InformaLista

O Informativo da lista “Educação Ambiental”

No. 16 – 29 de agosto de 2001

Alguns textos apresentados na Lista de Discussão do Projeto Apoema - Educação Ambiental (Antigo Projeto Vida – Educação Ambiental)

Os textos não passaram por revisão ortográfica, portanto, podem haver erros.


Você sabe porque comemora-se o dia do meio ambiente no dia 5 de junho?

 

A data é comemorada desde 1973. Ela foi escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) porque, em 5 de junho de 1972, teve início a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo. A data tomou um novo impulso depois da realização da Eco-92, no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, os representantes dos países reunidos em conferência estabeleceram as bases para a Agenda 21, que colocou no papel parâmetros para o desenvolvimento sustentável.         

http://www.agirazul.com.br/upan/cultura.htm#A%20data

 


Músicas:

TERRA, PLANETA ÁGUA

(Guilherme Arantes)

 

Água que nasce na fonte serena do mundo

E que abre o profundo grotão

Água que faz inocente riacho e deságua

Na corrente do ribeirão

Águas escuras dos rios

Que levam a fertilidade ao sertão

Águas que banham aldeias

E matam a sede da população

Águas que caem das pedras

No véu das cascatas ronco de trovão

E depois dormem tranqüilas

No leito dos lagos, no leito dos lagos

Água dos igarapés onde Iara mãe d'água

É misteriosa canção

Água que o sol evapora

pro céu vai embora

Virar nuvens de algodão

Gotas de água da chuva

Alegre arco-íris sobre a plantação

Gotas de água da chuva

Tão tristes são lágrimas na inundação

Águas que movem moinhos

São as mesmas águas

Que encharcam o chão

E sempre voltam humildes

Pro fundo da terra, pro fundo da terra

Terra planeta água... terra planeta água

Terra planeta água

 

O SAL DA TERRA

(Beto Guedes)

Anda,

quero te dizer nenhum segredo,

falo neste chão da nossa casa.

Vem que tá na hora de arrumar.

Tempo,

quero viver mais duzentos anos,

quero não ferir meu semelhante

nem quero me ferir.

Vamos precisar de todo mundo

pra banir do mundo a opressão,

para construir a vida nova

vamos precisar de muito amor.

A felicidade mora ao lado

e quem não é tolo pode ver.

A paz na Terra amor,

o pé na terra,

a paz na terra amor

o sal da Terra.

És o mais bonito dos planetas

tão te maltratando por dinheiro,

tu que és a nave, nossa irmã.

Canta,

leva tua vida em harmonia

e nos alimenta com seus frutos,

tu que és do homem a maçã.

Vamos precisar de todo mundo,

um mais um é sempre mais que dois,

pra melhor juntar as nossas forças

é só repartir melhor o pão.

É criar um Paraíso agora

para merecer quem vem depois.

Deixa nascer o amor,

deixa fluir o amor.

Deixa crescer o amor,

deixa viver o amor.

O sal da Terra.


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ENERGIA EÓLICA

O ELO PERDIDO NO PROGRAMA ENERGÉTICO DE BUSH

Lester R. Brown

O programa energético de Bush, tão ansiosamente aguardado, publicado no dia 17 de maio de 2001, provocou grande desapontamento por ter ignorado em grande parte sua contribuição potencial para o aumento da eficiência energética. Também ignorou o gigantesco potencial da energia eólica, que provavelmente representará um acréscimo maior à capacidade de geração dos Estados Unidos do que o carvão.

Em suma, ao elaborar um programa energético mais adequado para o início do século XX do que do século XXI, os autores do programa parecem não acompanhar o que está acontecendo na economia energética mundial. Enfatizam o papel do carvão, embora o consumo mundial tenha atingido o pico em 1996 e declinado desde então cerca de 11 porcento, à medida que os países dão as costas a este combustível destruidor do meio-ambiente. Até a China, que se iguala aos Estados Unidos na queima do carvão, reduziu seu consumo em 24 porcento desde 1996.

Enquanto isso, o consumo mundial de energia eólica quase quadruplicou nos últimos cinco anos, uma taxa de crescimento comparável apenas à da indústria da informática. Nos Estados Unidos, a Associação Americana de Energia Eólica prevê um crescimento surpreendente de 60 porcento na capacidade de geração de energia eólica neste ano.

A energia eólica originalmente estava restrita à Califórnia, porém ao longo dos últimos três anos, fazendas eólicas implantadas em Minnesota, Iowa, Texas, Colorado, Wyoming, Oregon e Pensilvânia incrementaram a capacidade norte-americana de 1.680 para 2.550 megawatts. Os 1.500 ou mais megawatts a serem adicionados este ano estarão localizados em uma dúzia de estados. Uma fazenda eólica de 300 megawatts, em construção na divisa dos estados de Oregon e Washington, é atualmente a maior do mundo.

E isto é apenas o começo. A BPA (Administração de Energia Bonneville) anunciou em fevereiro que deseja adquirir 1.000 megawatts de capacidade de geração eólica e solicitou o envio de propostas. Para sua surpresa, recebeu propostas suficientes para uma capacidade geradora de 2.600 megawatts em cinco estados, com potencial de expansão para mais de 4.000 megawatts. A BPA, que poderá aceitar a maioria destas propostas, espera já estar em atividade até o final deste ano.

Uma fazenda eólica de 3.000 megawatts, em fase inicial de planejamento no Dakota do Sul, próximo à divisa de Iowa, é dez vezes o tamanho da fazenda eólica na divisa Oregon/Washington. Denominado de Rolling Thunder [Trovão Ressonante], este projeto inciado pela Dehlsen Associates e sob a liderança de Jim Dehlsen, pioneiro da energia eólica na Califórnia, destina-se a fornecer energia à região centro-oeste em torno de Chicago. Este não é apenas um grande projeto em termos eólicos, e sim um dos maiores projetos de energia em todo o mundo. Avanços na tecnologia de turbinas eólicas, derivados da indústria aeroespacial, reduziram o custo da energia eólica de 38 centavos de dólar por quilowatt/hora no início da década de 80, para 3 a 6 centavos hoje, dependendo do local. O vento, competindo hoje com os combustíveis fósseis, já é mais barato em alguns locais do que a energia gerada por petróleo ou gás. Com as grandes corporações, como ABB, Shell International e Enron, investindo nesta área, hái perspectivas para reduções de custo ainda maiores.

O vento é uma imensa fonte mundial de energia. A região de Great Plains nos Estados Unidos é a Arábia Saudita da energia eólica. Três estados eolicamente ricos - Dakota do Norte, Kansas e Texas - têm vento suficiente para atender à demanda nacional de eletricidade. A China poderá duplicar sua capacidade geradora atual apenas com o vento. A Europa Ocidental, com alta densidade populacional, poderá suprir todas suas necessidades elétricas com energia eólica offshore.

Hoje, a Dinamarca, líder mundial em tecnologia e manufatura de turbinas eólicas, obtém 15 porcento de sua eletricidade da energia eólica. Schleswig-Holstein, o estado mais ao norte na Alemanha, obtém 19 porcento e em outras partes, 75 porcento. O estado industrial de Navarra, na Espanha, que partiu do zero seis anos atrás, obtém 24 porcento de sua eletricidade do vento.

À medida que caem os custos de geração eólica e crescem as preocupações quanto à mudança climática, mais e mais países estão se voltando para a energia eólica. Em dezembro a França anunciou o desenvolvimento de 5.000 megawatts de energia eólica até 2010. Também em dezembro, a Argentina anunciou um projeto para o desenvolvimento de 3.000 megawatts de energia eólica na Patagonia, até 2010. Em abril, o Reino Unido abriu licitação para 1.500 megawatts de energia eólica offshore. Em maio, um relatório de Beijing revelou que a China pretende desenvolver cerca de 2.500 megawatts de energia eólica até 2005.

O crescimento da energia eólica consistentemente ultrapassa estimativas anteriores. A Associação Européia de Energia Eólica, que em 1996 havia estabelecido uma meta de 40.000 megawatts para a Europa, até 2010, elevou recentemente esta estimativa para 60.000 megawatts. O programa de Bush, de adicionar 393.000 megawatts de eletricidade em todo o país, até 2020, poderia ser atendido apenas com o vento. Recursos aplicados na eletricidade eólica tendem a permanecer na comunidade, proporcionando renda, emprego e receita fiscal, incrementando economias locais. Uma grande turbina eólica de desenho avançado, ocupando um quarto de acre de terra, poderá facilmente render ao fazendeiro ou pecuarista US$ 2.000 em royalties por ano e, ao mesmo tempo, proporcionar à comunidade US$ 100.000 de eletricidade. Agricultores e pecuaristas norte-americanos, que possuem a maioria dos direitos eólicos no país, se juntam hoje aos ambientalistas no lobby para o desenvolvimento desta abundante alternativa aos combustíveis fósseis.

Ao obter eletricidade barata do vento, poderemos utilizá-la para eletrolisar a água, produzindo hidrogênio. O hidrogênio é o combustível ideal para o novo motor de célula de combustível de alta eficiência, que a maior parte da indústria automotiva desenvolve hoje. A Daimler Chrysler planeja lançar no mercado em 2003, automóveis movidos a célula de combustível. Ford, Toyota e Honda provavelmente virão logo atrás. William Ford, Presidente da Ford Motor Company, declarou que espera presidir ao funeral do motor de combustão interna.

A energia eólica excedente pode ser estocada como hidrogênio e utilizada em turbinas a células de combustível ou gás para gerar eletricidade, equilibrando o suprimento quando os ventos variarem. O vento, outrora considerado a pedra angular da nova economia energética, poderá se transformar em seu alicerce. O meteorologista eólico que analiza regimes de vento e identifica os melhores locais para fazendas eólicas, desempenhará um papel na nova economia eólica comparável ao do geólogo do petróleo na velha economia energética.

Com o avanço das tecnologias de controle do vento e desenvolvimento de veículos movidos a hidrogênio, podemos hoje antever um futuro onde agricultores e pecuaristas poderão não apenas suprir a maior parte da eletricidade do país, como também a maior parte do hidrogênio para alimentar sua frota de automóveis. Pela primeira vez, os Estados Unidos têm a tecnologia e recursos para se divorciar do petróleo do Oriente Médio.

Além de negligenciar o potencial eólico, a estratégia energética de Bush despreza a estabilização climática. Esta é uma estratégia de alto risco. Com a situação corrente, o Painel Internacional sobre Mudança Climática projetou, recentemente, um aumento da temperatura global durante este século de até 6 graus Centígrados. Caso este aumento ocorra, o resto do mundo poderá responsabilizar os Estados Unidos, líder em emissão de CO2. O que os Estados Unidos precisa agora é de um projeto energético para este século, um que leve em consideração não apenas os recentes avanços tecnológicos da energia eólica, células de combustível e geradores a hidrogênio, mas também a necessidade de estabilização do clima. Talvez o Congresso introduza o projeto energético no século XXI e resgate a liderança norte-americana na economia energética mundial, em acelerada transformação.

Lester Brown é fundador do WWI-Worldwatch Institute e do EPI-Earth Policy Institute.

© Copyright WWI-EPI / UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica 2001, todos os direitos reservados.

Autorizada a reprodução total ou parcial, citando a fonte e o site www.wwiuma.org.br


FINITUDE

( trecho de uma crônica de Martha Medeiros)

... Finitude eu sinto quando me dou conta da existência de milhões de pessoas que jamais irei conhecer, com as quais jamais irei conversar e interagir. De todas as que poderiam me ensinar a ser mais tolerante, de todas as que poderiam me fazer rir, de todas as que eu poderia amar ou desprezar, sofrer por elas, esforçar-me por elas, crescer através delas. Finitude eu sinto quando cruzo um olhar que não ficará nem na memória, pois não há tempo para lembranças efêmeras.

... um ser humano é o que há de mais rico*. Uma vida é o que há de mais original. Surgem e nos atropelam tantas vidas, tantas pessoas para sempre inacessíveis, desperdiçadas em seu talento, em seu potencial transformador, em sua capacidade de nos emocionar. A esmagadora maioria delas passa e não fica, são fleshes do olhar.

Agarremo-nos, pois, às que ficam, permanecem, são reconhecíveis pelo nome e pelo trajeto percorrido em nós. Aproveitemos o material humano de que dispomos: família, amigos e amores. Escassos, raros e profundamente necessários.

* nota da Biba: neste texto, interpreto "um ser humano" como a representação de qualquer forma de vida, pois não atribuo somente à nossa espécie a capacidade de interagir, emocionar e acrescentar à nossa existência.

(Em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente, da Biba)


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Sustentabilidade: dimensão apagada da crise energética

No calor do debate sobre a crise de energia, prolifera uma gama variada de possíveis soluções: desde programas de racionamento até a diversificação da matriz energética, esta última variando de energia nuclear de alto risco até propostas alternativas reivindicadas há décadas pelos ambientalistas. Diante do caldeirão fervilhante de idéias, falta contudo uma perspectiva sustentabilista para o modelo energético do país, do ponto de vista dos aspectos naturais, econômicos e sociais. É necessário, pois, questionar o imediatismo de algumas medidas e ao mesmo tempo chamar atenção para a urgência de uma visão para o futuro.

A aceleração do licenciamento ambiental é uma medida irresponsável

Num contexto de pânico, o governo aposta na expansão generalizada da oferta de energia, tomando para isso uma medida preocupante: a aceleração dos processos de licenciamento ambiental para a construção de usinas.

O artigo 8 da Medida Provisória No. 2.147, de 15 de maio 2001 estabelece um prazo de seis meses para o licenciamento ambiental de usinas hidrelétricas e quatro meses para gasodutos, oleodutos e usinas termelétricas. Esses prazos tornam impossível a elaboração qualificada de estudos ambientais, os quais devem, entre outros fatores, observar os ritmos da natureza impostos pelas estações do ano (mesmo no caso de empreendimentos classificados genericamente pela MP como de "impacto ambiental de pequeno porte"). A aceleração do licenciamento inviabiliza ainda uma avaliação correta e serena pelos órgãos competentes, já sobrecarregados pela corrida desenfreada de construtores de usinas desde a privatização do setor energético. Por último, a medida impedirá a justa participação das populações atingidas pelos empreendimentos. Os resultados serão projetos malfeitos, com danos ao meio ambiente e às populações afetadas. Assim, a simplificação do licenciamento ambiental é uma medida irresponsável que abusa da crise, engana a população e não resolve o problema.

Diversificação da matriz energética

A crise foi deflagrada pela falta de água nos reservatórios. Isso demonstra a fraqueza do sistema elétrico como um todo, eterno refém dos índices pluviométricos, pois depende em 97% de fontes hidroeléctricas. Surpreende, portanto, que as propostas do governo destaquem a necessidade de instalação de novas hidrelétricas.

Uma política mais racional recomenda a diversificação dos sistemas de produção de energia. Isso não significa, contudo, investimentos em quaisquer fontes de energia. Usinas nucleares e termelétricas que dependem de óleo e carvão, por exemplo, trazem riscos enormes para a população e para o meio ambiente. O gás natural pode ser uma opção menos predatória. Entretanto, como recurso não-renovável e emissor de gases de efeito estufa, deve ser explorado com parcimônia. Neste sentido, a consequência mais sustentável da crise deveria ser uma proposta de complementação do sistema hidrelétrico existente através de investimentos em energias alternativas. A fonte obviamente abundante no País é de energia solar, funcionando em qualquer época do ano. Ela é ideal para as zonas rurais, e se complementada por outras fontes descentralizadas, como a biomassa produzida na agricultura, por exemplo, evitaria as perdas significativas de energia ocorridas atualmente pelas extensas linhas de transmissão.

Uma nova política energética deve, sobretudo, reconhecer que o 'desenvolvimento econômico' não decorre necessariamente da disponibilidade ilimitada de energia, mas sim do seu uso racional. A eficiência energética deve ser uma meta incluída em cada nova obra, principalmente na indústria, incluindo aí a eficiência das próprias usinas elétricas. Estimativas do prof. Célio Bermann (Programa de Pós-Graduação em Energia/USP) mostram que medidas como a modernização de usinas antigas, a redução das perdas no sistema elétrico e a co-geração a partir da biomassa (bagaço de cana, por exemplo) podem aumentar a produção de energia no Brasil em 18 mil MW! Isso equivale a uma usina bem maior que a de Itaipu (12,6 mil MW).

Da geração à gestão de energia: eficiência com suficiência

A crise atual é também resultado da negligência em programas antidesperdícios. Com a privatização, o setor elétrico passa a visar o lucro advindo justamente do consumo de energia, contrariando uma política antidesperdício. Os investimentos no PROCEL (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica) cairam pela metade nos últimos dois anos, enquanto a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) permitiu que as concessionárias usassem recursos dos programas antidesperdício para melhoria de suas próprias instalações. Dos R$446 milhões destinados aos programas antidesperdicio, R$297 milhões, ou seja, dois terços do total, serviram para incrementar os lucros das próprias concessionárias. Com a crise, o consumidor não só deixou de receber os subsídios, como também será punido caso não economize.

Por outro lado, os consumidores já demonstraram uma enorme capacidade para economizar luz. Nos dois primeiros dias do anúncio do racionamento, a cidade de São Paulo conseguiu reduzir em até 11% o uso de energia. Registrou-se, ainda, um aumento da demanda por produtos elétricos mais eficientes. Assim, a ameaça dos apagões tem estimulado a procura pelas causas do desperdício. Uma política do setor elétrico deveria capitalizar o momento, elaborando estratégias a longo prazo para todos os segmentos da sociedade. Cria-se, também, um novo mercado. Em vez de visar apenas os lucros através da venda de energia, uma empresa moderna do setor elétrico deveria aproveitar a demanda por informações para oferecer serviços que ensinem o uso eficiente de energia pelos consumidores, sobretudo os industriais, comerciais e públicos. Neste caso, todos sairiam ganhando: a distribuidora, que pode lucrar com a oferta dos serviços, e o consumidor que pouparia energia e, assim, dinheiro.

O investimento nos programas para os consumidores pode melhorar significativamente o uso de energia. A partir de um exemplo hipotético, poderíamos pensar que se o governo de Minas Gerais deixasse de liberar os R$80 milhões destinados para a construção da usina de Irapé e investisse o mesmo montante na distribuição de lâmpadas econômicas para a população, é provável que economizasse energia e recursos públicos, além de evitar danos ao meio ambiente e às populações afetadas pelo empreendimento. Numa estimativa apenas matemática, a substituição de 6,4 milhões de lâmpadas incandescendes de 60 W pelas elétricas de 13 W (a R$12,50 por unidade) poderia significar, em princípio, uma redução de 384 MW para 84 MW potência de consumo, sobretudo no horário de pico. Com isso, é possível pensar que a instalação de 300 MW na geração seja desnecessária. O custo total previsto para a barragem de Irapé é de R$500 milhões, e isso apenas para instalar uma capacidade de até 320 MW! A partir do exemplo, imaginamos o potencial de economia de energia na demanda, com a construção de chuveiros a base de energia solar até as instalações industriais mais eficientes.

Concluindo, a despeito das falhas técnicas e políticas no sistema elétrico brasileiro, a crise atual evidencia um pensamento equivocado no bojo da política energética: mais energia gera mais desenvolvimento. Ao aceitarmos tal premissa, corremos o risco de sermos eternos reféns de crises sucessivas (como as crises de 1984 a 1986, e recentemente em 1997), pois precisaremos aumentar sempre a capacidade de geração através da construção de novas usinas até que o último vale seja inundado, cada vez mais pessoas sejam deslocadas, o ar seja mais poluído, a biodiversidade desapareça, etc. Medidas imediatistas não resolverão o problema fundamental do setor elétrico. O desenvolvimento só pode ser assegurado por um modelo energético sustentável a médio e longo prazos. A própria crise revela um enorme potencial para outros caminhos: como a diversificação das fontes de energia, atentando para aquelas ecológica e economicamente viáveis (solar, eólica, biomassa, etc), a promoção da revolução da eficiência no setor produtivo, assim como a necessária educação ambiental para toda a sociedade!

Andréa Zhouri (Profa. do Mestrado em Sociologia da UFMG)

Klemens Laschefski (Doutorando em geografia pela Universidade de Heidelberg,Alemanha)


Recebi e repasso

De: "Romeu Mattos Leite" <romeu@yamaguishi.com.br>

Assunto: A Mata reage

A mata reage

[ 05.Jun.2001 ]

Quem acha que o Brasil está virando de cabeça para baixo agora tem um consolo. Enquanto lá em cima a Amazônia perde uma Bélgica de árvores por ano, lá embaixo o Rio Grande do Sul triplicou suas matas nativas em duas décadas. Tinha 15.857 quilômetros quadrados de florestas em 1983. Hoje tem 49.556. Não é nada, não é nada, são quase duas Bélgicas.

Palavra da Universidade Federal de Santa Maria, que empenhou 154 professores, alunos e técnicos na apuração do Inventário Florestal Contínuo. Ele acaba de sair do forno e é coisa séria. Partiu do mapeamento de todas as manchas verdes do Estado, com base em imagens do satélite americano Landsat.

Cada ponto que ele assinalou foi visitado pelos pesquisadores, que anotavam as características da mata e a classificavam. Custou à equipe três anos de esforço e R$ 1 milhão ao governo gaúcho. A grande notícia, porém, veio de graça.

Daqui para a frente, as informações do inventário podem ajudar o Rio Grande do Sul a formular uma política de uso e exploração de suas matas. Mas até agora seu reflorestamento não foi obra de administradores iluminados.

Segundo o engenheiro florestal Doádi Antônio Brena, professor da UFSM e coordenador do trabalho, as árvores avançaram sobre o território gaúcho com incentivos fortuitos, como a mecanização da agricultura. Com a chegada das máquinas ao campo, os terrenos mais íngremes deixaram de ser cultivados e a mata os retomou. Outros fatores são a conscientização dos donos das terras e a fiscalização das leis ambientais pelo Ministério Público.

Em 1983, pouco mais de 5% do território gaúcho tinha florestas naturais. Os dados do Inventário mostram que esse índice chegou aos 17%. "Ainda estamos muito longe dos 40% que existiam originalmente, mas há duas décadas a situação era muito pior, estávamos no fundo do poço nesse aspecto. O nosso ideal é fazer voltar a esse patamar", disse Brena a Tito Montenegro, de no.. Para isso, não é preciso qualquer providência mirabolante. Basta banir as queimadas e impedir o corte indiscriminado das matas. Sem ninguém atrapalhar, a natureza ajuda. "Quando uma área que foi floresta deixa de ser explorada, começa imediatamente um processo de regeneração", diz Brena. Em muitos casos, até o vento se encarrega de inseminá-la com espécies de matas vizinhas.

À luz do apagão, Brena lembra também que um bom motivo de festejar a volta das florestas é que, sem elas, acaba-se matando de sede as usinas geradoras de energia elétrica. São as árvores que regulam a absorção das chuvas pela terra, mantendo os cursos d´água, de uma estação para a outra, em níveis mais próximos da média anual. Portanto, com menos secas e menos enxurradas.

"As matas são capazes de dar harmonia a esses rios", diz Brena. Fora, é claro, o que fazem pela paisagem.

Verificar os efeitos do reflorestamento sobre o regime dos rios gaúchos está, aliás, na mira dos próximos inventários. Daqui para a frente, um novo levantamento do gênero será divulgado a cada cinco anos, sempre com informações adicionais sobre o impacto das matas no ambiente. Brena espera que, no lançamento das próximas edições, não haja mais queimadas no estado.

Afinal, como ele diz, "o Rio Grande do Sul tem sido pioneiro. Foi um dos primeiros estados a desmatar. Agora, é o primeiro a fazer o caminho inverso."


(Fonte: O Estado de S. Paulo, Geral, segunda-feira, 04 de

junho de 2001,

http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2001/06/04/ger574.html )

Nasa vai plantar transgênicos em Marte

Mostarda com gene de água-viva será usada em estudos sobre o ambiente marciano

Nem homenzinhos verdes, nem seres humanos. Os primeiros habitantes de Marte poderão ser plantas luminescentes de mostarda geneticamente modificadas.

Pesquisadores da Nasa e da Universidade da Flórida estão desenvolvendo mudas transgênicas de Arabidopsis thaliana contendo um gene de água-viva que emite uma luz verde na presença de condições adversas.

A idéia é colocar as plantas em solo marciano dentro de uma pequena estufa automatizada e de ambiente controlado, montada por um robô móvel desenvolvido especialmente para a missão. O crescimento das mudas seria monitorado da Terra por câmeras na estufa, sem a necessidade da presença de seres humanos em solo extraterrestre.

As plantas serão geneticamente programadas para brilhar quando encontrarem condições hostis - como falta de oxigênio, água ou nutrientes, temperaturas altas e exposição a raios ultravioletas -, permitindo que os cientistas acompanhem visualmente seu desenvolvimento. "Assim como seres humanos, as plantas precisam se adaptar a novos ambientes", explica o pesquisador Rob Ferl, da Universidade da Flórida, em nota divulgada pela Nasa. "Estamos usando a engenharia genética para criar plantas que podem nos passar informações sobre como ajudá-las a sobreviver."

A luminescência não facilita a adaptação dos vegetais, apenas serve como um indicador de saúde. "Podemos saber não apenas se a planta está sobrevivendo, mas se está enfrentando dificuldades e desenvolvendo defesas para se adaptar ao ambiente marciano", afirma Ferl.

Luz - A capacidade luminosa da mostarda transgênica é emprestada da água-viva Aequorea victoria, espécie comum na costa do Pacífico na América do Norte. Os animais não brilham continuamente, mas o toque de uma mão humana - ou outra indicação de perigo - faz "acender" um anel verde na borda de seus corpos. O gene responsável por essa característica foi isolado e acoplado a um gene de sensitividade da própria Arabidopsis. Ambos foram inseridos no genoma da planta - já totalmente mapeado - por meio de uma bactéria.

No futuro, os cientistas esperam desenvolver comunidades "biorregenerativas" que servirão como base para explorar o planeta vermelho. O ambiente seria mantido por um sistema de auto-reciclagem do metabolismo de humanos, plantas e micróbios: plantas e humanos trocam oxigênio e gás carbônico, enquanto os excrementos - após tratamento - seriam usados como fertilizante para cultivar alimentos.


I - O Novo Paradigma Holístico

por

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 

 
 

Uma Nova Forma de Perceber o Mundo

"A terra não pertence ao homem; é o homem que pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. O que fere a terra fere também os filhos da terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará".

Trecho da carta do Cacique Seattle ao Presidente dos EUA em 1855.

 

 

I - O que é um paradigma?

 

    Um paradigma significa um modelo, algo que serve como parâmetro de referência para uma ciência, como um farol ou estrutura considerada ideal e digna de ser seguida. Ao mesmo tempo, ao ser aceito, um paradigma serve como critério de verdade e de validação e reconhecimento nos meios onde é adotado. Foi o físico Thomas S. Khun que o utilizou como um termo científico em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, publicado primeiramente em 1962, sendo no Brasil publicado pela Editora Perspectiva. 

    Segundo Khun, a palavra paradigma pretende sugerir que "certos exemplos da prática científica atual - tanto na teoria quanto na aplicação - estão ligados a modelos conceptuais de mundo dos quais surgem certas tradições de pesquisa". Em outras palavras, uma visão de mundo atrelada a uma estrutura teórica metafísica aceita estabelece uma forma de compreender e interpretar intelectualmente o mundo segundo os princípios constantes do paradigma em vigor. Por exemplo, a ciência já foi dominada pelo pensamento geocêntrico (ptolomáico), que estabeleceu toda uma produção intelectual coerente com a visão de mundo deste paradigma que dizia que a terra era o centro do universo. Portanto, quem afirmasse algo como "a Terra é apenas um dentre milhões de outros planetas, e nem mesmo é o mais significativo deles" estaria fadado a ser considerado louco, ignorante ou qualquer coisa do tipo. Posteriormente, observações demonstraram que esta visão era falha e foi sendo substituída - após intensa e violenta resistência dos sábios que defendiam o antigo paradigma - pelo sistema heliocêntrico de Copérnico. Este modelo, porém, foi percebido como imperfeito pelos avanços em astronomia e foi aperfeiçoado pelas descobertas da gravitação universal da física newtoniana; esta, por sua vez, foi drasticamente remodelada, já no século XX, pela Mecânica Quântica e pela Teoria da Relatividade, não sem uma forte resistência de inúmeros doutores e acadêmicos formados na cartilha clássica de Newton e seguidores e sua sólida visão mecanicista da natureza. 

    Cada uma dessas fases do pensamento científico foram bem sucedidas em determinados períodos de tempo. Dando novas perspectivas para a compreensão da realidade física, condicionavam a atitude científica e estabeleciam quais seriam os critérios de pesquisa, freqüentemente ligados à maneira como se esperava que o mundo devesse funcionar de acordo com o modelo (paradigma) adotado. Deste modo, fica claro que a ciência não é um processo de descoberta, em sentido estrito, de uma realidade dada, porém parece ser mais um processo de construção intelectualmente coerente, refletino um diálogo do pensamento humano com os fenômenos naturais e, assim, uma melhor compreensão humana, feita e comentada por homens, que lhes permitam explicar satisfatoriamente e dentro de certos critérios, alguns aspectos da realidade. Ou, em outras palavras, a ciência se constrói em cima de alguns fundamentos filosóficos bem definidos, mesmo que não sejam muito conscientes (freqüentemente não são mesmo). 

    Assim, o modelo induz a uma visão visão de mundo, dentre várias outras igualmente possíveis e igualmente coerentes. A imersão em um paradigma, especialmente no paradigma dominante, prepara o cientista para se tornar membro de uma comunidade científica a que se sinta atraído. Ele é treinado a pesquisar, agir e falar dentro dos critérios do paradigma aceito. Qualquer pesquisa que pareça ir além dos limites estabelecidos é vista com desconfiança, quando não totalmente minada e descartada como "não-científica". 

    Esta comunidade, adotando o mesmo modelo de ciência, induz seus afiliados à seguirem as mesmas regras básicas e padrões comuns de prática científica. De igual modo, esta mesma comunidade se inscreve dentro de uma comunidade maior que dá, em especial pelo financiamento e fundos de pesquisa, a atmosfera geral e as referências mais básicas para o florescimento de um determinado paradigma que se torna dominante, e que auxilia, na aplicação prática do conhecimento, uma determinada classe a atingir, manter ou aprimorar o poder econômico (foi assim na chamada Revolução Científica do século XVII, em grande medida pelo financiamento da burguesia capitalista ascendente, parte da qual era formada por protestantes calvinistas que buscavam no trabalho, acumulo e reaplicação dos lucros na produção, por em prática uma ética ascética que foi propícia ao desenvolvimento do capitalismo, conforme demonstra o excelente estudo de Max Weber A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo).

    Com a possibilidade, tal como se prometia, de se dominar a natureza, extraindo dela, como coisa objetiva e morta, os recursos necessários ao homem - em especial, os meios para acúmulo de riqueza de uma classe social que, por sua vez, patrocina a nova ciência mecanicista para que esta encontrasse novos instrumentos técnicos para uma mais aprofundada exploração da mesma natureza e mais acúmulo de riquezas -, aparentemente sem contra-indicações visíveis (ainda não se conheciam males como poluição, esgotamento de recursos naturais, desemprego, devastação ambiental, etc.), parecia que se tinha um quadro de vitoriosa demonstração da supremacia da razão humana sobre a natureza, o que levou a uma febre racionalista que incentivava e preparava os caminhos para a Revolução Industrial do século XVIII e a cristalização do capitalismo como sistema dominante das relações de produção e da visão social nas sociedades ocidentais e, posteriormente, de praticamente todo o mundo. 

    Por trás do progresso da ciência na chamada Revolução Científica, do século XVII, estava, desde o Renascimento, a ascensão da burguesia como classe economicamente emergente, em busca de espaço, e de um novo sistema de produção e comercialização, o capitalismo. Este processo trouxe consigo uma nova forma de relações sociais e, com esta, uma nova maneira de ver o mundo, em especial em seu financiamento e retorno da ciência. Como nos fala a professora Cristina Costa em seu livro Sociologia, Introdução à Ciência da Sociedade:

    "A nova concepção de lucro, elaborada e praticada pelo comerciante burguês renascentista, é a marca decisiva da ruptura com os valores e as idéias do mundo medieval. O lucro não é mais apenas o valor que se paga ao comerciante pelo trabalho realizado. O lucro expressa a premissa da acumulação, da ostentação, da diferenciação individual e assim realiza a idéia de que tenho o direito de cobrar o máximo que uma pessoa pode pagar. (...) No capitalismo, o lucro tornou-se a finalidade de qualquer atividade econômica.

    "Se um comerciante pode auferir numa troca comercial o maior preço possível que a situação permite - resultante da oferta e procura e de outras condições produtivas e de mercado -, então é preciso que a produção seja organizada de forma mais racional e em larga escala. O fato de a concorrência ser cada vez maior também exige maior racionalidade [técnica] e previsão. Muitos prêmios são oferecidos aos inventores (...). Desenvolve-se a ciência e a tecnologia, enquanto na filosofia cada vez mais se procuram as raízes da forma de pensar [e que justifiquem e reflitam o pensamento deste novo grupo dominante].

    "A sociedade apresentava necessidades urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as condições de vida; ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar os hábitos sociais e formar uma mentalidade receptiva às inovações técnicas" (Costa, 1998, Editora Moderna, pp. 29-31, destaques meus, assim como os comentários complementares entre colchetes).

 

II - O Paradigma Newtoniano-Cartesiano


    Nossa tão decantada civilização tecnológica está em crise, e não é preciso esforço para perceber isso. A técnica, o tecnicismo e a alta tecnologia, associadas a uma forma de viver moderna, igualmente técnica mas cada vez mais estereotipada, pragmática e menos humana, está apontando para a falácia de mais uma promessa: por nos meios de produção ou no extremo desenvolvimento material a chave para a felicidade humana (hoje, tudo isso tem separado cada vez mais o homem do homem, o homem da natureza, e o homem de si mesmo).

    Desde o século XVII, quando a racionalidade das ciências naturais - que passou a ser utilizada de forma prática pela nascente burguesia, que, além do comércio, dava seus primeiros passos rumo à industrialização - vinham obtendo crescente reconhecimento como instrumentos de compreensão da natureza e meio para se atingir a "verdade", com sua capacidade para "desvendar" as leis naturais do mundo físico e, posteriormente, até mesmo do social, garantindo PREVISÃO e CONTROLE dos acontecimentos (ao menos, dos acontecimentos naturais em laboratório), que a aura de sacralidade, de dogma e de verdade vinha sendo transferida da Religião para a Ciência, que não mais era vista como uma das formas de saber, mas a única possibilidade eficaz de se atingir "a verdade", abolindo as crenças religiosas e/ou relativizando saberes outros, como a filosofia e a ética, já estabelecendo por conseqüência lógica que outras culturas, não ocidentais e não "científicas" eram subculturas - o que era, sem dúvida, um excelente pretexto para que a Europa "civilizada" pudesse colonizar e impor seu sistema, visão de mundo e interesses em outros povos que, em troca, seriam explorados em seus recursos naturais e humanos e se submeteriam aos ditames dos "esclarecidos" europeus.

     Vivemos numa época cuja principal característica está na divisão de tudo: desde a divisão de classes sociais (Hoje em dia ainda mais reforçada no chamado darwinismo social. C.f. a Home Page Visão de Mundo, Paradigmas e Comportamento Humano), até a divisão, algumas delas extremas, de especialidades em diversas áreas, como na Medicina, por exemplo. Esta crise reducionista foi provocada em grande parte pelo "background" filosófico extremamente mecanicista da ciência moderna, e em parte pelo modo capitalista de nossas relações, tanto humanas quanto econômicas, ambas, na verdade, formando dos aspectos de um mesmo processo intelectual. Toda promessa de felicidade técnica prometida pelo capitalismo cientificista acabou por se transformar, porém, num pesadelo: de um lado, temos a cruel falta de alimentos e do mínimo de conforto material na maioria dos países do Terceiro Mundo; e do outro lado temos a miséria psicológica e os distúrbios emocionais de toda espécie que acompanham os excessos do consumo-pelo-consumo e conforto supérfluo dos países (que são uma minoria) do Primeiro Mundo, ou 1/4 da população do planeta, onde crescem a solidão, a indiferença, os distúrbios da afetividade, a violência e a sensação de sem-sentido, conseqüência de uma visão de mundo extremamente reducionista, mecanicista e pragmática, voltada para as aparências, a competitividade e a vivência hedonista e individualista dos sentidos, nos moldes dos ideais industrialistas de nosso tempo.


    O pensamento dominante nesta estrutura de coisas é o da crença fundamental de que tudo é separado de tudo, o que inclui as pessoas, as sociedades e as culturas, e que está de acordo com o modelo mecanicista e atomista que perpassa nosso paradigma científico, que busca sempre as unidades mínimas fundamentais da natureza, fazendo da análise sem fim o único modo correto de entendimento das coisas, esquecendo as características próprias de um conjunto, de um todo complexo. Assim o homem constrói mapas e teorias cada vez mais detalhados em suas minúcias e acaba por acreditar em sua obra intelectual como se fosse a descrição precisa da realidade, que é sempre mais complexa. Esta crença condiciona uma percepção da realidade que traz, ao lado de inegáveis progressos materiais, conseqüências danosas para a harmonia psíquica e social do homem, sem falar de seu impacto sobre a natureza: o apego a possessividade e seu conseqüente medo da perda, a raiva, a agressão, a competitividade e a violência ligada à defesa do "meu", sem falar dos sentimentos afins de orgulho e ciúme (c.f. a Home Page Ecologia Profunda, Ecologia Social e Eco-Ética).

    Esta crença na fragmentação das coisas assume formas muito sutis e extremamente refinadas nas teorias ditas científicas. Até o advento da Física Moderna (Mecânica Quântica), que trouxe notáveis insights para a filosofia da ciência, da Ecologia e do desenvolvimento da Psicologia Holística, e da Psicologia Transpessoal, bem como da antropologia e de outros campos que mostraram de forma contudente a crueldade da concepção de mundo vigente, podemos afirmar que quase todas as disciplinas ditas científicas (até hoje) estão atreladas ao chamado paradigma newtoniano-cartesiano (c.f. Fritjof Capra, 1986), que é o modelo ainda dominante e arduamente defendido pela grande maioria dos cientistas. Chama-se paradigma newtoniano-cartesiano porque suas linhas mestras foram concebidas e, em sua maior parte, consolidadas pelos trabalhos notáveis do filósofo e matemático francês Renée Descartes e pelo extraordinário físico, astrônomo, místico e matemático inglês Sir Isaac Newton.


    Este paradigma se caracteriza por idealizar uma realidade, ou melhor, uma concepção/visão de mundo mecânica, determinista, material e composta, ou seja, de maquina composta por "peças" menores que se conectam de modo preciso. E essa concepção de mundo teve um grande impacto não só na Física, mas muito mais, pelas suas conseqüências filosóficas, em Biologia, Medicina, Psicologia Economia, Filosofia e Política. A extrema fragmentação das especializações, a coisificação da natureza, a ênfase no racionalismo e na fria objetividade e o desvinculamento dos valores humanos superiores, a abordagem mercantil competitiva na exploração da natureza, a ideologia do consumismo desenfreado, as diversas explorações com fins de se obter qualquer vantagem em cima de outros seres vivos, etc. têm sua fundamentação filosófica numa pretensa visão "científica" de um universo mecanicista (atualmente, numa concepção neo-darwinista da supremacia de umas ditas classes sociais, políticas e profissionais por sobre outras, numa reedição aprimorada de um discurso fascista-racista  já usado pelos nazistas há algum tempo atrás).


    Com efeito, à guisa de exemplo, a fanática certeza da superioridade intelectual européia (com países sedentos pelas riquezas de outros povos e pelo potencial mercantil destes) construiu um grande número de racionalizações baseadas no linguajar científico da Física e da Biologia, maquiando a violência de fatores psicológicos mais profundos, como o da ganância materialista impiedosa, roubando e desmoralizando outros povos considerados ignorantes, primitivos e inferiores durante o máximo período de exploração colonial, entre os séculos XVIII e XX. E, de fato, a partir do modelo de alienação impositiva inglês, envernizado de civilização,  possibilitou o nascimento de teorias as mais absurdas, como a crença na superioridade genética da raça ariana, pelos nazista, que tinha tinha - ou pretendia ter - uma forte conotação cientificista. E longe de ter tido um fim, a mesma exploração imperialista está mais ativa do que nunca, principalmente quanto aos países ditos do Terceiro Mundo, que não estão e nem se pretende que estejam inseridos ativamente no sistema internacional de consumo e produção, conhecido como globalização, e que na verdade não passa de uma alienação das forças culturais e criativas dos povos em prol de modelo nortista de capitalismo. Grande parte dos países da América Latina são considerados "sem interesse", por serem "zeros econômicos", e são relegados à miséria e à margem da história branca e plastificada dos que se consideram os senhores do mundo. Segundo Leonardo Boff (1997), "estes mostram, por isso, uma insensibilidade e uma desumanidade que dificilmente encontra paralelos na história". Por mais que os arautos do racionalismo apontem desgraças e guerra em séculos anteriores e as maravilhas técnicas de nosso tempo, nunca se matou tão friamente e em nome da razão, do progresso e da civilidade como em nosso século.


    Na educação mesma, como muito bem nos fala Pierre Weil (Brandão & Crema, 1991), "a fragmentação do ensino aumenta à medidade que se atinge as séries superiores, chegando a fazer das universidades atuais verdadeiras torres de Babel". Algumas teorias que se arvoram de científicas se fecham cada vez mais em si mesmas, ao ponto de se criar um mundo só delas, como em monastérios acessíveis apenas aos iniciados e partilhantes de seus ideais, expressos num linguajar técnico, complexo e, quando relacionados aos interesses existenciais dos indivíduos, vazio. A função valorativa dos sentimentos foi rejeitada. Só o racionalismo linear - expresso de modo claro em gráficos e em pesos e medidas - pode ser útil. Achamos que apenas o racional pode nos dizer o que tem valor, mas isso não ocorre. Valor é algo de subjetivo que diz respeito aos sentimentos. Não é por acaso que nossa cultura, que sobrevaloriza o racional, afoga-se em dados numéricos mas se mostra totalmente incompetente para discriminar o que realmente tem importância em meio a um mar de informações e pesquisas cartesianas, e se mostra completamente incapaz de dar o mínimo de conforto psicológico às pessoas que se sentem alienadas e excluídas pelo sistema vigente.

    Nossas prateleiras universitárias estão repletas de pesquisas "esotéricas" - apenas alguns "iniciados" podem compreende-las -, com pouco ou nenhum valor real para o comum dos mortais. Estas prateleiras. como disse Milan Kundera, parecem cemitérios, ou até mesmo menos que isso, pois nos cemitérios sempre ocorrem visitas, pelo menos uma vez por ano. O governo é cada vez mais incapaz de estipular prioridades com base em qualquer outra ordem que não seja o balanço comercial ou os gráficos de desenvolvimento industrial. E como a ênfase está apenas no que é racional, temos uma visão unilateral de mundo, hipertrofiada, puramente intelectual, onde sentimentos e valores são menosprezados ou são ignorados. E é interessante notar o quanto esta estrutura filosófica influencia e é, por sua vez influenciada - em feedback - pela ideologia do capitalismo, ou qualquer outra que tire vantages da situação. Tanto esta ideologia parece encontrar justificação na visão de mundo do paradigma newtoniano-cartesiano quanto este parece encontrar todo o apoio financeiro para se manter, na medida que as pesquisas mais de acordo com seus pressupostos recebem recursos vários enquanto as pesquisas menos técnicas (segundo seus parâmetros), mais ecológicas e/ou humanistas parecem ser desmerecidas ou rejeitadas, recebendo pouca ou nenhuma atenção dos poderes econômicos. Aliás, não devemos esquecer que estes poderes buscam exatamente isso: poder. Poder sobre a natureza, sobre os lucros, sobre as pessoas. Enfim, um poder pleno e exercido de modo racional-mecânico, onde os valores humanistas não podem ter lugar (Veja-se a home page sobre Soren Kierkegaard para um aprofundamento desta questão).


    Esta crença generalizada da onipotência técnica tem levado à atitudes e postulações extremamente arrogantes dos meios científicos e industriais, o que produz, entre outras coisas, os Titanics, os Hindemburgs, as Bombas, os Efeito-Estufa e os Chernobys da vida, bem como golpes miliatres, alienação, miséria, desemprego e violência. 
Com respeito à saúde, especialmente à Medicina, o paradigma vigente tem também exercido uma notável influência. A ênfase acadêmica e mercatilista na especialização tem feito quase desaparecer a figura do clínico geral e levado à fragmentação extrema das áreas médicas em superespecializações, quase sempre levando os pobres pacientes a se sentirem perdidos e alienados diante da frieza técnica e da ausência freqüente de uma visão global (psicossomática) do seu caso. Os mais visíveis resultados são: o "culto" à figura do médico (com toda a áurea externa e mítica a respeito dele), a quem é dada total responsabilidade pela nossa saúde, cabendo aos leigos apenas uma atitude de submissão passiva promovida pela ignorância no cuidado da própria saúde, ou seja, de uma Educação Preventiva; uma extrema frieza - que é envolta no mito da objetividade científica - para com os sentimentos e anseios do "paciente"; o "paciente" sendo considerado um "objeto" de estudo (quando não de lucro); o culto da figura do especialista, o corpo sendo tratado como uma máquina, a mercantilização da saúde e um profundo e irracional desprezo pelos aspectos psicológicos da doença.


    O argumento de que, em nosso século, o desenvolvimento técnico e tecnológico de equipamentos médicos tenham sido as principais responsáveis pelo aumento da taxa de vida também é questionável. Foram as melhorias sanitárias, a conquista de direitos sociais, a educação higiênica e o entendimento dos processos de transmissão de doenças ( com os trabalhos, por exemplo, de um não médico, como Louis Pasteur), a Educação Preventiva que tiveram um papel considerável na melhoria da saúde pública. A parafernália técnica está quase totalmente voltada para o diagnóstico de doenças, muitas das quais perfeitamente evitáveis com uma eficaz educação preventiva, mas que possuem a área da modernidade milagrosa.

    Muito, ou pelo menos metade dos recursos utilizados em marketing e em diversos outros tipos de publicidade médica poderiam ser muito melhor aplicados na educação preventiva e na melhoria de postos de saúde, formando um conjunto de extraordinário efeito profilático. Do mesmo modo, a estreita ligação de médicos alopatas com a indústria famacêutica (responsável pela movimentação de bilhões de dólares anuais no comércio de remédios, muitos dos quais inócuos ou até prejudiciais) tem formado um verdadeiro cartel comercial e impositivo de valores. Quando do "boom" da AIDS, em meados da década de 80, a indústria do sangue, por exemplo, não queria se submeter aos testes que poderiam indicar a presença do vírus HIV nas doações de sangue, sob o pretexto de que os gastos não compensariam os resultados. Ao que um cientista, tristemente perguntou: "Quando os médicos se deixam levar pelo comércio e comercializam a saúde, a quem a população poderá recorrer?" Esta pergunta continua sendo mais atual que nunca. Ao invés de apenas se aterem ao mecanismo de como se dá a ação de uma doença, a pergunta principal deveria ser: Por que ocorre esta doença, quais os fatores intrínsecos e extrínsecos que causaram esta doença e quais os meios em que ela pode ser eficazmente debelada. Os tão estudados mecanismos de ação patológicos nem sempre são causa, mas sim efeitos de um distúrbio mais complexo do organismo em seu intercâmbio relacional com o ambiente físico e social que o envolve, o que, quase sempre, é tristemente negligenciado pela medicina alopática, mas que, felizmente, é um dos pontos mais fundamentais da medicina homeopática, que está sendo cada vez reconhecida.


    Seria útil, aqui, recordar como a história sempre se repete, como diz Marx, a primeira vez como drama e a segunda vez como farsa... Já no século II de nossa era, o notável médico Galeno acusa seus colegas de terem esquecido Hipócrates, máximo modelo do bom médico. Galeno acusava-os de a) serem ignorantes e fechados em sua pseudo-supremacia, b) de serem corruptos em sua sede insaciável de dinheiro e c) de estarem absurdamente divididos (hoje, dividos em superespecializações). Eis o que ele disse a esse respeito: "Considerando a riqueza mais preciosa que a virtude, e exercendo a arte médica não em benfício do homem, mas por lucro e vaidade, (...) não é possível atingir a real finalidade da medicina" (citado em História da Filosofia, vol. I, página 362, de Giovanni Reale e Dario Antiseri, ed. Paulos, São Paulo, 1990).

    Todo este quadro de tecnicismo individulista e de descrédito em valores humanistas têm uma só causa fundamental: a nossa visão de mundo foi montada em cima de valores e referenciais mecanicistas... tomamos o relógio como metáfora do mundo, e passamos a nos tratar como máquinas... E é tal o enraizamento deste paradigma que fica até mesmo difícil de se acreditar ou aceitar que outras formas de ver e compreender o mundo tenham alguma validade intrísenca e/ou sejam tão ou mais perfeitas que a nossa visão cientificista.

 

 

    Creio que ninguém melhor que o genial Max Weber, filósofo e sociólogo alemão, pôde explicitar de modo claro como o racionalismo ocidental se transformou em ideologia, que poderíamos chamar de cientificista, estabelecendo uma série de preconceitos etnocêntricos com relação a outras formas de entendimento da realidade que, se não são científicas dentro dos cânones do academicismo ocidental, nem por isso deixam de ser significativas e coerentes e, mais que tudo, de funcionarem:

A Ciência como Vocação

    "O progresso científico é um fragmento, o mais importante indubitavelmente, do processo de intelectualização a que estamos submetidos desde milênios e relativamente ao qual algumas pessoas, adotam, em nossos dias, um posicionamento crítico aparentemente estranho.

    "Tentemos, de início, perceber claramente o que significa, na prática, essa racionalização intelectualista que devemos à ciência e à técnica científica. Significará, por acaso, que todos os que estão reunidos nesta sala possuem, a respeito das respectivas condições de vida, conhecimento de nível superior ao que um hindu ou um hotentote poderiam alcançar acerca de suas próprias condições de vida? É pouco provável. Aquele, dentre nós, que entra num trem não tem noção alguma do mecanismo que permite ao veículo pôr-se em marcha - exceto se for um físico ou engenheiro mecânico profissional. Basta-nos 'contar' com o trem e orientar, conseqüentemente, nosso comportamento; mas não sabemos como se constrói aquela máquina que tem condições de deslizar. O selvagem, ao contrário, conhece, de maneira incomparavelmente melhor, os instrumentos de que se utiliza. Eu seria capaz de garantir que todos ou quase todos os meus colegas economistas, acaso presentes nesta sala, dariam respostas diferentes à pergunta: como explicar que, utilizando a mesma soma de dinheiro, ora se possa adquirir uma grande soma de coisas e ora uma quantidade mínima? [E isto a despeito de os economistas se orgulharem das características matemáticas de sua disciplina o que, pretensamente, a colocaria próxima das ciências exatas, objetivas]. O "selvagem", contudo, sabe perfeitamente como agir para obter o alimento quotidiano e conhece bem os meios capazes de favorecê-lo em seu propósito. 

    "A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral progressivo e interligado acerca das condições em que vivemos. Significam, antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer momento, poderíamos, bastando que o quiséssemos - e dentro de uma visão de mundo onde a razão é utilizada e calcada na produção e distribuição de mercadorias e na e feitura de máquinas -, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso que interfirá com o curso de nossa vida; em uma palavra, que podemos dominar tudo por meio da previsão. Equivale isso a despojar de magia o mundo, deixá-lo como uma região amorfa, sem significado, como uma massa manipulável e não tendo outra utilidade senão sua exploração econômica. Os fatos e fenômenos que escapam aos limites do previsível são ou desprezados, ou postos de lado à espera de que um aperfeiçoamento do modelo científico venha a os explicar, mas sempre dentro dos pressupostos deterministas básicos aceitos. Para nós não se trata mais, como para o selvagem que acredita na existência destes poderes, de apelar a meios mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, mas de recorrer à técnica e à previsão. Tal é a significação essencial da intelectualização" (WEBER, Ciência e política; duas vocações, pp. 30-31, Editora Cultrix, São Paulo, 1970. Os comentários entre colchetes são meus).

 

Charlie Chaplin em Tempos Modernos, 1936

 

III - O Holismo: o nascimento de um novo Paradigma

 

    O extremo sentimento de mal-estar que muitas pessoas sentem diante dos complexos e trágicos problemas da atualidade tem levado à uma busca de um diálogo entre os vários núcleos do saber e da atividade humana. Por exemplo, temos a ONU e a Unesco como grandes organizações internacionais que buscam uma maneira conjunta de solucionar muitos dos atuais problemas humanos, sem falar nos movimentos de encontro inter-disciplinares e a busca pela ação cooperativa em todos os âmbitos, a medicina psicossomática e homeopática e a abordagem holística em psicoterapia, etc. É a essa busca de uma visão de conjunto, uma visão do TODO - que possui características próprias independentes das características de suas partes constituintes, como o todo humano possui caractersíticas próprias da de seus órgãos e tecidos -, que se dá o nome de holismo.

    Desde que Descartes cristalizou de modo definitivo a idéia da divisão da ciência em humanas e exatas (ou melhor, em Res Cogitans e Res Extensa, o que viria a se refletir em nossa divisão em corpo e mente, etc.), temos visto toda uma vasta gama de atitudes e comportamentos compatíveis com a idéia domiante do universo como um sistema mecânico casualmente emergido de um caldo de matéria de modo fortuito. No século XIX, Wundt, seguindo a tradição empirista britânica calcada na Física de Newton, atomizou a mente, reduzindo-a, ou melhor, tentando encaixá-la dentro dos parâmetros mecanicistas da ciência de sua época, haja vista o sucesso da física clássica e o grande respeito que lhe era dada. Para Wundt, como para muitos outros, a mente não passava de um epifenômeno bioquímico, como a urina é um epifenômeno dos rins. Mas tal modelo reducionista não agradou a todos, e desde então muitas escolas, como a da Gestalt, por exemplo, em psicologia e em outras áreas têm tentando - enfrentando o paradigma mecanicista olímpico vigente nos meio acadêmicos - contruir uma visão mais integrativa do ser humano.

    O desagrado ao modelo mecanicista - e da sua consequente visão de mundo - foi expresso de maneira clara por vários grandes cientistas em nosso século, como Albert Einstein, Werner Heisenberg, Niels Bohr e tantos outros. Vejamos esta passagem do físico Erwin Schrödinger, que de muitas maneiras lembra o humanismo existencialista de Soren Kierkegaard:

           "O quadro científico do mundo real à minha volta é muito deficiente. Ele nos dá muitas informações fatuais, coloca toda a nossa experiência numa ordem magnificamente consistente, mas mantém um silêncio horrível sobre tudo aquilo que está realmente próximo de nossas corações, de tudo aquilo que é realmente valioso e caro em nossas vidas, aquilo que realmente nos interessa. Este quadro não nos pode dizer nada sobre o valor do vermelho ou do azul, do amargo e do doce, dor física e prazer físico; nada sobre o belo e o feio, o bom e o mau. É incompetente para dizer qualquer coisa válida sobre Deus e a eternidade... Assim, em suma, não pertencemos realmente a este mundo descrito pelo quadro científico. Não estamos realmente nele. Estamos fora dele. Somos como espectadores de uma peça que insiste em demonstrar que o mundo é uma máquina cega, onde aparecemos fortuitamente para, logo, desaparecer. Apenas nossos corpos parecem se enquadrar no quadro, sujeitos às leis que regem o quadro, explicados linearmente pelo quadro... Eu não pareço ser necessário como ser humano, ou como autor... As grandes mudanças que ocorrem neste mundo material, das quais eu me sinto parcialmente responsável, cuidam de si mesmas, segundo o quadro - elas são amplamente explicadas pela interação mecânica direta (...) Isso torna o mundo operacional para o entendimento pragmático. Permite que você imagine a manifestação total do universo como a de um relógio mecânico que, pelo o que sabe e crê a ciência, poderia continuar a funcionar do mesmo jeito sem que nunca tivesse havido consciência, vontade, esfoço, dor, prazer e responsabilidade (...)"(Guimarães, 1996, p. 21, 22)

    Este descontentamento e a intuição de que o "quadro científico" é como uma janela que deixa ver apenas uma parte ínfima da realidade tem estimulado uma notável tentativa de se contruir uma visão mais holísitica, humana, orgânica e ecológica da realidade.  Afinal,  as  conseqüências de uma visão de mundo mecanicista são extraordinariamente nocivas, principalmente dentro de uma certa ideologia fascista de grande parte dos poderes político-econômicos da elite do Terceiro Mundo, o que traz um alto e muitas vezes impagável preço em termos de vidas humanas e recursos naturais.

   Estamos começando a antever e a construir um modelo científico que se baseia no conceito de relação, que é muito mais amplo que o de análise, como o usado pela ciência normal. Já não são somente as partes constituintes de um corpo ou de um objeto que são de fundamental importância para a compreensão da natureza desse objeto, mas o modo como se expressa todo esse objeto, e como ele se insere em seu meio. As partes que constituem um sistema tem um notável conjunto de características que se vêem no âmbito das partes, mas o sistema inteiro, o todo - o holos -, frequentemente possui uma característica que vai bem além que a mera soma das caraceterísticas de suas partes. Por exemplo, sabemos que tanto o hidrogênio quanto o oxigênio são constituintes fundamentais no processo de combustão. Mas se juntamos esses elementos e formarmos a água, nós os usaremos para combater a combustão. O Todo não elimina as características das partes, mas estas, quando em relações íntimas, dão o substrato a uma nova forma, cujas características transcendem às das partes constituintes. A Ecologia é a ciências moderna que melhor pode demonstrar esta relação parte/todo em simbiose íntima.

    Da mesma forma, podemos dizer que as peças de um quebra-cabeças, quando separadas, nos dizem muito pouco ou nada do que seja o quebra-cabeças. Somente quando vemos as peças em seu conjunto, e, de um certo modo, de um nível em que elas deixam de ser vistas como peças, é que podemos compreender a mensagem do quebra-cabeças. Assim também, pensamos que o mecanicismo reducionista e fragmentatador do paradigma newtoniano-cartesiano já deu o que tinha de dar. Achamos que após três séculos de ênfase na análise, está na hora de começarmos a construir um modelo que também estimule a síntese. Enquanto o mecanicismo científico vê o universo como uma imensa máquina determinística, o holismo, sem negar as características "mecânicas" que se apresentam na natureza, percebe o universo mais como uma rede de interrelações dinâmicas, orgânica.

    As origens do pensamento holístico, enquanto pensamento filosófico, podem se situar ainda na antigüidade, com os pré-socráticos, especialmente com Heráclito. Posteriormente, teremos um eco desse pensamento com os estóicos e com os néo-platônicos, especialmente com Plotino, e, modernamente, com os Românticos, especialmente com Schelling e os idealistas alemães. Com a publicação do livro Holism and Evolution, em 1921, Jan Smuts pode ser considerado o teórico fundador do movimento holístico no século XX. Mas foi com a revolução extraordinária da Física das Partículas e, principalmente com a Teoria da Relatividade de Einstein, que o termo passou a ser aplicado com uma conotação mais paradigmática dentro da tranformação conceitual da ciência.

   Paulatinamente, primeiramente a partir da Física, foi se construindo um arcabouço intelectual que permitiu uma expansão da percepção científica para além das peças de relógio do modelo analítico cartesiano-newtoniano. Este novo arcabouço estabelece que:

   °A Ciência, antes estritamente objetiva, torna-se epistêmica (voltada para o próprio processo intelectual de conhecer), já que as teorias revelam mais sobre a mente que a concebe que propriamente da realidade. Toda teoria é um modelo de explicação aproximada da realidade. Além do mais, desde que Heisenberg postulou seu Princípio da Incerteza, na Física das Partículas, e de que o observador influi na experiência, a questão de uma objetividade cartesiana clássica se tornou mais uma fantasia que realidade;

   ° Parte-se das partes simples, consideradas independentes, para partes em interação, em processo ou em rede. Não é apenas o conjunto de elementos isolados que formam o universo de fenômenos estudado pela ciência. Mas a interação, a RELAÇÃO que existe entre esses elementos. Aliás, é mais provável que os elementos sejam frutos da própria relação tanto quanto esta é fruto destes. Desta forma, a realidade é um processo de troca de informações entre todos os entes físicos, biológicos, psicológicos e sociais.


O físico norte-americano Brian Swimme fez uma síntese de alguns princípios fundamentais do holismo, ou do paradigma holístico:

a) se a natureza do átomo (aqui o encadeamento lógico advém das características atômicas) não é dada ou é posta à compreensão exclusivamente por ele, de forma isolada, mas por sua interação e seu comportamente em relação a todo seu Universo envolvente, então a realidade física consiste principalmente de relações, como a música que se compõe de relações de sons e rítimos - e não de notas isoladas, o que implica em superposições de complexificação crescente ou na criação de sistemas dinâmicos sempre mais amplos. Ou seja, nada pode existir sem que imponha e receba características fora de seu ambiente total (Gestalt);

b) a nossa ciência e a nossa interpretação sobre o que seja o mundo são resultantes de nossa própria ação e relação com o mundo que nos cerca e com as crenças e idéias que adotamos. O ideal da neutralidade e da objetividade científica é mais ficção que realidade;

c) além da análise que separa, a síntese que une é de fundamental importância na compreensão do mundo: conhecer algo implica em saber sua origem e finalidade. O universo parece possuir um sentido evolutivo;

d) a matéria não é algo morto, passivo ou inerte, já que é dotada de energia e parece evoluir segundo um plano criativo global; os elementos inanimados parecem se organizar segundo complexos sistemas de interação. Assim, o Universo está mais para uma rede de relações, uma realidade auto-organizante: um organismo em homeorresis.

Em Psicologia, o pensamento holístico está fortemente presente nas abordagens humanistas, especialmente na Gestalt, e, muito mais, na Psicologia Transpessoal. Stanley Krippner, diretor do Centro de Estudos da Consciência, assim definiu os quatro princípios básicos do paradigma holístico:

1) a consciência humana ordinária (relativa à percepção corporal e do ego no estado de vigília) compreende apenas uma parte ínfima da atividade total do psiquismo humano;

2) a mente ou a consciência humana, ou o espírito humano, estende-se no tempo e no espaço, existindo em uma unidade dinâmica, ou melhor, em uma relação contínua com o mundo que ela observa;

3) o potencial de criatividade e intuição é mais global do que se imagina comumnete, abrangendo todos os seres vivos;

4) o processo de evolução para níveis de maior complexificação e transcencdência é algo de muito valioso e importante - tendência à auto-atualização, segundo Maslow e Rogers.

    O filósofo existencialista e psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969), discorrendo sobre a necessidade de se empreender reflexões sobre como se obter o melhor método em pesquisa científica, afirmava que na prática do conhecimento necessitamos de vários métodos simultaneamente, e enfatizava três grupos:

1. apreensão dos fatos particulares que implica na observaçãos e descrição (análise) fenomenológica;

2. investigação das relações, onde explicar se refere ao conhecimento das conexões cuasais objetivas, vistas do exterior, enquanto compreender diz respeito à intuição interior:

3. percepção das totalidadades, para não se cair no gravíssimo erro de se esquecer o todo, no qual e pelo qual a parte subsiste.

    Portanto, a abordagem holística não é nem analítica e nem é puramente sintética; ela se caraceteriza pelo uso simultâneo desses dois métodos, que são complementares.

    A explicação da natureza e de todo o universo não pode ser mais puramente mecânica, pois está cada vez mais patente que existe um processo de síntese e de complexificação evolutiva que leva a criação de sistemas altmamente dinâmicos, como os sistemas biológicos - logo, muito longe de serem máquinas sujeitas à segunda lei da termodinâmica clássica. Segundo Jan Smuts, o criador da moderna concepção holística, e que exerceu profunda influência em Alfred Adler, o primeiro grande discípulo discidente de Freud, "o conceito mecanicista da natureza tem o seu lugar e a sua justificação apenas na estrutura mais ampla do holismo".

    Cabe aqui uma transcrição de parte de um artigo do nosso querido teólogo e filósofo Leonardo Boff (publicado na Folha de São Paulo em maio de 1996, cuja íntegra poderá ser encotnrada na Home Page do autor) sobre a nova visão holística, sistêmica ou ecológica que agora surge:

Uma visão libertadora

 

"A ecologia integral procura acostumar o ser humano com esta visão global e holística. O holismo não significa a soma das partes, mas a captação da totalidade orgânica, una e diversa em suas partes, mas sempre articuladas entre si dentro da totalidade e constituindo esta totalidade. Esta cosmovisão desperta no ser humano a consciência de sua funcionalidade dentro desta imensa totalidade. Ele é um ser que pode captar todas estas dimensões, alegrar-se com elas, louvar e agradecer aquela Inteligência que tudo ordena e aquele Amor que tudo move, sentir-se um ser ético, responsável pela parte do universo que lhe cabe habitar, a Terra. Ela, a Terra, é, segundo notáveis cientistas, um superorganismo vivo, denominado Gaia, com calibragens refinadíssimas de elementos físico-químicos e auto-organizacionais que somente um ser vivo pode ter. Nós, seres humanos, podemos ser o satã da Terra, como podemos ser seu anjo da guarda bom. Esta visão exige uma nova civilização e um novo tipo de religião, capaz de re-ligar Deus e mundo, mundo e ser humano, ser humano e a espiritualidade do cosmos. O cristianismo é levado a aprofundar a dimensão cósmica da encarnação, da inabitação do espírito da natureza e do panenteísmo, segundo o qual Deus está em tudo e tudo está em Deus. Importa fazermos as pazes e não apenas uma trégua com a Terra. Cumpre refazermos uma aliança de fraternidade/sororidade e de respeito para com ela. E sentirmo-nos imbuídos do Espírito que tudo penetra e daquele Amor que, no dizer de Dante, move o céu, todas as estrelas e também nossos corações. Não cabe opormos as várias correntes da ecologia. Mas discernirmos como se complementam e em que medida nos ajudam a sermos um ser de relações, produtores de padrões de comportamentos que tenham como consequência a preservação e a potenciação do patrimônio formado ao longo de 15 bilhões de anos e que chegou até nós e que devemos passá-lo adiante dentro de um espírito sinergético e afinado com a grande sinfonia universal".

 
 

IV - A Declaração de Veneza

    Em março de 1986, por iniciativa da Unesco, reuniram-se na cidade de Veneza dezenove ilustres representantes das áreas das ciências (incluindo dois Prêmios Nobel), artes, filosofia e das Tradições espirituais mais respeitáveis, todos representado dezesseis nações. Desta reunião histórica resultou um documento de nominada Declaração de Veneza, que reza o seguinte:

    "Os participantes do colóquio 'A Ciência face aos confins do conhecimento', organizado pela Unesco, com a colaboração da Fundação Giorgio Cini (Veneza, 3 a 7 de março de 1986), impelidos por um espírito de abertura e de questionamento dos valores de nosso tempo, chegam a um acordo sobre os seguintes pontos:

1. Somos todos testemunhas de uma importantíssima revolução no domínio da ciência, engendrada pela ciência fundamental (em particular a Física e a Biologia), pela perturbação que suscita na lógica, na epistemologia e também na vida cotidiana através das aplicações tecnológicas. No entanto, verificamos, ao mesmo tempo, a existência de uma defasagem importante entre a nova visão de mundo que emerge do estudo dos sistemas naturais e os valores que ainda predominam na filosofia, nas ciências humanas e na vida da sociedade moderna. Pois estes valores estão fundamentados, em grande parte, no determinismo mecanicista, no positivismo e no niilismo vazio, desumano. Sentimos esta defasagem como extremamente prejudicial e portadora de pesadas ameaças de destruição de nossa e de outras espécies.

2. O conhecimento científico, por seu próprio movimento interno, chegou a um limite que lhe permite começar um diálogo com outras formas de conhecimento. Neste sentido, e reconhecendo as diferenças fundamentais entre a ciência formal e a Tradição espiritual, constatamos não uma intransponível oposição, mas uma complementariedade entre duas formas de se perceber o mundo. O encontro inesperado e enriquecedor entre a ciências e as diversas Tradições do mundo permite pensar no aparecimento de uma nova visão da humanidade mas equilibrada, até mesmo de um novo racionalismo, que poderia levar a uma nova perspectiva filosófica.

3. Recusando qualquer projeto globalizador e reducionista, qualquer forma de um sistema fechado de pensamento, reconhecemos, ao mesmo tempo, a urgência de uma pesquisa verdadeiramente transdiciplinar em intercâmbio permanente e dinâmico com as ciências ditas 'exatas', e as ciências 'humanas', a arte e a Tradição. De certa forma, esta abordagem transdiciplinar está inscrita em nosso próprio corpo, em particular em nosso cérebro através da interação dinâmica entre seus dois hemisférios. O estudo conjunto da natureza, do universo e do homem poderia aproximar-nos do real e permitir-nos enfrentar os diferentes desafios da nossa época.

4. O ensino convencional de ciência, através de uma apresentação linear e estanque dos conhecimentos, dissimula a ruptura entre a ciência contemporânea e seu desenvolvimento histórico cheio de claros e erros, bem como das visões anteriores de mundo. Reconhecemos a urgência da pesquisa de novos métodos de educação, que levem em conta como se deu o real avanço da ciência, os quais se harmonizam com as grandes Tradições culturais da humanidade, com o resgate do sentimento na esfera das relações humanas, cuja preservação e estuda parecem fundamentias. A UNESCO seria a organização apropriada para promover tais idéias.

5. Os desafios de nossa época - o desafio da autodestruição, o desafio da informação, da engenharia genética, etc. - esclarecem de uma nova maneira a responsabilidade social dos cientistas, na inicativa e na aplicação da pesquisa ao mesmo tempo. Se os cientistas não podem decidir quanto à aplicação de suas próprias descobertas, não devem assistir passivamente à aplicação cega e irresponsável destas descobertas. Em nossa opinião, a amplidão dos desafios contemporâneos demanda, de um lado, a infomação rigorosa, acessível e permanente da opinião pública e, de outro lado, a criação de órgãos de orientação e até de decisão de natureza pluri e transdiciplinar.

6. Expressamos a esperança de que a UNESCO levará adiante esta iniciativa, estimulando uma reflexão dirigida para a universalidade e a transdiciplinaridade(...)".

    Penso que a importância deste documento ainda há de ser reconhecida pela humanidade como a primeira tentativa institucional de âmbito mundial pela busca de uma sociedade e de uma ciência mais holista, menos fragmentária. Mas sinto que falta ao documento uma análise dos fatores econômicos que estão por trás da atual crise de valores e de sentido humanos. Com o atual quadro de destribuição de renda e de alienação econômica e educacional - tão vivencida no Brasil -, dificilmente poderemos incrementar o ideal holístico, pois este calca-se na conscientização das pessoas, que advém do uso democrático da informação (todos nós sabemos como a informação é manipulada pelos veículos de comunicação comercial e o seu peso na formação artificial da opinião pública), e esta corre o risco de ser mais um produto rigidamente controlado pela ideologia de lucro e de poder do capitalismo vigente.

"O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior".

Albert Einstein

http://www.geocities.com/Vienna/2809/holistic.htm


Tecnologias em educação:

http://www.eca.usp.br/prof/moran/tec2.htm


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