivência?
Como não se dar conta de que a cultura é determinada pela escolha das coisas
ensinadas e, ao mesmo tempo, determinante geradora das escolhas do ensino, numa
ambivalente “seleção cultural escolar” ?
Isto faz com que uma história social e cultural dos conteúdos e das estruturas
de ensino venha a demandar não somente uma função de socialização global em
face ao modelo cultural, como também uma função de especialização, com
vistas à aquisição de competências para papéis profissionais ou sociais.
A abordagem da problemática comunitária em face à realidade social, fluida e
multiforme, vai além de uma “pedagogia da per-tinência”, como lembra o
autor, remetendo aos ditames de uma es-colarização universal impostos pela
ordem política, ética, epis-temológica e pedagógica.
A transdisciplinaridade
Um núcleo comum de conteúdos pedagógicos e culturais é, hoje, fundamental
porque inse-parável da própria noção de cidadania. Não exclui, no entanto,
a existência de diferenças no interior da comunidade; ao contrário, é
justamente a partir daí que se torna possível dimensionar e respeitar o
pluralismo das diferenças. Longe de uma admissível regressão ao localismo, a
verdadeira compreensão do meio imediato passa pela mediação dos saberes mais
gerais e mais abstratos. Por que não admitir como Forquin que:
entre as crianças e adolescentes existe uma demanda “mítico-simbólica”
que não pode absolutamente ser satisfeita por uma pedagogia estreitamente
realista? Seu universo imaginário não se estrutura a partir da oposição
entre o próximo e o distante, o real e o irreal, mas em função de alguns
grandes esquemas narrativos de imagens-arquétipos, cujo poder de fascinação
resiste a todas as metamorfoses. (1993, p.189 )
O fato é que, apesar de uma notória dinâmica de conhecimento em pedagogia, não
se pode interpretar essa passagem de um “estado epistemológico” a outro
como uma simples passagem do “concreto ao abstrato”, mas antes a uma
passagem de um “concreto-vivido”, seguido de uma passagem do lúdico à lógica;
e, ainda, de uma passagem do mítico ao simbólico, do ethos à ética e da
estese à estética, como diz o autor.
Desse modo, como confinar aos estreitos limites de uma disciplina a Educação
Ambiental nas escolas, como problemática que goza do privilégio da eterna
vanguarda e que, muito antes de esbarrar na demanda quase elitista da qualidade
de vida, encerra o destino da própria sobrevivência humana? Isso sem falar que
usufrui de uma riqueza, porque, ao mesmo tempo que faz pensar a perpetuidade da
natureza, remete à transitividade do homem, e ainda soma o prestígio das
inter-faces de todos os campos do conhecimento.
Portanto, voltando a Guattari (1995), é preciso estar alerta quanto ao paradoxo
de um desenvolvimento contínuo de novos meios técnico-científicos
potencialmente capazes de resolver os problemas ecológicos e a incapacidade das
forças sociais organizadas e das formações constituídas de se apropriarem
desses meios para torná-los operativos. A saída, para esse autor, é a
recomposição das práticas sociais e individuais – a ecologia social, a
ecologia mental e a ecologia ambiental – sob o domínio mais amplo de uma
ecosofia.
Isso envolve a preocupação não apenas com o estabelecido, com o instituído e
com o patente no campo de estudo das abordagens macropolíticas, mas também com
o “lado sombra do social” (Maffesoli, 1984), do latente: ir além de ouvir o
“grande barulho social” e estar atento ao “ pequeno ruído”. ( Javeau,
1987)
A preocupação com essa lógica diferente, com a totalidade, permite não
desprezar as orientações da Conferência Mundial Intergover-namental sobre
Educação Ambien-tal, realizada em Tibilisi – União Soviética – em 1977,
no sentido de não ser introduzida nos programas educacionais como uma
disciplina separada, mas como uma dimensão que deva ser integrada a todos os
programas.
Esse alerta precisa ser lembrado para que não se limite o am-bientalismo à
biologia, à ciência, ou à geografia, mas que ele seja motivo de discussão,
contemplada nos programas escolares de todas as áreas do conhecimento. Afinal,
todas se dispõem a preparar o homem para viver em sociedade, para existir junto
com o outro e com a natureza.
O meio, segundo Morin (1977), é permanentemente constitutivo de todos os seres
que nele se alimentam e, portanto, ecodependentes, e estes seres só constroem
sua existência, sua autonomia, sua individualidade e a sua originalidade na
relação ecológica. A independência do ser vivo exige sua dependência em
relação ao meio. Os seres vivos transformam o meio; autoproduzindo-se,
alimentam e co-produzem seu ecossistema e, ao mesmo tempo, degradam-no com suas
poluições, dejecções, predações e depredações.
Esse modo de pensar a questão ecológica encontra em Baudrillard (1992) um nível
de ceticismo preocupante, em função de que esse autor adianta que a espécie
humana começa a produzir-se a si própria como detrito e que no momento que
luta por um direito de viver é porque já não tem a possibilidade de fazê-lo,
só o conseguindo através de uma caução ecológica. Lembra, também, que
quanto mais a espécie se reconcilia com a natureza, menos se reconcilia consigo
mesma, e que não é expurgando o mal que se liberta o bem, mas é no equilíbrio
do bem e do mal que está a saída.
Portanto, a educação tem seu duplo papel uno e múltiplo, preocupada com a
“cultura instrumental” e a “cultura expressiva”, no dizer de Bernstein
(1971). A primeira, ligada a atividades, métodos e julgamentos que implicam a
aquisição de competências específicas, particularmente aquelas que são
importantes com relação à profissão. A segunda compreende atividades, métodos
e julgamentos que implicam a transmissão de valores e das normas que dela
derivam, podendo trabalhar a questão ambiental emanada da rede imaginária, e
respondendo às necessidades, aos valores, às aspirações da qualidade de
vida, sem lutar contra o mal, mas lembrando que o que liga os seres vivos entre
si é algo mais do que uma solidariedade ecológica, biosférica. É, no dizer
de Baudrillard (1992), o equilíbrio homeostático, onde o homem é também um
escorpião, como os bororos são araras; entregue a si próprio num universo
expurgado, transforma-se em escorpião. (p.123)
Nesse sentido, importa reafirmar a preocupação em tratar a Educação
Ambiental numa dimensão que leve em conta os aspectos bio-psíquico e
sociocultural, valorizando o imaginário, enquanto fundamento sobre o qual se
constroem as concepções de homem, de mundo e de sociedade, dando conta da relação
indivíduo/sociedade e natureza/cultura, de modo a atingir um pensar global e um
atuar local. É necessário fazer surgir um tipo de educação capaz de ir além
da visão ecológica, que procura jogar a responsabilidade da ameaça à vida
fora do controle de cada um de nós e que ao mesmo tempo procura gerenciar a
crise, num sistema perverso que só gerencia a catástrofe quando ela se
encontra no limite máximo, não mudando nada, dando-nos apenas a sensação de
que algo está sendo feito, enquanto permanece tudo do mesmo modo.
http://www.editoradimensao.com.br/
Educação ambiental: ensaio para reorientação do cotidiano
Por Jaqueline B. Ramos*
A maior descoberta da reflexão e estudo sobre meio ambiente é que tudo (tudo mesmo) à sua volta, inclusive você, está dentro dele (ou é ele). Essa afirmação parece tão óbvia que corre o sério risco de chegar ao ponto de perder sua importância. Pode cair na armadilha de virar "papo de ecologista, aquele cara chato". E foi numa armadilha muito similar, mas cujas causas são assunto para outro artigo, que caiu e se enraizou o homem, a nossa cultura, o nosso costume "europizado" de considerar a natureza como fonte inesgotável de recursos. A lei da filosofia do capitalismo, que tem como principal regra o quanto mais melhor, não importam as consequências.
É nesse contexto gerador de desequilíbrios e desigualdades socioambientais que se enquadra a importância do que ousaria renomear de comunicação e educação ambiental. Longe de ser uma disciplina que ensine ecologia para estudantes de primeiro e segundo graus, a Educação Ambiental diz respeito a um grande ensaio para a reorientação do pensar e do agir no cotidiano. Para todos, professores e alunos. Consistiria na descoberta de novos e abertos modelos, onde em vez de professores formais que levam o conhecimento - haveriam orientadores que trocam experiências com os alunos. O principal instrumento seria a comunicação, a arte de falar, ouvir e trocar informações e experiências. A difícil arte de viver bem com o diferente.
Educação ambiental não é assunto para ser discutido somente por profissionais educadores, embora esses, com certeza, sejam importantes agentes no processo de reeducação para uma nova ética de relação com o cotidiano, com o mundo. É assunto para se refletir na família, com o vizinho, com os amigos, na empresa, na igreja, nos jornais, enfim, no cotidiano. Esse é o caminho que levará, na minha opinião a médio e longo prazo, a mudanças em costumes que precisam ser aprimorados, do contrário o planeta e os seres vivos não comportarão tamanhos excessos e desperdícios. É comprovado, demonstrado e vivido tanto científico como filosoficamente.
Uma nova ética de relação com o mundo, que é construída a partir de uma percepção mais apurada do ambiente em que se vive, é a base de funcionamento e aplicabilidade da Educação Ambiental. As sensações geradas por esse estilo mais flexível e democrático de educação podem levar a pensamentos muito mais práticos do que temos hoje na área ambiental. Percebendo e respeitando o ambiente, seu funcionamento e seus agentes, o diagnóstico de problemas a serem sanados e suas possíveis soluções são mais facilmente alcançadas. Ou seja, a Educação Ambiental, a meu ver, proporciona um pensamento mais ligado à ação e à prática, oferecendo como resultado, a curto, médio ou longo prazo, variando de caso a caso, a efetiva melhoria da qualidade de vida. Vale lembrar que falar em meio ambiente é, antes de tudo, falar sobre melhoria da qualidade de vida.
Um parágrafo do texto da pedagoga Marlene Osowski Curtis, no livro "Verde Cotidiano", é muito simples e inteligente e acredito que pode se aplicar a qualquer profissional, professor ou não, que está ciente dessa necessidade de mudanças e de busca de novos conceitos na arte de educar: "Para construir uma escola que prepare o indivíduo para a vida, os professores devem sempre procurar horizontes mais amplos. Daí a necessidade de se soltarem, desprenderem-se da rotina escolar e das obrigações que às vezes sufocam o processo educativo". A consciência e o entedimento dessa idéia, o que pode ser difícil, mas não é impossível, é o primeiro passo para entrarmos na longa estrada da comunicação e educação ambiental.
Jaqueline B. Ramos é jornalista de meio ambiente, presta assessoria técnica à Ciclos Consultoria Ambiental email: <jaquelinebr@bol.com.br>
http://www.ujgoias.com.br/redecta03/03027000/03027000091.htm
WWW.AGRORGANICA.COM.BR
Integre-se ao Agrorganica e trabalhe por uma nova agricultura, mais saudável e auto-sustentável - Reenvie estas mensagens - Divulgue - Fixe em murais - Escreva-nos !!!
APROVEITE O ESTERCO E FAÇA UM ADUBO FOLIAR = BIOFERTILIZANTE
Como adubo foliar e para aumentar a resistência contra pragas e moléstias. A calda biofertilizante vem sendo muito empregada ultimamente na agricultura ecológica. A razão é que tem demonstrado efeito no aumento da resistência ás pragas e moléstias e como adubo foliar orgânico benéfico para inúmeras plantas. 0 processo de produção é bastante simples, sendo viável sua produção na propriedade, desde que tenha esterco de gado disponível. Não há contra-indicação ao seu uso
RECEITA: Numa lata de 20 litros, colocar meia lata (10 litros) de esterco de curral curtido, esterco de galinha em torno de 250 gramas e 250 gramas de açucar (cristalizado ou refinado). Completar com água, deixando um espaço de 8 a 10 centímetros antes da borda acima, para evitar transbordar. Fechar muito bem a boca da lata, vedando com um saco plástico bem amarrado. Deixar 5 dias bem fechado. (fermentação anaeróbica). A calda pronta deve ser diluída, misturando 1,0 litro da calda obtida para cada 10 litros de água. Obs. É fácil preparar um biofertilizante, assim como compostos orgânicos. Veja o depoimento de um participante de nossos Cursos de Adubação Orgânica,na Unicamp. Caso não possa participar, temos a apostila prática do curso.Ao Eng. Agr. Silvio R. PenteadoGostaria de lhe informar que estou produzindo adubo composto orgânico, breve teremos prontas as primeiras produções.Já utilizo o adubo orgânico foliar (biofertilizante) com bons resultados.Um abraço.Itagyba de Oliveira
MEIO AMBIENTE – Carta da Terra
Primeiro
Encontro Internacional - São Paulo, 23 a 26 de agosto de 1999
Organização: Instituto Paulo Freire - Apoio: Conselho da Terra e
UNESCO-Brasil
CARTA DA ECOPEDAGOGIA
Em defesa de uma pedagogia da Terra
(Minuta de discussão do Movimento pela Ecopedagogia)
1.
Nossa Mãe Terra é um organismo vivo e em evolução. O que for feito a ela
repercutirá em todos os seus filhos. Ela requer de nós uma consciência e
uma cidadania planetárias, isto é, o reconhecimento de que somos parte da
Terra e de que podemos perecer com a sua destruição ou podemos viver com ela
em harmonia, participando do seu devir.
2. A mudança do paradigma
economicista é condição necessária para estabelecer um desenvolvimento com
justiça e eqüidade. Para ser sustentável, o desenvolvimento precisa ser
economicamente factível, ecologicamente apropriado, socialmente justo,
includente, culturalmente eqüitativo, respeitoso e sem discriminação. O
bem-estar não pode ser só social; deve ser também sócio-cósmico.
3. A sustentabilidade econômica e
a preservação do meio ambiente dependem também de uma consciência ecológica
e esta da educação. A sustentatibilidade deve ser um princípio
interdisciplinar reorientador da educação, do planejamento escolar, dos
sistemas de ensino e dos projetos político-pedagógicos da escola. Os
objetivos e conteúdos curriculares devem ser significativos para o(a)
educando(a) e também para a saúde do planeta.
4. A ecopedagogia, fundada na
consciência de que pertencemos a uma única comunidade da vida, desenvolve a
solidariedade e a cidadania planetárias. A cidadania planetária supõe o
reconhecimento e a prática da planetaridade, isto é, tratar o planeta como
um ser vivo e inteligente. A planetaridade deve levar-nos a sentir e viver
nossa cotidianidade em conexão com o universo e em relação harmônica
consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza, considerando seus
elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável
e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com o ambiente
mais próximo e com os demais ambientes.
5. A partir da problemática
ambiental vivida cotidianamente pelas pessoas nos grupos e espaços de convivência
e na busca humana da felicidade, processa-se a consciência ecológica e
opera-se a mudança de mentalidade. A vida cotidiana é o lugar do sentido da
pedagogia pois a condição humana passa inexoravelmente por ela. A
ecopedagogia implica numa mudança radical de mentalidade em relação à
qualidade de vida e ao meio ambiente, que está diretamente ligada ao tipo de
convivência que mantemos com nós mesmos, com os outros e com a natureza.
6. A ecopedagogia não se dirige
apenas aos educadores, mas a todos os cidadãos do planeta. Ela está ligada
ao projeto utópico de mudança nas relações humanas, sociais e ambientais,
promovendo a educação sustentável (ecoeducação) e ambiental com base no
pensamento crítico e inovador, em seus modos formal, não formal e informal,
tendo como propósito a formação de cidadãos com consciência local e
planetária que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das nações.
7. As exigências da sociedade
planetária devem ser trabalhadas pedagogicamente a partir da vida cotidiana,
da subjetividade, isto é, a partir das necessidades e interesses das pessoas.
Educar para a cidadania planetária supõe o desenvolvimento de novas
capacidades, tais como: sentir, intuir, vibrar emocionalmente; imaginar,
inventar, criar e recriar; relacionar e inter-conectar-se, auto-organizar-se;
informar-se, comunicar-se, expressar-se; localizar, processar e utilizar a
imensa informação da aldeia global; buscar causas e prever conseqüências;
criticar, avaliar, sistematizar e tomar decisões. Essas capacidades devem
levar as pessoas a pensar e agir processualmente, em totalidade e
transdisciplinarmente.
8. A ecopedagogia tem por
finalidade reeducar o olhar das pessoas, isto é, desenvolver a atitude de
observar e evitar a presença de agressões ao meio ambiente e aos viventes e
o desperdício, a poluição sonora, visual, a poluição da água e do ar
etc. para intervir no mundo no sentido de reeducar o habitante do planeta e
reverter a cultura do descartável. Experiências cotidianas aparentemente
insignificantes, como uma corrente de ar, um sopro de respiração, a água da
manhã na face, fundamentam as relações consigo mesmo e com o mundo. A
tomada de consciência dessa realidade é profundamente formadora. O meio
ambiente forma tanto quanto ele é formado ou deformado. Precisamos de uma
ecoformação para recuperarmos a consciência dessas experiências
cotidianas. Na ânsia de dominar o mundo, elas correm o risco de desaparecer
do nosso campo de consciência, se a relação que nos liga a ele for apenas
uma relação de uso.
9. Uma educação para a cidadania
planetária tem por finalidade a construção de uma cultura da
sustentabilidade, isto é, uma biocultura, uma cultura da vida, da convivência
harmônica entre os seres humanos e entre estes e a natureza. A cultura da
sustentabilidade deve nos levar a saber selecionar o que é realmente sustentável
em nossas vidas, em contato com a vida dos outros. Só assim seremos cúmplices
nos processos de promoção da vida e caminharemos com sentido. Caminhar com
sentido significa dar sentido ao que fazemos, compartilhar sentidos, impregnar
de sentido as práticas da vida cotidiana e compreender o sem sentido de
muitas outras práticas que aberta ou solapadamente tratam de impor-se e
sobrepor-se a nossas vidas cotidianamente.
10. A ecopedagogia propõe uma nova
forma de governabilidade diante da ingovernabilidade do gigantismo dos
sistemas de ensino, propondo a descentralização e uma racionalidade baseadas
na ação comunicativa, na gestão democrática, na autonomia, na participação,
na ética e na diversidade cultural. Entendida dessa forma, a ecopedagogia se
apresenta como uma nova pedagogia dos direitos que associa direitos humanos -
econômicos, culturais, políticos e ambientais - e direitos planetários,
impulsionando o resgate da cultura e da sabedoria popular. Ela desenvolve a
capacidade de deslumbramento e de reverência diante da complexidade do mundo
e a vinculação amorosa com a Terra.
http://www.amazonialegal.com.br/AmazoniaLegal/textos/Meio_Ambiente_Carta_da_terra.htm
Desafios
escolares para a avaliação
Maria Teresa Esteban
As conversas
entre professoras são momentos significativos para reflexão sobre o trabalho
pedagógico, para compartilhar saberes e para construir novas possibilidades de
leitura da ação escolar. Neste artigo vou tomar um fragmento da fala de Amine,
professora de educação infantil numa escola pública, para discutir a avaliação
como um dos fios que costuram o processo ensino/aprendizagem.
Dialogo com Amine, percorrendo as dobras de seu discurso, e nelas busco pistas
da relação existente entre a concepção de avaliação que as professoras
possuem e a definição dos limites de sua atuação, especialmente no que diz
respeito ao significado do trabalho pedagógico num contexto de interação com
a realidade extra-escolar.
Narrando um episódio
Amine trabalha numa escola rural. Diariamente se desloca duas horas em ônibus
para chegar à escola. Entre o centro da cidade e sua escola, que é a última
do trajeto feito por esse ônibus, estão algumas outras escolas e todas as
professoras que trabalham nelas têm que tomar o mesmo ônibus. Cruzam diversos
bairros e, por se tratar de uma área rural, o ônibus é um importante elemento
de contato entre as pessoas e destas com a zona urbana.
O ônibus também é um espaço de interação para as professoras. Quando se
encontram ali conversam sobre suas casas, namorados, maridos e filhos;
compartilham novidades e problemas; falam de suas escolas, dos alunos, das
atividades que desenvolvem, de suas dificuldades, de suas descobertas; trocam
exemplos de exercícios e planejam atividades; trocam receitas para a cozinha e
para a aula. É uma reunião diária (pedagógica?) a que ninguém costuma