InformaLista

 

O Informativo da lista “Educação Ambiental”

No. 12 – 29 de abril de 2001

Alguns textos apresentados na Lista de Discussão do Projeto Apoema - Educação Ambiental (Antigo Projeto Vida – Educação Ambiental)

Os textos não passaram por revisão ortográfica, portanto, podem haver erros.


Site de uma artista que trabalha com reciclagem:

http://br.geocities.com/neusacunha/reciclagem.htm

 


Questões que envolvem o Brasil urbano

 

Aziz Ab’Saber

 

Como geógrafo sou uma pessoa simples e tenho certa insegurança ao iniciar uma palestra, mas estou hoje aqui com entusiasmo. Antes do tema das cidades vou falar sobre algumas questões que, ao longo do século XX, me marcaram profundamente.

 

Uma delas foi o fato de Franz Boas, um grande antropólogo que fugiu da Alemanha nazista e foi trabalhar nas universidades norte-americanas, ter dito que o contato de sociedades ocidentalizadas – com grande nível tecnológico belicoso – acabava por levar letalidade a quaisquer populações ameríndias com povos de cultura primária. Estamos ainda assistindo a resquícios desse processo em certos rincões remotos do Brasil – em Roraima, no norte e noroeste do Mato Grosso, e outros lugares. Contatos que acabam sendo letais e, quando não ocasionam genocídio, geram pelo menos a morte da cultura – o que é muito grave.

A segunda questão que presidiu minha vida nesse século foi uma fala do professor Braudell, que dizia: "A História é a história de todas as histórias". Será a história deste evento, que o Parlamento em boa hora teve a iniciativa de fazer, a história de nossa Brasília, a do pequeno povoado de Marzagão Velho no Amapá ou a de Pelotas no Rio Grande do Sul? Esta ampliação da História, fugindo do formal e abrangendo todas as histórias, é uma base para o estudo do desenvolvimento das redes e bacias urbanas no Brasil.

Um terceiro comentário nasceu de uma observação do mestre Roger Bastide ao fim de um curso que fiz quando jovem. Pedimos a ele que desse aulas sobre sociologia educacional para historiadores, geógrafos e sociólogos. O professor nos disse o seguinte: "Não tenho os livros que gostaria para organizar um curso de sociologia educacional, pois minha biblioteca ficou em Paris e possuo pequena reserva de livros em São Paulo". Procurei então em minha humilde estante e tirei um livro que me chamara a atenção no passado, A sociologia dos animais, e, de repente, diz o professor Bastide – e aquilo impressionou profundamente a todos, que éramos de áreas diferentes: "Lendo e relendo este famoso livro de Marcel Mauss, cheguei à conclusão que o homem é a única espécie viva na face da Terra capaz de retraçar a trajetória da sua espécie em todos os tempos e em todas as épocas". Quando ele disse isso, ficamos pensando na responsabilidade desse fato. Se o homem é o único ser vivo na face da Terra capaz de produzir sua história e reconstruir sua trajetória, nossa responsabilidade com todo o planeta, a biodiversidade e a humanidade que se projeta pelos mais diferentes espaços – no campo, em cidades e áreas urbanas – aumenta ainda mais; porque somos os únicos que podem retirar exemplos do desenvolvimento da história dos homens, das comunidades e das sociedades.

 

Rica herança da natureza

 

Outro fato fundamental nestas lembranças do século XX foi a questão da diferenciação entre o conhecimento sobre o mundo natural e o conhecimento do mundo em que há uma projeção dos homens sobre o espaço herdado da natureza. Aqui abro um parêntese: conheci Brasília logo no começo de sua fundação, era um conjunto de altiplanos, revestidos por cerrados e interpenetrados por florestas e galerias, bem no centro do país. Mas na transição entre os altiplanos, os chapadões e o começo dos baixos relevos (que vão conduzir os grandes rios do Brasil Central para a margem direita do Rio Amazonas), de repente, os arquitetos e urbanistas concebem uma cidade com uma adaptação a uma rede de drenagem que a gente chama de semi-anular; e Brasília ganhou uma forma de asas, como uma flecha em direção a pontos extremos do país. Essa questão me conduziu ao problema da tipologia dos espaços organizados iniciados e desenvolvidos por homens e sociedades em diferentes áreas dos países em desenvolvimento.

Um famoso geógrafo da região de Toulouse escreveu na década de 1960 um trabalho fundamental, e que, evidentemente, hoje precisa ser completado: Types of Geographical Spaces of Countries in Development. Naquele momento, o problema básico do Primeiro Mundo era caracterizar o mundo desenvolvido e o que eles consideravam subdesenvolvido, por diferenças regionais, de ocupação, de modernidade e outras causas. Mas o professor que fez isso, Bernard Kayser, iniciou um tratamento para quem quer estudar cidades, redes de cidades e bacias urbanas. Ele caracterizou em primeiro lugar um tipo regional imenso que seriam as regiões em processo de desenvolvimento, com cidadezinhas situadas na beira de rios, no entroncamento de rios, ou na barra de igarapés. Evidentemente a Amazônia era assim um grande território em processo de desenvolvimento complexo – em função do ambientalismo, do ecologismo e de pressões inteligentes, mas também pressões geopolíticas muito graves – teve de ser pensado como uma área que teria o máximo da floresta em pé. Ou seja, o máximo de biodiversidades naturais preservadas e um tipo de desenvolvimento que não fosse capaz de predar espaços muito grandes dentro deste conjunto. Assim, vemos que já mudou um pouco o conceito de espaços em vias de desenvolvimento do professor Kayser.

Depois, ele nos falava de bacia urbana, que seria o de uma grande cidade, a cabeça de um território, colocada próxima de porto ou em uma situação estratégica, ou no entroncamento de rotas, e que controlaria uma rede de cidades modestas vinculadas ao poder e ao comando social, socio-econômico ou econômico dessa grande cidade. Evidentemente, quando surgiu essa caracterização, a rede de cidades fundamental que representava esta bacia urbana era o Nordeste seco. Só que de lá para cá multiplicaram-se as rodovias asfaltadas, as cidades conseguiram até mesmo pontos universitários relacionados com as universidades que estavam na área central de concentração da originalidade principal das metrópoles. Com isso, o Nordeste seco se desenvolveu bastante e, não fosse a estrutura agrária rígida que existe nos sertões, teríamos condições de ter mais gente com pequenos espaços podendo produzir. Mas o principal problema é a secura, o grande drama do semi-árido do nordestino.

 

Viagem pelos sertões

 

Aprendi sobre essa região e gostaria de socializar. Em um Congresso Internacional de Geografia no Rio de Janeiro (em que estiveram dezenas de grandes nomes da Geografia e da História da Europa, dos Estados Unidos, do Japão e da Rússia), organizamos várias excursões para toda as partes do Brasil: Pantanal, Sudeste, Bahia, Minas Gerais, Amazônia e Nordeste. No caso do Nordeste, contávamos com a presença de um grande conhecedor do Saara, o maior deserto existente no Planeta. E quando começamos a caminhar pelo interior dos sertões, depois de transpor a Borborema descemos do outro lado na Serra dos Ferros. No terceiro dia da excursão, ele parou nosso diretor, o professor Mário Lacerda de Melo e disse o seguinte: "Nesses três dias que estou viajando por esses vastos sertões, já posso dizer a vocês que isso aqui não tem nada de deserto. Absolutamente nada! Tem gente por toda parte, na beira dos rios, nos interflúvios e ao longo de estradas. Há gente distribuída por todos os espaços que percorri. Se vocês me dizem que os outros espaços são parecidos com estes, posso afirmar que não tem nada de deserto". Achei aquilo magnífico porque era uma pessoa que conhecia. Sondando um pouco mais, nos disse o seguinte: "No deserto não tem sazonalidade, não é possível ter vegetação, nem arbustivas, muito menos área pontilhada por árvores e paineiras e outras coisas mais que existem nas chamadas caatingas arbóreas. Então isto aqui é uma região semi-árida muito extensiva, com rios que perdem a correnteza por cinco, seis, sete meses, mas readquirem-na por outros, e não são iguais aos do deserto que apenas correm quando chove – parou a chuva, parou de correr". Quando o professor Dresch falou isso, fiquei impressionadíssimo com nossa responsabilidade. Porque, dizia ele: "Tem gente por toda parte e é a região semi-árida mais povoada do mundo e, sendo assim, a responsabilidade de vocês governantes, intelectuais e pessoas esclarecidas é muito maior". E é evidente que a nossa responsabilidade com a região envolve ter esclarecimentos sobre a realidade fisiográfica, ecológica, social e fudiária do Nordeste, ou não poderemos resolver os grandes problemas da região semi-árida mais povoada do mundo.

 

As bacias urbanas

 

Além das áreas em processo de desenvolvimento e das bacias urbanas mais rústicas existe a necessidade de se considerar também as bacias urbanas mais densas, com maior número de capitais regionais, densidade de cidades e certo grau de ocidentalização aparentemente melhor que a bacia rústica. Então, nessa classificação, eu acrescentaria o caso da rede urbana, a bacia que se estende de São Paulo ao norte do Paraná, ao Triângulo Mineiro e certas áreas de Minas Gerais, aos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Esta bacia urbana é dependente de alguns grandes centros como São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Vitória e Belo Horizonte. É uma bacia urbana fantástica. Só no Estado de São Paulo, em função da sua história econômica e das elites do passado – inteligentíssimas em relação à administração do espaço total paulista –, essa bacia urbana teve 100 cidades, formadas em pontas de trilho e em função de heranças dos tempos de cruzamento de rotas de muares para levar café para os portos. São 100 cidades do café. E hoje tem 1.500 centros urbanos de portes variados, desde o pequeno núcleo de atendimento rural, com bóias frias, até capitais, algumas delas, talvez, entre as maiores do mundo. São Paulo é uma região integrada de municípios, mas o todo funciona como um núcleo urbano de integração total – daí seus problemas, inimagináveis, de circulação interna e outras coisas mais. Mas vejam bem, esse tipo de cidade nos faz pensar em quais os fatores para um crescimento urbano tão rápido. No caso das cidades de porte médio – Ribeirão Preto, Sorocaba, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, e sobretudo Campinas –, estão ao ensejo de várias pressões. A principal pressão é a passagem abrupta do mundo urbano para dentro do mundo rural. Isso é um desastre. Em alguns lugares do norte do Paraná desaparecem 7 fazendas produtivas por ano e cria-se um bairro no lugar. Este, no começo é pequeno, pobre, desconcentrado e, de repente, cresce e afinal obriga os prefeitos a procurar integrá-lo à infra-estrutura – e a cidade incha pela agregação.

 

As grandes metrópoles

 

Outro processo também especulativo é a verticalização. Quando venho a Brasília e relembro os padrões implantados no início com feições arquitetônicas e urbanísticas que deveriam ser preservadas, fico alegre com algumas coisas e um pouco entristecido com a violência da verticalização que vai se esboçam independentemente dos planos diretores, porque a pressão dos poderosos é infinita num país de grandes desigualdades sociais. Mas, vejam bem, a verticalização em São Paulo está adquirindo aspectos que não dá para se comentar. São Paulo se desenvolveu num sistema de colinas, com amplitude grande de ordem altimétrica (as várzeas do Tietê-Pinheiros estão a, mais ou menos, 718 metros e o espigão da Avenida Paulista está 820), tem um certo relevo nas colinas, terraplanície, terraço, rampas, vales que seccionam os terraços intermediários etc. E essa cidade, após o ciclo histórico em que funcionou como ponta de lança da ocupação territorial do Brasil e da interlândia rústica do Brasil, passou a ter um contorno tentacular – de vários tentáculos: avenidas como São João, Celso Garcia e outras, todas se dirigindo para os quadrantes mais variados – na direções do porto, do interior, do Vale do Paraíba... Após essa fase tentacular em que a cidade foi predominantemente comercial na sua região central e possuía núcleos industrializados bem separados no ABC e mais tarde em Cubatão, criou-se uma nébula fantástica de bairros carentes nos confins desses tentáculos – com um traçado absolutamente caótico e anacrônico. Dentro desse composto fantástico de bairros carentes surgiram incrustações de favelização – que, em São Paulo, tendem a ser centrípetas. O favelado é uma espécie de estrategista do espaço. Se possível, ele estaria na Praça da Sé; se não estão na Sé, os camelôs estarão por volta do centro histórico, defendendo sua alimentação e de seus filhos. Então, o favelado, o migrante, é periférico e assim centrípeto em relação ao corpo urbano total da cidade. Esse processo precisa ser entendido, pois há uma metrópole interna e uma metrópole intermediária – na expressão de um grande urbanista de São Paulo, Cândido Malta Campos – e depois uma metrópole externa, extremamente grande, em um processo inevitável de crescimento. A avenida Paulista, os terraços, os rios, os bairros carentes, tudo isso forma um complexo diverso. Um traçado social e cultural daquela avenida, que representa o máximo de mundialização no território brasileiro, e o da favela, incrustada no bairro carente – que é a mais desesperante que outras mais próximas da zona subcentral na metrópole intermediária, e que ganham com o descarte do mundo consumista –, evidenciam problemas muitos sérios a avaliar nesse contexto da estrutura metropolitana.

Em função de tudo isso, surgiu no caso das tipologias do espaço de Kayser, aquele espaço que chamou de autodesenvolvido, quer dizer, espaços que ao sabor dos ciclos econômicos rentáveis puderam se desenvolver com uma certa autonomia. Hoje, a expectativa do mundo inteiro é que haja cidades com uma certa sustentabilidade. Evidentemente as grandes metrópoles estão com muitos problemas, mas há tempo ainda para evitar que as cidades pequenas e médias cresçam indefinidamente, saltando para as zonas rurais, conurbando-se – integrando-se em processo de urbanização que não tem fim dentro do espaço. Isso é um sério problema. O Estado de São Paulo, no futuro (e há diversos níveis de profundidade do futuro), do ponto de vista da ecologia e da ocupação humana dos espaços, se não houver retenção relativa desses núcleos (1.500 núcleos de todos os tamanhos), não haverá, daqui a 500 anos, espaços agrários capazes de produzir alimentos para a população cada vez mais volumosas. Esse é um problema fundamental para o futuro, pois é evidente que, na medida em que faltarem espaços agrários, terá de se interferir nos espaços de solos mais pobres, nos espaços que deveriam ter o máximo de biodiversidade e o mínimo de predação. Esse problema, com diferentes profundidades do futuro, serve para que autoridades nunca falem do futuro de um modo ocasional. O futuro da economia, em minha época de estudante, era pensado em qüinqüênio - cinco anos para dosar a economia – depois passou para três anos, mais tarde para três meses, para duas semanas, uma semana; e agora se pensa a economia em função da manhã, da tarde e das bolsas. Temos de saber que o tempo dos economistas é um, mas o tempo do ecologista, de quem pensa integradamente os usos diferentes do espaço tem de ser dosado, pois existem os níveis de profundidade: 100 anos, 500 anos, 10 mil anos – as últimas mudanças climáticas que interessaram a modificação dos espaços ecológicos se deu entre 23 mil e 12 mil anos atrás. Quando o clima esfriou na última glaciação, em alguns lugares, de repente, em função desse resfriamento aliado a uma secura (que ninguém entendia no meu tempo e colaboramos para esse entendimento), a corrente fria que vem do sul subiu até a Bahia e não deixava entrar umidade para o Continente. O que estava entre uma chapada e outra, entre um maciço antigo e outro, ficou seco – corredores de secura anastomosados dentro do território brasileiro. Na medida que a secura chegou, as caatingas se estenderam, os cerrados ficaram mais acantonados na parte do altiplano e, na Amazônia, houve uma fragmentação relativa da tropicalidade. À medida que as florestas se reduziram, a fauna de sombra – a fauna de meio da floresta – se concentrou, e houve a formação de redutos. Eles sofreram um processo evolutivo e acrescentaram-se espécies às espécies já existentes. Houve, assim, o pano de fundo geral de espécie – com espécies novas e outras subespécies – que, depois da tropicalização, se estenderam por áreas bastante desiguais.

 

Tipologias de Kayser

 

Enfim, o Brasil já teve uma grande projeção nas regiões semi-áridas do tipo que conhecemos no Nordeste e, se a quisermos saber como foi, basta olhar aqueles setores: todos têm serras úmidas, com florestas biodiversas, brejos de pé de serra e encostas de serras com florestas, e o pano de fundo geral é a caatinga com vários tipos (caatinga arbórea arbustiva, arbustiva arbórea, agrestes etc). Mas atenção, podemos dizer que haverá uma certa normalidade relativa entre os 12.700 e mais alguns milênios e, de repente, mudanças climáticas novas poderão ocorrer e muita coisa pode acontecer. Posso conservar 100 ou 200 produtos em Senagens e órgãos parecidos, mas as biodiversidades vão flutuar, e acontece que muitas daquelas áreas de redutos e de florestas já desapareceram.

O entendimento desses processos, que parecem indiretos, servem para se entender que o mundo urbano vai sofrer mais se houver a extensividade de condições diferentes das de hoje, eliminando a possibilidade de produtividade rentável para o país – em termos de alimentos, de comércio internacional. Estaremos numa situação muito ruim no futuro, e grandes países do mundo estarão talvez ainda pior do que nós.

A apreciação do professor Kayser sobre as tipologias das cidades nos interessa muito. Ele tem um outro tipo final, que é a região de especulação agrária. São regiões em que um produto monopoliza todos os outros. Tal produto tem interesse econômico e social, sobretudo por sua capacidade de gerar recursos externos, e se estende muito rapidamente por grandes espaços, eliminando grandes setores das áreas naturais. Foi o café no Estado de São Paulo, a cana-de-açúcar na zona da mata nordestina, e foi o cacau no sul da Bahia – com menos gravidade porque o cacau era colocado na sombra da mata e isso facilitou um pouco sua preservação, que hoje já mudou muito. Mas nessas regiões de especulação agrária existe um problema sério, pois tudo o que pode ser aproveitado no terreno é destinado ao produto-chave da economia regional. A soja, no momento, em várias partes do oeste de Santa Catarina, oeste do Rio Grande do Sul etc, abrangeu grandes espaços que conheci quando jovem pesquisador de campo. Eram enormes áreas de florestas subtropicais com araucárias emergentes – lindas e poderosas. E de repente isso tudo foi cortado para se estender o espaço – chamado de especulação agrária – de importância econômica social para o país. Mas houve fragmentação, e só as cidades cresceram. É uma beleza chegar numa cidade dessa zona – que teve esse caráter de depredação – e encontrar Cascavel, Ponta Grossa e outras que têm um grau de modernidade e nível de infra-estrutura não muito fácil de se encontrar.

 

Pobre vida urbana

 

Mas passemos às conclusões.

Os grandes problemas que estamos enfrentando envolvem em primeiro lugar a conurbação e emendação de cidades e o cantonamento de espaços. Em segundo lugar, a especulação desesperada do espaço – e os especuladores são insensíveis à pobreza, à ascensão das camadas pobres para, pelo menos, um nível de classe média, e usam os espaços de todas as maneiras possíveis. Basta dizer que a diferença entre o mundo rural e o mundo urbano é que, no rural, se medem os espaços pela necessidade da produtividade agrícola ou agrária (por hectares, agora e, no passado, por alqueires) e, na cidade, se mede por metro quadrado – e é por metro quadrado dentro de cada subsetor de diferentes bairros, uns muito ricos outros muito pobres. As pessoas são obrigadas a adquirir o seu espaço com grandes dificuldades. E quem chega lá do sertão do Nordeste no período de seca não encontra seu pequeno espaço e tem de se amoldar às circunstâncias: fica um pouco nas casas de parentes, ou perde forças para procurar o seu espaço, ou invade espaços mal-administrados pelo poder público ou particulares – é a lei da sobrevivência. Assim, de repente, se encontra as pessoas dormindo embaixo da arcada da Faculdade de Direito de São Paulo, embrulhadas naqueles cobertores que nem se fabrica mais hoje, ou então envolvidas em pedaços de papelão.

Assim vai se conformando o problema da grande desigualdade social que existe exatamente nas maiores cidades, aquelas que são mundializadas, segundo a apologia da globalização – uma estratégia do Primeiro Mundo para dominar todos os países do Terceiro Mundo. Na época em que o colonialismo estava em todas as partes e a Europa controlava o mundo, existiam três tipos de colônia: Colônia de Povoamento, Colônia Estratégica (Suez, Panamá, o Saara) e Colônia de Enquadramento. A Índia, por exemplo, era uma Colônia de Enquadramento burocrático e militar, porque os ingleses não iriam povoar um lugar extremamente povoado com grandes e antigas tradições. E agora, o que eles querem para nós? Querem que sejamos um tipo de Colônia de Enquadramento Estratégico para eles, porque seria um enquadramento exclusivamente econômico e financeiro. É isso que está acontecendo, e as elites brasileiras colaboram.

Alguns ganharam muito com a verticalização dos prédios, ainda que ninguém more neles e que muitos apartamentos sejam adquiridos para patrimônio de tipo especulativo. O dinheiro vai para o exterior por diversos mecanismos e o Brasil não tem recursos para investimentos. Existe uma desindustrialização na cidade de São Paulo e o comércio aumenta. A sedução das grandes cidades também adquire fóruns extraordinários, desde a criancinha, moços, pessoas de meia idade até os idosos. A sedução de uma cidade já era importante porque, diferentemente dos campos, ela tinha o dia e a noite. A noite do lazer no passado, dos cinemas e, agora, os shopppings centers; é a geração dos shoppings, que seduzem as pessoas e vão criando uma outra mentalidade. O cineminha não existe mais; existe, agora, o medo da violência – assunto que exige um tratamento especializado. Hoje as cidades têm seus cinemas dentro dos shoppings e seu comércio mais variado e tem, também, a potencialidade criminosa de alguém que – desesperado – chega numa saleta de cinema e consegue atirar em várias pessoas.

Para lhes deixar uma mensagem final, digo que estou desesperado com a vida urbana, especialmente a vida dos pobres nas grandes cidades. Um dia ouvi uma menina pequenina dizendo para a sua mãe isoladamente: "Mãe, mas nós não temos nada enquanto outros têm tudo"! Isso não é de fazer chorar?

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Aziz Ab’Saber é geógrafo e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Este texto é fruto de sua palestra na I Conferência Nacional das Cidades, realizada em dezembro de 1999 na Câmara dos Deputados, Brasília.

http://www.camara.gov.br/inacioarruda/aziz.html


A TEORIA GAIA E GESTALT
Luiz Lira
Geólogo, Prof. do Departamento de Pesca da UFRPE


A percepção de que o planeta Terra, com idade de 5,0 bilhões de anos é um ser vivo, pode ser um instrumento importante para a materialização da relação organismo/ meio da gestalt terapia.

A teoria Gaia, de James Lovelock, afirma que "a Vida e a Terra evoluem juntas, excluindo o paradigma da visão científica convencional onde reina o apartheid entre os vários campos das disciplinas ambientais. A proposta dessa nova-antiga visão é fazer uma síntese das contribuições da geologia, geoquímica, biologia evolutiva e climatologia, transformando as concepções gregas da Terra, enquanto deusa viva - - numa teoria fundamentada cientificamente e apoiada em um nova disciplina, a geofisiologia". Por outro lado, apresentar o planeta Terra como Gaia - Mãe Natureza - de forma compreensível e tentar levantar algumas questões que mostrem a famosa relação organismo-ambiente e as dinâmicas fronteiras de contato é, para um geólogo, uma tarefa difícil e porque não dizer audaciosa . Perls dizia que não é posível analisar um ser humano independente do oxigênio que ele respira. Mesmo que suas palavras não devam ser tomadas ao pé da letra, o oxigênio, elemento chave para a existência da vida, está presente na atmosfera numa percentagem de 20,8%. Se sua concentração estivesse acima desse valor, qualquer faísca poderia transformar o planeta numa bola de fogo, valores abaixo, acarretaria uma deficiência desse elemento para muitas espécies que não sobreviveriam inclusive, a nossa. As algas microscópicas que vivem nos ambientes aquáticos, espcialmente nos oceanos - fitoplancton - são as maiores responsáveis pela regulagem do percentual de oxigênio na atmosfera. Elas se beneficiam da "tecnologia"conhecida como fotossíntese, que é a transformação do CO2 em oxigênio livre, na presença da luz solar. É preciso ressaltar que os vegetais são os nossos "'orgãos externos da respiração. Eles retiram o C02 e fornecem o oxigênio, elemento insdispensável para a vida animal. Da mesma maneira, sem os animais, as plantas também morreriam, porque nós devolvemos à atmosfera o C02, o mais importante "alimento" das plantas. Todos sabem da importância da respiração e da necessidade de respirar um ar de qualidade, hoje difícil nos grandes aglomerados urbanos. Até que ponto o não saber respirar corretamente ou respirar um ar contaminado interfere no comportamento humano?

Um outro exemplo que demonstra que a Terra funciona como um organismo vivo, é fornecido pela salinidade da água do mar. O mar é salgado devido a quantidade de sais dissolvidos na água que chegaram e chegam a esse ambiente através das erupções vulcânicas e do aporte de águas continentais. Se considerarmos os últimos 18 milhões de anos, a quantidade de sais lançados aos oceanos já seria suficiente para transformar todos os oceanos em um verdadeiro mar morto,com valores de salinidade acima de 40%o. Entretanto, a quantidade média de sais na água do mar permanece, desde a origem dos oceanos, em 35%o, porque os organismos microscópicos que habitam o ambiente marinho concentram o excesso de sais, permitindo que exista vida. Como se sabe, a origem da vida se deu a 3 bilhões de anos nos oceanos, e nós somos, à luz da teoria da evolução de Darwin, filhos desse grande útero materno.

Considerando a quantidade de água que cai na Terra ao longo de sua história geológica, ela seria suficiente para tornar o pH de todos os solos com a existência de vegetação. Entretanto, a presença de bactérias e outros microorganismos nos solos não permitem que estes fiquem estéreis, e assim possibilitam a presença da cobertura vegetal que interfere sobre o clima e, consequentemente, sobre a vida. Não fossem os mecanismos utilizados pelo fitoplâncton, zooplancton e pelos microorganismos do solo, não existiria vida no planeta Terra e nós certamente não estaríamos aqui.

Percebendo a Terra como um ser vivo, Peter Russel, advoga que nós, seres humanos, constituímos as células do cérebro do planeta. Seria o inconsciente coletivo de Jung, produto do pensamento dos 5 bilhões de células que formam o cérebro global da Terra viva? Os desequilíbrios do planeta provocados pela emissão de gases estufa na atmosfera, chuvas ácidas, buraco na camada de ozônio, desmatamentos, extinção de espécies animais e vegetais, etc, não sugerem que o ser humano, como célula do cérebro do planeta, esteja naturalmente desequilibrado e precisando cada vez mais de abordagens psicológicas que o coloque visceralmente em contato com os princípios de sua evolução biológica? Inserir, sempre que possível, técnicas que levem o homem ao contato com o ambiente natural, não seria um instrumento importante na abordagem da gestalt terapia?

Saber que nós somos o planeta, materializado quando estamos em "awareness" com Gaia, é sem dúvida um elemento importante na utopia de uma vida harmoniosa.

Para mais informações mande um e-mail para o Prof. Luiz Lira: luizlira@elogica.com.br

http://www.elogica.com.br/users/luizlira/gaia.htm


Paraíso

José Paulo Paes

 

Se esta rua fosse minha,

eu mandava ladrilhar,

não para automóvel matar gente

mas para criança brincar.

 

Se esta mata fosse minha,

eu não deixava derrubar.

Se cortarem todas as árvores

onde os pássaros vão morar?

 

Se este rio fosse meu

eu não deixava poluir.

Joguem esgotos noutra parte,

que os peixes moram aqui.

 

Se este mundo fosse meu,

eu fazia tantas mudanças

que ele seria um paraíso

de bichos, plantas e crianças.

 

[Paes, José Paulo - "Poemas para Brincar" - São Paulo, Ática, 1991 - 4a. edição.]


CLUBE DAS IDÉIAS
Palestra
8ª Reunião do Clube das Idéias

Palestrante: Samuel Murgel Branco
"CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL"

Eu queria agradecer ao Arq. Bruno Padovano pelo convite. Eu já tive contato anterior para trabalhar-mos juntos, e o parabenizo pela existência desse grupo de Idéias, extremamente sugestivo, e pelos propósitos dessa reunião.

Fui convidado para fazer uma palestra técnica sobre a "Reciclagem", e eu disse: "Bruno, você vai me desculpar, mas eu já estou fora disso, eu já não dou mais consultoria". Acontece que fui professor na USP-Universidade de São Paulo até 1990, e ainda durante dois ou três anos eu dei consultoria, mas atualmente estou completamente afastado. Mas para não dizer que estou parado totalmente, tenho uma outra atividade diferente que é a de escrever livros infantis. Eu disse isto ao Bruno, mas ele se interessou na minha linha editorial na área do Meio Ambiente, que tem sido a minha área de atuação durante quase quarenta anos, e que agora estou transmitindo para as crianças. Então ele disse: "Mas é isso mesmo que nós queremos: uma coisa assim informal e a sua experiência nessa linha da educação atividade ambiental"; e eu vim a aceitar o seu convite.

Bem, eu vou começar contando da minha vivência, da minha história dentro do Meio Ambiente. Eu sou biólogo de formação, com conhecimento da natureza e logo que me formei na década de 50, eu tive meu primeiro emprego no Departamento de Águas e Esgotos do Estado de São Paulo. Meu setor específico de atuação foi a CETESB, porque era o setor de laboratório. Eu atuava no laboratório daquele prédio da Secretaria de Obras, e trabalhava então na área industrial. Nessa época, o Nestor, técnico da divisão de tratamento, achou que precisava de um biólogo para trabalhar na qualidade de água, e o convite foi formulado à Faculdade, e eu era recém formado. Ele não conhecia nada de tratamento de água desses processos todos de tratamento, então eu tive que passar por um aprendizado ali; um pouco o pessoal me ajudou, e em boa parte eu fui lendo livros e participando do trabalho de tratamento de água e passava os dias lá dentro vendo como isto funcionava. Aí descobri uma linha de problemas gerados pelo crescimento de microorganismos e algas: um problema biológico, varias ações de decomposição da água. O desmatamento, por exemplo, leva a um desequilíbrio das condições ecológicas do lago, geralmente represas. isto leva a um surto crescimento de algas e cria problemas seríssimos. No mínimo, aparece um mal gosto na água, e tem algas que são tóxicas e algas que entopem o sistema de tubulação.

Então, eu permaneci durante dez anos fazendo pesquisa de qualidade de água e me aprofundei num conceito de poluição de água. Depois, passei a me dedicar mais a estes estudos que se tornaram uma especialidade da minha produção acadêmica. Fui fazendo pesquisa sobre processos biológicos para tratamento em indústrias. Três anos depois que estava no Daee, fui convidado pela universidade para dar aulas sobre esse assunto para os engenheiros no Instituto de Pós-Graduação na Faculdade de Saúde Clínica. Foi o início da minha carreira acadêmica; nesta época não havia condições de dar este curso na Universidade. Nos cursos de Pós-Gradução tinha essa disciplina de Biologia, excelente para se apresentar os conceitos biológicos profundos em processos de degradação ambiental. Eu acho que a minha contribuição, principalmente para a engenharia sanitária, que era uma engenharia civil aplicada no saneamento, foi a de transformá-la numa engenharia de processo. A engenharia sanitária era uma engenharia de projeto. Dimensionava-se, por exemplo, um tratamento de esgotos como uma caixa preta, a partir de informações que se tinha sobre dimensionamento, ou tempo de retenção ou necessidade de oxigênio e quantidade de ar no esgoto, para este sair tratado do outro lado.

Agora, o projeto não era em si a preocupação dos engenheiros e essa foi, assim, a minha principal contribuição: abrir essa caixa preta e investigar e discutir e explicar como os organismos físicos interagem entre si, como é que se dá o processamento da matéria orgânica dos esgotos. Eu passei um período trabalhando em São Carlos. Eu já era professor titular, e recebi o convite de projetar e construir um grande laboratório de pesquisas da USP, ligado à Escola de Engenharia de São Carlos.

Fui para lá para ficar um ano, mas acabei ficando dez, de 73 até 83, e, neste período, construí o serviço de lá. É um Instituto que funciona junto à represa da Universidade. Passados dez anos, voltei para São Paulo, em 83, quando Montoro foi governador. Ele me convidou para ser diretor de pesquisas da CETESB, então eu fiquei mais ou menos uns quatro anos. Voltei depois para a Faculdade de Saúde Pública para completar a minha tese e me aposentar.

A razão de eu pedir minha aposentadoria foi que eu achei que a questão ambiental, hoje, não é mais tanto a descrição de desenvolvimento tecnológico. Existe à disposição da sociedade uma tecnologia suficiente e competência no Brasil. O que falta é justamente uma motivação que leve as pessoas à fazerem modificações de forma geral. Motivação do governo, dos industriais e enfim, em última análise, a questão da consciência.

É interessante que quando eu saí da CETESB e voltei à dar aula na Universidade, um conhecido meu de Cotia dizia: "Você vai voltar à dar aula? Então faça o seguinte: não ensine mais esses detalhes do seu livro. Isso ai qualquer pessoa dá; ensine filosofia. É justamente essa questão de conscientizar. Agora, conscientizar adultos, que já tem uma maneira, uma vida com uma determinada filosofia, o seu dinheiro de uma uma maneira tranqüila ou mais ou menos tranqüila, não vai ser fácil".

Então eu resolvi investir em crianças, mais na consciência da criança. Tem um amigo meu que é professor de química na Universidade de São Paulo, que é dono da Editora Moderna. Ele é uma pessoa de idade, tem representação no Brasil inteiro e é um dos maiores editores de livros no Brasil, exclusivamente livros voltados para o ensino. Ele me disse: "Olha, nós temos uma coleção de livros para-didáticos, livros que são lançados para ajudar a professora a dar alguma matéria a mais, e não temos nenhum título sobre o Meio Ambiente. Será que você não quer tentar fazer?" E eu aceitei. Gosto muito de escrever e fiz essa coleção para o colegial uma coisa mais adulta. Então saiu esse meu primeiro livro que se chama: "O Meio Ambiente em Debate". Esse livro teve sucesso e eles me pediram outro sobre a Amazônia (eu trabalhei bastante na Amazônia, assessorando principalmente a EletroBrás e a EletroNorte).

Veio o desafio maior: quiseram lançar agora uma coleção infantíl e com livros meus: "Você é capaz de escrever para criança?" me perguntaram. Eu respondi: "Bem, posso tentar, eu contei histórias para os meus filhos, agora para os netos, não custa nada botar isso no papel como se tivesse contando história". E aí saiu o primeiro livro, vai fazer seis anos. Esse aqui é o meu best seller: "Aventura de uma gota d'agua". É uma explicação para a criança do círculo hidrológico e eu fiz da seguinte forma: uma gotinha d'agua contando a sua vida; então ela contando para a criança, essa criança é minha neta, a Carolina. Então a gotinha conta como ela nasceu na nuvem a partir de gotinhas depois caiu na forma de chuvas, depois o trajeto que ela seguiu dentro da terra ou as alternativas que tinha de parar em alguma planta até sair numa nascente, dessa nascente foi para um riozinho e dali para um rio maior, chegou até uma cidade e ajudou aos homens, porque ela virava os moinhos, virava as rodas d'aguas e depois recebeu a ingratidão dos homens naquela forma de esgotos da cidade e foi descendo e passou na cachoeira num processo de auto reestruturação, aí ela tomou folego novamente e no fim ela estava no mar, e no mar ela já estava velhinha, agora ela ia subir e voltar para o céu novamente.

O livro foi lançado numa Bienal aqui em São Paulo e teve um sucesso enorme. Já está em quadragésima edição, quarenta e cinco mil exemplares. Já é uma coisa considerável e eu me sinto extremamente feliz, por vêr que a criançada lê, porque muita gente fala que a criançada gosta mais de ver televisão. Não é bem assim: hoje com uma atividade que surgiu eu torno do livrinhos, recebo muita correspondência, uma coisa incrível, uma pacote do Brasil inteiro e convites para fazer palestra para a criançada em todo Brasil. Então eu pedi para uma moça lá da editora fazer uma agenda: todos os convites tem que ser dirigidos à editora. Ela entende e sabe quais são as minhas condições, eu gosto de no máximo umas duas palestras por mês, então ela faz minha agenda e recebe todos os meus convites. Em função disto é que descobri que a criança tem um potencial enorme, uma curiosidade incrível de aprender o que puserem na mão dela. Em vez de colocar uma televisão de qualquer programa, você leva ela para ver o jardim......

Depois desse livro sobre a gota d'agua eu fiz uma série sobre o meio ambiente. Começa com o ambiente da casa e o ambiente da casa é aquele que a criança está familiarizada. Só que a noção que a criança tem do ambiente da casa é de coisas isoladas. Então, a finalidade desse livro é mostrar que tudo que está dentro de uma casa está relacionado ao ambiente, que cada coisa tem a sua função. Se uma casa tem geladeira , tem um fogão, tem o telhado e a parede, cada coisa tem a sua função e essas funções estão relacionados.

O livrinho seguinte é o ambiente do quintal. Aqui está uma amostra da natureza. No quintal também existem as funções que são relacionadas e é uma coisa interessante que gente que passa todo dia pelo quintal nunca para para observar; por exemplo, uma borboleta voando pelos ares, uma aranha construindo a sua teia. Mas tem tudo isso, tem um curso completo de colegial se você observar o jardim. Não é que seja uma floresta amazônica. O próprio jardim, por pequeno que seja, está ao alcance da criança. Só precisa orientá-la. O aquário, tudo isso tem uma orientação, é descobrir o potencial da criança para um aprendizado útil. Nessa atividade que ensina o meio ambiente através da educação ambiental, eu acho muito importante que a gente não fique ditando regras. Se a gente disser: "Não pode poluir, não pode cuspir no chão, não pode fazer isso, não pode fazer aquilo!", isso é um convite à fazer. Tudo que a criança recebe como ordem é um convite para bordoar. Então o que eu faço é ensinar, o que é a natureza como ela é, como funciona, como ela resolve os seus próprios problemas....... Porque, quando a criança percebe tudo isso, ela mesmo vai saber o que ela pode o que ela deve fazer com relação à natureza. Não adianta ditar regrinhas sem um fundamento interior.

Já esse livro "Ecossistêmica - Uma abordagem integrada dos Problemas do Meio Ambiente" não é para criança. Esse é um livro que eu fiz no último ano da minha atividade acadêmica, procurando um ponto de vista. Depois de uma carreira acadêmica, o que a gente mais faz é repetir o que está nos livros, alguma experiência. É aí que a gente tem uma visão filosófica do problema.

Resumindo, a palavra "Ecologia" foi desvirtuada. Na Ciência, a biologia é um capítulo importante que trata da relação entre organismos vivos. Dos anos 70 em diante o movimento preservacionista, que tem grandes méritos mas não é científico, criou algumas distorções. Para fins eleitoreiros, o tema ecológico se demonstrou eficaz e acabou gerando muito dinheiro e as ONG's, muitas das quais projetaram pessoas mais do que ajudaram, de fato, na equação dos problemas.

Houve, assim, um desvio de conceitos. É o caso do Greenpeace contra a política atômica da França - a postura do Greenpeace é cientificamente incorreta, pois o grande problema da bomba atômica é que se trata de uma arma altamente ofensiva e destrutiva.

A tendência é que a ética por trás das coisas seja uma obrigação para a sociedade, e assim podemos inserir a preservação de animais e espécies vegetais. Há inclusive exemplos interessantes na história sobre a ética e o meio ambiente. Na idade media, houve casos de processos feitos pela população contra as pragas, que eram intimadas a comparecer no tribunal. Era alocado um advogado da defesa, e, mesmo na ausência destas, as pragas acabavam ganhando, o que levava a população a fazer penitência.

Houve um caso em que as sanguessugas, objeto de um processo formal, perderam a causa e a sentença foi de se excomungá-las através de um padre que foi até o lago para fazê-lo. Assim, podemos dizer, nasceu o conceito do "direito das coisas"- nos Estados Unidos por exemplo, os morros tem direito de estar onde estão.

Isto nos leva à questão a ser discutida hoje: o paradoxo da "descartabilidade". O melhor produto, hoje, é aquele que tem a menor duração. Antes era precisamente sua durabilidade. Houve uma distorção de valores, o que explica o imenso volume de lixo e o problema de sua eliminação.

Na realidade, na questão ambiental, existe a tecnologia, mas falta o planejamento, equacionar disponibilidade reais com necessidade reais. O equilíbrio é fundamental - o lixo se enquadra neste conceito. Usar o maior numero de vezes os produtos extraídos da natureza.

A cidade hoje está fora do ciclo natural. É só consumo. Às vezes coisas vem de fora e não há um retorno às suas origens. Este fluxo contínuo de fora para dentro gera o lixo, jogado nos rios. Esta enorme acumulação energética gera fenômenos como as ilhas de calor, a entropia urbana. Os sub-produtos deveriam voltar ao campo, ajudando a agricultura; no lugar disto, é necessário usar adubo.

É isto que queria dizer, e me coloco à disposição para discutirmos o tema juntos. Obrigado.

Samuel Murgel Branco é biólogo, professor aposentado titular de ecologia aplicada, na Universidade de São Paulo e professor honorário da Universidade Nacional de Engenharia do Peru. É membro titular de várias sociedades científicas bem como das academias de Ciências de São Paulo e de New York, tendo ministrado cursos de sua especialidade em vários países, geralmente na qualidade de consultor internacional da Organização Mundial da Saúde. Há 30 anos dedica-se profissionalmente à pesquisa, ao ensino e à consultoria técnica relacionados com os problemas e o conceito de Impactos Ambientais. É autor de vários livros didáticos e especializados sobre a matéria.
 
 http://www.idea.org.br/programas/08.htm


A cidade como ecossistema

  Cidade x Natureza?

 Nos acostumamos a pensar na cidade como criação humana totalmente separada do
 ambiente natural e a ele imposta. Nossa cultura carrega o mito de um confronto
 permanente do ser humano com uma natureza hostil: ameaças de tempestades ou
 estiagens, calor de ferver ou frio de rachar, maremotos, terremotos ou simplesmente
 mosquitos, forças da natureza contra as quais a civilização se defende com suas
 armas de concreto, asfalto e eletricidade.

 Domar a natureza é o primeiro entendimento que temos de um processo de
 urbanização. O próprio visual de uma ocupação urbanística do ambiente natural
 lembra metáforas guerreiras: os tratores, as britadeiras e a dinamite são os tanques,
 morteiros e metralhadoras dos exércitos da construção civil. Esta relação de conflito
 e submissão entre a cidade e seu berço natural povoa o senso comum.

 No entanto, se conseguimos refletir melhor, percebemos que a cidade não constitui
 algo tão separado da natureza. A criação do homem interage incessantemente, para
 o bem ou para o mal, com o ambiente natural que a rodeia e envolve.

 No ambiente construído, a natureza não chega a desaparecer; permanece à vista e
 não está apenas nas árvores e áreas verdes das ruas, das praças, dos parques, dos
 jardins e até mesmo dos terrenos baldios. Está no ar, nas águas dos rios, canais e
 lagoas; está na fauna, nos insetos e nos microorganismos que convivem conosco no
 ambiente urbano.

 As nossas construções são assentadas sobre uma geologia específica, que tem
 influência sobre tudo o que vai acontecer com elas e os seres humanos que as
 habitam.

 Os materiais utilizados nelas (areia, terra, rocha, pedras, mármore, concreto, asfalto)
 pertenceram ao entorno natural. Sua extração tem certas conseqüências, da mesma
 forma que o modo como o homem os utiliza, dando forma aos projetos
 arquitetônicos.

 A impermeabilização do solo, as concentrações de edifícios, os desmatamentos em
 encostas ou margens de rios, o assoreamento e a retificação ou canalização de rios
 são ações que afetam o ambiente natural de uma determinada maneira.

 Se a ação do homem tende ao desequilíbrio, o ambiente natural certamente reage,
 trazendo efeitos inesperados para o ambiente construído e seus ocupantes:
 inundações, secas, microclimas adversos, erosão, desabamentos, enchentes,
 voçorocas, ambientes internos insalubres.

 Uma relação sutil e delicada

 No livro "The Granite Garden" (1), a paisagista e planificadora ambiental americana
 Anne Whiston Spirn assim descreve esta relação sutil e delicada entre o ambiente
 natural e o construído:

 "A natureza é um todo contínuo, com o ambiente selvagem num pólo e a cidade no
 outro. Um mesmo processo natural opera tanto no ambiente selvagem como na
 cidade. O ar, por mais poluído que esteja, é sempre uma mistura de gases e
 partículas em suspensão. Pavimentação e construção de pedra são sempre
 compostas por rocha e afetam a transmissão de calor ou o curso das águas
 exatamente como as superfícies de rocha expostas em qualquer lugar. As plantas,
 nativas ou exóticas, invariavelmente buscam a combinação de luz, água e ar para
 sobreviver. A cidade nem é totalmente natural, nem totalmente construída. Ela não é
 "desnatural", mas a transformação da natureza "selvagem" pela humanidade para
 servir suas próprias necessidades."

 "Infelizmente, a tradição colocou a cidade contra a natureza e a natureza contra a
 cidade. A crença de que a cidade é uma entidade separada da natureza e até
 contraposta a ela vem dominando a forma pela qual a cidade é percebida e continua
 a afetar a forma pela qual ela é construída. Esta atitude agravou e até mesmo criou
 muitos dos problemas ambientais da cidade: ar e águas poluídos, recursos exauridos
 e esgotados, inundações mais freqüentes e mais destrutivas, demanda energética,
 custos de construção e de conservação crescentes. Enquanto as cidades crescem,
 tais questões se tornam mais prementes. No entanto, elas continuam a ser tratadas
 como fenômenos isolados e não interligados, provenientes das atividades humanas
 coletivas e exacerbadas pelo desacato aos processos naturais."

 "A cidade precisa ser reconhecida como parte da natureza e desenhada de acordo
 com isso. A cidade, os subúrbios e a periferia rural precisam ser vistas como um
 único sistema evolutivo dentro da natureza, da mesma forma que, individualmente,
 todo parque ou edifício, dentro do todo mais amplo. A natureza na cidade tem que
 ser cultivada, como um jardim, e não ignorada ou subjugada."

 O exemplo dos esquimós

 Assimilar este conceito básico, de que a cidade faz parte da natureza, é o primeiro
 passo necessário ao gestor ambiental municipal, pois aí está o ponto de partida da
 sua atividade relacionada com a ecologia urbana.

 Uma edificação, ou o conjunto de edificações, precisa se moldar de forma harmônica
 e interagir convenientemente com seu entorno natural. Diversos aspectos devem ser
 analisados: local, materiais e formas apropriadas, ventilação, mínimo desperdício de
 energia, águas limpas e saneamento, gestão dos resíduos.

 Desde cedo, na história da humanidade, algumas pessoas mais atentas ou estudiosas
 perceberam que certo tipo de intervenção é compatível com o meio ambiente e
 produz soluções apropriadas, fazendo com que a relação entre ambiente natural e
 ambiente construído tenda ao equilíbrio, enquanto outros tipos trazem
 conseqüências adversas.

 Em certas épocas e culturas, esta noção chegou a ser incorporada ao ambiente
 construído. Em outras, foi perdida. O exemplo mais extremado de adaptabilidade de
 uma construção à natureza é o iglu.

 Uma casa de gelo que protege o ser humano do frio parece totalmente inverossímil.
 No entanto, a casa dos esquimós é uma grande solução ecológica. As construções
 mouras e gregas no Mediterrâneo, a arquitetura tradicional do norte da Europa e a
 tenda nômade no deserto são outros exemplos.

 A arquitetura colonial portuguesa também se adaptava bem às nossas condições
 climáticas. Era ao mesmo tempo simples e engenhosa, sobretudo quando comparada
 a certo lixo arquitetônico "modernoso", que não consegue funcionar sem
 climatização e iluminação artificial, e que depende totalmente de um gasto
 desmedido de energia elétrica, criando ambientes internos insalubres,
 desagradáveis e depressivos.

 Nossos índios também podem ser citados. Quando os portugueses aqui chegaram, há
 quase 500 anos, havia 6 milhões de pessoas que cortavam árvores, caçavam e
 abriam roças. No entanto, as paisagens foram definidas pelos colonizadores como
 "paradisíacas". Os índios, na verdade, interagiam com a natureza, dela tiravam seu
 sustento, mas desenvolveram formas sustentáveis de ocupação.

 Em busca da felicidade

 Torna-se vital compreender, ainda, que a cidade é um ecossistema, e que, vista
 assim, ela transcende a relação entre o ambiente natural e o ambiente construído.

 A cidade também pode ser vista como um evento econômico, social, cultural e
 existencial que se expressa numa incessante teia de relações humanas e de trocas
 comerciais, culturais, funcionais e afetivas. É o palco de uma busca coletiva de
 satisfação, de felicidade.

 Segundo o autor australiano David Engwicht (2), em "Towards in ecocity: Calming the
 Traffic", "as cidades foram inventadas para facilitar a troca de informação, amizade,
 bens materiais, cultura, conhecimentos, intuições, técnicas e apoio emocional,
 psicológico e espiritual. Esta troca é mais difícil se as pessoas estão todas espalhadas
 pelo campo. As cidades são uma concentração de gente e estruturas que possibilita
 viabilizar as trocas mútuas."

 "As cidades são, ainda, o reconhecimento de que, se estamos destinados a crescer
 para realizar nosso potencial pleno, precisamos daquilo que os outros podem nos
 dar. A cidade é, consequentemente, um ecossistema, tal qual uma floresta tropical:
 tudo está relacionado e é interdependente."

 A resposta ecológica aos problemas das cidades não está em escapar delas, mas em
 "esverdeá-las", encarando-as como ecossistemas doentes, que precisam ser
 reequilibrados.

 Para tanto, é necessário estabelecer uma relação de respeito entre o espaço
 construído e seu berço natural, desenvolver a urbanização ou a reurbanização de
 modo a eliminar conflitos com a natureza e fazer da cidade um espaço democrático,
 ecumênico, plural, de rica diversidade humana, onde possam se realizar ao máximo
 os anseios e os sonhos de seus habitantes e um desenvolvimento sustentável que
 traga benefícios para todos.

 O papel das calçadas

 Para a urbanista norte-americana Jane Jacobs (3), no famoso "The Death and Life of
 Great American Cities", as calçadas são o palco de um indispensável contato
 "casual", superficial, utilitário ou fortuito, onde cruzamos e interagimos com pessoas
 que não conhecemos, mas com as quais compomos uma rede de interações
 humanas, úteis e saudáveis, que caracteriza o espaço público.

 O papel da rua, de uma calçada movimentada, torna-se mais claro se observamos
 seu oposto, a "não-rua". Ela pode ser uma avenida para automóveis, entre
 condomínios distantes, ou as avenidas de Brasília. Um vazio onde poucos se
 aventuram a pé, onde não chega a ocorrer interação urbana. Nos condomínios, atrás
 de grades e portões vigiados, as mesmas pessoas, da mesma classe social, convivem
 entre si, e uma nova geração se forma sem qualquer contato com a diversidade.

 Por outro lado, podemos imaginar também ruas de uma tipologia mais tradicional,
 com edifícios baixos e diversidade de usos, mas que são vítimas do tráfego pesado,
 cada vez mais perigoso, engarrafado e poluente em certos horários, rápido e
 perigoso em outros. Não contentes em estreitar ao máximo as calçadas, os
 automóveis passam a ocupá-las, expulsando os pedestres para a pista de rolamento.

 O comércio lojista entra em decadência e vai morrendo, pouco a pouco, em função
 da calçada inóspita, ou pelo poder de atração de um shopping vizinho. Os
 moradores já não convivem mais no espaço da rua. Entram e saem apressados das
 suas residências desvalorizadas. Sonham em sair dali. Crianças na rua, terceira
 idade, nem pensar.

 Tudo muito poluído, barulhento, sem espaço e inseguro. A calçada vazia passa a ser
 dominada sem maior disputa por flanelinhas, pedintes e, mais tarde, meliantes
 ameaçadores, violentos. Um assalto, um estupro, ninguém sabe, ninguém viu, e a
 rua afunda na sua decadência.

 A resposta do ecourbanismo

 Infelizmente, tais pesadelos assolam nossas cidades, em maior ou menor grau. E
 demandam uma resposta urgente. Assumir que a rua, a calçada, são a base
 potencialmente geradora de urbanidade e a molécula do ecossistema urbano, é um
 dos grandes desafios do ecourbanismo.

 Ruas com vida, diversidade e interesse costumam compor bairros sadios, de moradia
 atraente, e cidades sem exclusões. O oposto, como descrito acima, representa a
 cidade adversa, inimiga da natureza e do homem, que passa a ser vítima de suas
 próprias ações, especialmente do "progresso a qualquer custo".

 É importante, para o gestor ambiental e o poder local, trabalhar no sentido de
 viabilizar bairros que sejam, cada um deles, um microcosmo das funções essenciais
 e da diversidade da cidade. Bairros com usos múltiplos e compatíveis: residência,
 comércio, diversão, serviços bancários, serviços culturais, equipamentos públicos,
 áreas verdes, região administrativa.

 O papel do poder local é ajudar os bairros a cultivar sua personalidade própria e
 estabelecer uma relação de respeito com a natureza.

 David Engwicht (4) define algumas medidas para equilibrar o ecossistema urbano nos
 bairros:

      - Definir espacialmente o bairro, com auxílio de limites naturais;

      - Definir uma área central, em torno da qual se desenvolve o bairro, com
      centro comercial, posto da administração municipal, equipamentos culturais e
      ponto de referência de transporte público;

      - Qualificar o bairro com intervenções que reforcem sua identidade;

      - Fortalecer a vitalidade das ruas;

      - Melhorar as condições de deslocamento interno, permitindo o uso de
      bicicletas e facilitando a vida de quem deseja caminhar;

      - Dar aos bairros maior influência nas decisões que lhes dizem respeito.

 A cidade e a periferia

 Além das idéias de uma cidade inseparável da natureza sobre a qual está assentada
 e da cidade como um ecossistema humano, uma outra dimensão entra em cena: a
 relação holística entre a cidade e a sua periferia.

 Da mesma forma que, muitas vezes, não compreendemos o vínculo do ambiente
 construído com o natural, também nos escapa a relação entre a aglomeração urbana
 e a sua periferia.

 Nesta estão, muitas vezes, as áreas verdes que mitigam o clima da cidade; os
 mananciais que asseguram o abastecimento de água; as regiões de baixada que,
 com bacias de acumulação de águas pluviais, evitam ou aliviam inundações; as
 zonas agrícolas destinadas a alimentar a cidade; as áreas destinadas a receber os
 resíduos sólidos produzidos; e as reservas destinadas à extração dos recursos
 minerais necessários à cidade.

 Tais atividades são simultaneamente indispensáveis e potencialmente permeáveis
 ou geradoras de danos ambientais que, mais cedo ou mais tarde, se voltam contra os
 habitantes das cidades e das periferias. Elas requerem um zoneamento bem pensado
 e técnicas sustentáveis.

 Por isso, a periferia não pode ser tratada como terra de ninguém, mera sucessão de
 terrenos baldios ou matos inúteis com vocação para vazadouro, areal ou zona
 industrial. Ela precisa ser entendida na sua função ecológica primordial, em relação
 à cidade, e preservada para os usos característicos das zonas periféricas.

 No Brasil, essas áreas periféricas geralmente são imensas, o que torna seu
 zoneamento criterioso perfeitamente viável. Mas este precisa ser pensado,
 planificado e executado seriamente, evitando um cenário tristemente comum, de
 crescimento caótico e ocupação desordenada, ao sabor das conveniências
 imediatas.

 Por outro lado, os municípios de periferia, que possuem seus próprios aglomerados
 urbanos, sofrem muitas vezes as conseqüências da vizinhança com cidades maiores,
 que, por exemplo, usam seu território como vazadouro de lixo a céu aberto.

 Da mesma forma, rios que abastecem de água determinada cidade passam antes por
 outros municípios e, eventualmente, outros estados, onde recebem efluentes com
 poluição doméstica ou industrial. Aí se evidencia a demanda por mecanismos de
 coordenação e controle ambiental intermunicipais, por região metropolitana ou
 bacias hidrográficas.

 Com a mão na massa

 O poder local dispõe de instrumentos para intervir na economia urbana, em geral, e
 na imobiliária, em particular. Pode encontrar mecanismos tributários de incentivo e
 penalização, para implementar políticas adequadas, embora isso lhe valha, em
 muitas situações, confrontos com o poder econômico e as mentalidades reacionárias,
 ou, ainda, situações clientelistas, corporativas e vícios populistas.

 Se queremos adensar uma área bem servida de infra-estrutura, mas com escassa
 moradia e pouca diversidade, a taxação progressiva de terrenos não aproveitados e
 a flexibilização de usos, aliadas a uma redução do IPTU residencial e comercial no
 bairro, podem ser alavancas interessantes.

 Se almejamos, pelo contrário, o crescimento zero de um bairro saturado, temos
 outros mecanismos, inclusive limitar o crescimento apenas ao mesmo gabarito e
 densidade do que vier a ser demolido.

 Uma questão crucial, assim, é a relação entre o poder local e o capital imobiliário,
 cujos investimentos tanto podem segregar e desintegrar, gerando desequilíbrio,
 quanto harmonizar e agregar, gerando equilíbrio.

 Jane Jacobs (5) faz uma distinção entre dois tipos de investimento imobiliário, "o
 dinheiro gradual e o dinheiro cataclísmico", um capaz de contribuir para uma
 renovação saudável da diversidade, tendendo à melhoria da qualidade de vida, e
 outro responsável por amplas degradações ambientais ou do tecido urbano, com
 efeitos entrópicos.

 Dois aspectos devem ser observados: o primeiro é a qualidade ecourbanística do
 investimento; o segundo, a tipologia das edificações em pauta. Esta diz respeito,
 muitas vezes, aos gabaritos das áreas a serem edificadas.

 Em certas circunstâncias, aumentar gabaritos baixos pode efetivamente contribuir
 para preservar áreas naturais no entorno. Em zonas centrais de negócios, onde há
 pouco espaço e essa tipologia já está absolutamente consagrada e integrada à
 paisagem, não faz muito sentido coibi-la.

 A existência de um centro da cidade de tipo nova-iorquino não deixa de ter o seu
 charme. Pode representar um estímulo à diversidade, na medida em que sedes de
 empresas se misturem com equipamentos culturais, restaurantes e áreas
 ajardinadas, e contribui para evitar que outras áreas, com parques e praças, cuja
 preservação é necessária, recebam espigões.

 Prédios altos nem sempre são ruins, embora na maioria das áreas residenciais seja
 ambientalmente recomendável uma escala mais humana.

 A cidade que queremos

 A postura do poder local deve ser severa em relação a soluções arquitetônicas que
 estimulam desperdício de energia e provocam efeitos ambientais adversos. Uma
 coisa é permitir que, numa área já totalmente ocupada por prédios altos, mais
 espigões sejam construídos; outra, é permitir que novas ilhas de calor, corredores de
 ventos fortes ou de inversão térmica localizada se multipliquem indiscriminadamente
 e virem o padrão de ocupação para áreas da cidade onde é possível fazer diferente.

 O Plano de Estruturação Urbana (PEU, conforme denominação usada no Rio de
 Janeiro), contendo os parâmetros edilícios de um bairro específico, deve levar em
 consideração todos esses fatores.

 O que queremos? Vamos criar uma ilha de calor neste local? Um corredor de
 aceleração de uma rota de ventos já existente? Ao contrário, um corredor urbano
 pessimamente ventilado, que vai reter toda a poluição automotiva? Uma sombra
 imensa sobre um parque? A impermeabilização de uma vasta extensão de solo que
 vai provocar inundações?

 E o ambiente interior? Má ventilação, umidade, materiais nocivos para pessoas
 alérgicas ou não, viveiros de ácaros? Sistemas de refrigeração que são culturas de
 bactérias e parasitas variados? Ambientes lúgubres, depressivos, pouco funcionais?
 Edifícios poluídos, desagradáveis, hostis e inseguros?

 Ou vamos estimular edificações solares, internamente amigáveis, de baixo consumo
 energético, que sabem tirar partido da ventilação e da iluminação naturais, que
 estimulam a diversidade da vida, que evitam contribuir para a criação de ilhas de
 calor e que apresentam bacias de retenção de águas pluviais?

 Na arquitetura moderna, abundam exemplos de soluções criativas, inteligentes do
 ponto de vista ambiental e econômicas em termos de consumo de energia, além de
 belas; como também há exemplos de lixo ambiental, desperdício energético e feiura
 chocante.

 Sem ter um controle total sobre isso, o poder público tem uma considerável margem
 de influência e de veto, que pode e deve usar. A regulamentação do mercado
 imobiliário não deve, no entanto, se confundir com um processo moroso, irracional e
 burocratizado que, quase sempre, engendra corrupção e ineficiência.

 É preciso um processo simples, transparente, pedagógico, com critérios muito claros,
 que sinalize objetivamente ao mercado e à comunidade qual é o propósito e quais
 são os critérios e os limites urbanísticos e ambientais pretendidos pelo poder local.

 É preciso, ainda, que exista um debate abrangente, aprofundado, regular,
 descentralizado, em que a população dos vários bairros consiga refletir sobre seu
 próprio ecossistema local, perceber a maneira que ele interage com a cidade como
 um todo e pactuar soluções e regras.

 Este debate faz parte de uma gestão participativa, que passa por conselhos locais,
 conselhos na escala da cidade e pelos mecanismos da Agenda 21 Local. É um
 processo democrático e educativo para os ecourbanistas da Prefeitura, os moradores
 e os construtores e incorporadores. Um campo de diálogo em que arestas são
 aparadas e se busca promover critérios que beneficiem a qualidade de vida de
 todos.

 Nos barracos da cidade

 Em todas as cidades brasileiras, em maior ou menor proporção, encontramos
 também uma cidade informal, composta de favelas, mocambos, vilas e ocupações
 localizadas, de modo geral, em morros, áreas de baixadas e margens de canais ou
 rios.

 A pobreza e a exclusão social são, sem dúvida alguma, desequilíbrios que
 comprometem a existência de um ecossistema urbano sadio. Porém, se a miséria
 sempre está na cidade informal, nem sempre a cidade informal é completamente
 miserável.

 É um erro, por exemplo, ver as favelas cariocas como meros focos de miséria e
 estagnação. Por sua própria configuração, alta densidade, intensa oportunidade de
 trocas e proximidade física em relação à cidade formal, algumas favelas viveram,
 nos últimos 30 anos, um processo de contínuo progresso e mobilidade.

 A vida nessas comunidades, na verdade, está envolta em paradoxos e contradições.
 Há uma certa mobilidade social que dá acesso a novos bens de consumo e espaços
 de moradia mais amplos (em geral, crescimento vertical das habitações). Dentro da
 própria comunidade, opera-se um desdobramento social com uma pirâmide local de
 "ricos", classe média e pobres. Por outro lado, persistem a precariedade no
 saneamento básico, na coleta de lixo e, em muitos casos, os riscos de desabamento
 ou inundação.

 A cidade informal representa um desafio para o gestor ambiental. Algumas medidas
 são fundamentais, e a primeira delas é estabelecer políticas públicas que levem à
 integração com a cidade formal, à transformação da favela em bairro, não obstante
 condições urbanísticas originais.

 Tal medida implica urbanizá-la, melhorar sua acessibilidade, legalizar a posse dos
 terrenos e das edificações, fazendo os novos proprietários pagarem IPTU, ainda que
 reduzido, e manter a presença constante do poder público.

 Implica, ainda construir limites, fronteiras físicas claramente demarcadas entre a
 comunidade e seu entorno natural, proteger as matas de encosta. Naturalmente, tais
 limites físicos, sejam muros, grades ou cercas, como veremos adiante, nada
 garantem se não resultarem de um pacto, com a comunidade, de regulação do
 crescimento.

 Integrar e controlar

 Neste processo de integração, a parte mais complicada é a criação de regras
 específicas e de mecanismos de penalização do descumprimento. Autuar e cobrar
 multa de quem vive na informalidade não é nada fácil. A capacidade do Judiciário
 de punir pequenos delitos é limitada.

 Evidentemente, por razões diferentes, a legislação ambiental e urbanística tem
 dificuldades de ser aplicada contra os muito ricos e os muito pobres. Por outro lado,
 as normas demasiado rígidas, concebidas para uma cidade ideal que não existe, a
 não ser na imaginação do legislador, podem ser um poderoso estímulo à
 informalidade.

 Eduardo Neira Alva (6), no livro "Metrópoles (In)Sustentáveis", afirma:

 "A persistência de normas pouco realistas acarreta um modelo de expansão urbana
 de densidades habitacionais muito baixas sobre terrenos que se incorporam à área
 construída sem planificação alguma e a custos sociais cada vez maiores, o que dá
 ensejo à invasão do espaço público e à crescente segregação da cidade legal. Este
 modelo, irreal para a maioria da população, é o que ainda prevalece, conferindo às
 metrópoles latino-americanas um caráter especial e contraditório, em face de
 normas mais estritas de qualidade ambiental."

 Em todo caso, um aspecto crucial da integração desses bairros informais na cidade
 formal é criar regras próprias de uso do solo e de edificações, adaptadas às
 condições locais e pactuadas entre os poderes públicos, as comunidades e os demais
 interessados. Ou seja, a criação de um código de obras e de um código de
 procedimentos ambientais adaptados àquela realidade específica.

 Por exemplo, um sistema de licenciamento para favelas, com a participação da
 comunidade organizada. Quem pode construir o quê, de que maneira, onde, quais
 as condições mínimas de segurança e conforto ambiental e companhia.

 Sem a extensão da lei, da autoridade, da presença dos serviços públicos, a simples
 urbanização física e a maior acessibilidade não conseguirão reverter a situação,
 correndo ainda o risco de estimular um maior crescimento desordenado sobre áreas
 naturais próximas.

 Dramas ambientais, dramas sociais

 Como percebemos, o problema está não apenas na miséria em si, mas também na
 exclusão, na ausência de vínculos com a cidade formal e com o estado de direito.
 Por isso, a primeira questão relativa a um ecourbanismo no Brasil é fazer com que
 tais espaços marcados pela informalidade, hoje situados à margem, sejam
 integrados, trazidos para dentro.

 A resposta pode variar em função do tipo de intervenção específica demandada
 (saneamento, lixo, geração de renda, assistência sanitária, urbanização), mas
 sempre se situará dentro de algum tipo de estratégia de integração, de apoio do
 poder público, estimuladora de organização e provedora de acesso a graus
 superiores de cidadania, com novos direitos e novas obrigações e responsabilidades.

 Felizmente, a relação íntima entre questão social e questão ambiental não ocorre
 apenas pelo lado negativo. Podemos afirmá-la também pelo inverso: existe a
 possibilidade de o social e o ambiental se articularem num ciclo virtuoso.

 Numa era em que o desemprego é o grande flagelo da economia globalizada, e
 onde o segmento mais vulnerável é, justamente, o da mão de obra pouco
 qualificada, a preservação e a recuperação ambiental são dois campos que podem
 gerar empregos, ou, pelo menos, constituir atividades geradoras de renda que
 beneficiem os excluídos.

 O poder público municipal deve atuar de forma significativa, fomentando, através de
 atividades remuneradas ou auto-remuneradas, a coleta comunitária e a reciclagem
 de lixo, o reflorestamento, o saneamento, a proteção de áreas verdes, a arborização
 pública, a conservação de energia, a educação ambiental, a animação cultural com
 conteúdo ecológico e outras formas de desencadear este ciclo virtuoso, em que se
 combate o desemprego com atividades geradoras de melhor qualidade de vida.

 Agir e transformar

 É importante frisar que o poder local não é apenas o poder público municipal, ou
 seja, as Prefeituras e as Câmaras Municipais. É o conjunto de relações de
 governança e de governabilidade que se estabelecem no plano local. Nelas, as
 instituições municipais certamente desempenham um papel central, mas não
 exclusivo.

 São, na verdade, catalisadoras. Interagem com a sociedade civil organizada, com a
 iniciativa privada e com aquelas esferas do poder público federal e estadual, cujas
 competências e ações condicionam ou influenciam situações locais.

 O poder local não é algo estático; ao contrário, resulta de uma série de relações
 mutáveis, de confronto ou cooperação, capazes de influenciar a vida cotidiana de
 uma comunidade. É no âmbito local que podem ser tratados e, eventualmente,
 melhorados certos problemas ambientais e de desenvolvimento sustentado.

 Do somatório de suas soluções podem, eventualmente, advir melhorias em escala
 planetária.

 Pensemos um instante no efeito cumulativo sobre o planeta de milhares de
 intervenções locais concomitantes, desde as megalópoles até as pequenas aldeias,
 em todo o mundo, que possam, de alguma forma, contribuir para o desenvolvimento
 sustentável.

 É plausível que este movimento venha a ter uma forte influência global.

 Assim, aquele famoso conceito, segundo o qual se deve "pensar globalmente e agir
 localmente", também faz sentido ao contrário, ou, ainda, nesta outra formulação
 derivativa: "agir localmente para transformar globalmente".

 Trata-se de um caminho ao alcance do poder local decidido a...

      - Compreender a necessidade de uma relação equilibrada entre ambiente
      construído e ambiente natural;

      - Ver as cidades como ecossistemas humanos complexos e absolutamente
      indispensáveis;

      - Entender que não há antagonismo obrigatório entre construir e preservar;

      - Perceber a relação holística entre cidade e periferia;

      - Relacionar a crise social e a crise ambiental, buscando formas de superar ou
      mitigar ambas, conjuntamente;

      - Estimular a participação comunitária na busca de soluções;

      - Estabelecer regras urbanísticas claras e mecanismos eficientes de controle e
      monitoramento;

      - Integrar a cidade informal à formal;

      - E agir, assim, no sentido do desenvolvimento sustentável.

http://membro.intermega.globo.com/_CGISCRIPT010iO1OOiO1Oi01OO10ii01Oi/ambienteonline/cidade.htm


Projeto EducAdo

Uma Proposta de Ambientes de Aprendizagem Cooperativa Para Educação Ambiental em Áreas Costeiras Usando a Web como Suporte.

http://cehcom.univali.br/educado/


O meio ambiente no sistema de ensino


 24/05/2000

Neste final de milênio, poucos temas têm sido tão discutidos quanto a urgência de se adotar um modelo de "desenvolvimento sustentável" - "aquele que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer as necessidades das gerações futuras", segundo definição da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Isso significa dar um basta à degradação do meio ambiente e tudo o que ela provoca, como escassez dos recursos naturais não renováveis, mais fome e pobreza. Já que isso só é possível se a juventude for preparada para o enfrentamento, em toda a sua amplitude, da questão ecológica, centenas de países firmaram o compromisso conjunto de, o quanto antes, nortear por ela os currículos escolares. Mas ainda não sabemos onde realmente isso está sendo feito, e onde a educação ambiental continua tão desintegrada e inconsistente quanto no Brasil.

Isso não surpreende. Nossa civilização ignorou solenemente o fato de que o ser humano pertence ao ambiente que o cerca e, cedo ou tarde, sofreria as conseqüências de suas ações sobre ele (poluição, proliferação de doenças, desastres naturais, desgaste do solo). Algo semelhante aconteceu com a escola, que alimentou a ilusão de que não pertencia ao mundo lá fora. Hoje, todos concordam que uma das mais gritantes falhas da educação escolar é seu distanciamento da vida real. Duas distorções que a reforma do ensino iniciada com a Lei de Diretrizes e Bases (1996) promete corrigir simultaneamente. Como? Fazendo a escola adotar postura mais participativa e responsável diante dos problemas da comunidade - sobretudo o ambiental. Mas isso será impossível com a educação ambiental sendo tratada como disciplina isolada e dispensável, parecendo ter sido criada apenas para outras nações não dizerem que não estamos fazendo nada a esse respeito.
Não é novidade que providências visando à proteção ao meio ambiente, no Brasil, só foram tomadas depois de pressões internacionais e do boom das organizações não-governamentais - 5.000, 40% de cunho ambientalista. Talvez ainda seja preciso suar por uma política nacional voltada para a educação ambiental. Mas ela é indispensável. Deixar só por conta das escolas a responsabilidade pela abordagem de questão tão grave é um erro. E a realidade atual é que ela não norteia os currículos, nem quando aprender a lidar com o ambiente é crucial para a sobrevivência da comunidade em que a escola se insere.
A disciplina educação ambiental foi incluída na parte diversificada do currículo do ensino fundamental, voltada para a "vida cidadã", que pode preencher até 25% das atividades escolares. A decisão sobre como isso será feito é de cada estabelecimento. Infelizmente, grande parte das escolas da rede pública, enfrentando mil problemas relativos à sua infra-estrutura, formação precária dos docentes e baixos salários, acaba encarando as disciplinas não incluídas na base nacional comum e obrigatória como artigos de segunda. Nada que ver, enfim, com os compromissos firmados em nível internacional, que prevêem a reorientação de todo o sistema de ensino visando à adoção do desenvolvimento sustentável e, portanto, a incorporação da educação ambiental como parte essencial do aprendizado, devendo ela permear as disciplinas obrigatórias. Isso exige, naturalmente, investimento do governo na capacitação de todo o corpo docente e das autoridades escolares.
Não está havendo, porém, nenhuma capacitação em massa de professores com vista à educação ambiental. Existem somente ações isoladas e informais de ONGs, universidades e empresas. Quando elas, por acaso, conseguem o apoio de órgãos públicos para seus projetos, ele acaba no momento em que mudam os governantes ou ao surgimento dos primeiros obstáculos. Essas instituições não têm condições de, sozinhas, desenvolver um trabalho de peso, que leve a sociedade a uma mudança de atitudes na relação entre o homem e seu ambiente.
Sem um paciente trabalho de esclarecimento, a começar por cada sala de aula, é provável que a própria população continue encarando a questão ambiental como coisa menor, quando, na verdade, ela abarca todos os setores de nossa vida. Além disso, a educação ambiental permite contextualizar o conteúdo de qualquer disciplina, estimulando a aprendizagem ao mesmo tempo que exercita a cidadania. Ela desafia os alunos e suas comunidades a lidar com (e resolver) questões como saneamento básico, prevenção de doenças, aproveitamento racional dos recursos naturais para que se evite escassez e alta de preços, conservação dos bens públicos e muito mais.
Questões cujas soluções dependem de atitudes de cooperação e solidariedade, e de uma tomada de consciência da importância da ação individual para o bem coletivo, e da ação local para o resultado global. O MEC não ignora isso.
Mas de nada adiantarão as belas palavras usadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais para explicar o porquê da relevância da educação ambiental, se elas não se traduzirem em investimentos em projetos educacionais sérios que alertem as novas gerações para o real significado de desenvolvimento sustentável.

Magno de Aguiar Maranhão é presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), reitor do Centro Universitário Augusto Motta (RJ) e diretor-geral da Associação de Ensino Superior do Rio de Janeiro (AESRJ) E-mail: maranhao@gbl.com.br 

http://www.geocities.com/maisbrasil/amben.htm


Não há mais ararinha azul, diz Ibama

06.02.2001

Ag. Estado

Brasília - A ararinha azul deverá constar como animal extinto na natureza, na nova lista das espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção que deverá ficar pronta até o fim do ano. O último exemplar da ararinha azul que vivia livremente no semi-árido da Bahia desapareceu no fim do ano passado.

A nova lista que está sendo preparada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em parceria com a Fundação Biodiversitas e a Sociedade Brasileira de Zoologia, cria categorias para classificação das espécies, o que não existe na atual relação que agrupa os animais sob o título de "ameaçadas de extinção".

Pelo novo critério, eles poderão constar como "extintos na natureza, provavelmente extintos e ameaçados". Neste último grupo, ainda serão subdivididos entre os "criticamente em perigo, em perigo e vulnerável".

A lista em vigor no País já tem 12 anos e inclui animais como o lobo guará, a onça parda, o mico leão preto, a baleia franca e o gavião real.

"Muitas coisas ocorreram durante este período", adverte a chefe do Departamento de Vida Silvestre do Ibama, Iolita Bampi, uma das responsáveis pelo projeto de revisão da relação que será feita com ajuda de especialistas.

http://www.ecoambiental.com.br/


Liks Ecologia Urbana

 

Os desafios crescentes da ecologia urbana:

http://www.ced.ufsc.br/meioambiente/Tema2.htm

 

Ecologia Urbana PV:

http://www.klicksaude.com.br/tecnoweb/pv-rj/programa/prog5_ecologia.htm

 

Desenvolimento Sustentável

http://www.unilivre.org.br/centro/textos.htm

 

Ecologia Urbana:

http://www.geocities.com/maisbrasil/ecourb.htm

 

Explosão urbana:

http://www.etm.com.br/pesquisa-public/ecologia/ecologia_85_destaque.htm

 

Áreas Verdes:

www.condominiobiodiversidade.org.br


Carta do Chefe Seattle

Carta do Cacique Seattle, na íntegra!


Pesquisa na escola

Idéias novas para romper com modelos de cópia de repetição

 

SÉRGIO SIMKA

Mestre em Língua Portuguesa . Professor das Faculdades Integradas de

Ribeirão Pires/SP e da Universidade do Grande ABC - UniABC. Santo André/SP.

 

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...............Como tem sido entendida a pesquisa na escola ? Qual é a compreensão que dela têm professor e alunos ?

...............Para o aluno , pesquisar tem o significado de ir à biblioteca , pedir ao atendente algum livro relacionado ao assunto e copiar ipsis litteris , o conceito ali fornecido .

...............Para o professor , pesquisar tem o significado de propor ao aluno ir à biblioteca para procurar algum livro relacionado ao assunto trabalhado .

...............Eis a forma pela qual o aluno tem aprendido o modelo de pesquisa e o professor o tem ensinado ao longo dos anos .

...............Esse modelo de pesquisa na escola se estende universidade adentro, chegando ao curso de pós-graduação : quantos alunos não se desesperam ao saber que terão de escrever uma monografia a cada término de curso ? E mais : como escrever uma monografia se , durante toda a vida os alunos aprenderam a copiar ?

...............Por isso , faz-se mister que a iniciação à educação científica comece a partir do ensino fundamental , para que os alunos desde cedo sejam preparados para esse tipo de educação .

...............Porém , para que o projeto possa vingar , necessário se faz que o professor , em seu curso de formação , tenha a consciência despertada para a pesquisa e para o questionamento .

...............Oliveira , em brilhante artigo , afirma que o "o professor não ensina o sentido verdadeiro da pesquisa e não o faz porque ele próprio não sabe pesquisar . E como ensinar a pesquisa , se o professor não pesquisa ?".

...............A autora desfere críticas contundentes à situação de passividade na qual se encontra nosso ensino: "As aulas se restringem a um mero repasse de conhecimentos, que os alunos escutam e copiam , onde o aluno apenas se instrui , mas não aprende a aprender ".

...............Continua Oliveira : "Nas escolas , em geral , parece ser normal a cópia , como se ninguém mais pudesse criar , produzir e desenvolver suas próprias idéias . Na verdade, o professor não tem consciência de que está repassado um ensino copiado , tal é o hábito dessa atitude . Quando colocada essa idéia de cópia , o professor justifica-se afirmando que copiar só acontece quando se pega um livro e se copia tal qual ali está . O fato de usar vários livros significa , para muitos professores , que estão pesquisando , embora tenha citado textos ou partes de textos de alguns livros , sem acrescentar nada de novo , sem produzir com suas idéias , apenas fazendo colagens".

...............Por que não propor , desde cedo , outros caminhos que possam romper o modelo de cópia , da repetição ?

...............Evidentemente , o professor que pretenda realmente adotar a educação científica como prática precisa assumir uma postura diametralmente oposta ao tradicionalismo pedagógico , para colocar-se como mediador de experiências, como um sujeito disposto a aprender juntamente com o aluno , e não aquele que possui sempre a resposta e que não permite ser questionado em seu saber , caso não a tiver .

...............Concretamente: como iniciar o aluno na pesquisa em uma aula de língua portuguesa?

...............O professor , ao sugerir qualquer pesquisa, deve ter claramente definidos quais os objetivos que pretende alcançar, do contrário a pesquisa torna-se uma atividade desvinculada de um sentido que a completa: Pesquisa por quê? Para quê?

...............Nossa sugestão, neste trabalho, é a realização de uma pesquisa centralizada na obtenção de material escrito que veicule incorreções relativas à língua portuguesa, os chamados erros de português, cujo objetivo é oportunizar ao aluno o desenvolvimento da consciência lingüística e extrair da análise empreendida uma reflexão pessoal. Vamos realizar uma verdadeira pesquisa de campo.

...............Chamamos de consciência lingüística à capacidade de o aluno conhecer e reconhecer não só elementos do português-padrão e do português-não-padrão, como, também, de estabelecer relações entre eles dentro de implicações sociopolíticas, socioeconômicas e socioculturais.

...............A pesquisa será realizada em seis etapas. Ao discriminá-las, poderemos recorrer ao expediente da disjunção binária, para melhor clareza tanto da estruturação quanto de apresentação.

...............Assim, podemos configurar as seis etapas, descritas a seguir.

...............1ª Etapa: Objetivos

...............Serão definidos como objetivos do trabalho: Proporcionar situações de aprendizagem que oportunizem ao aluno o

desenvolvimento da sua capacidade de questionamento da realidade a ser mais bem analisada. Estimular no aluno a capacidade de reflexão sobre a produção lingüística na modalidade do texto escrito. Estimular no aluno a capacidade para a pesquisa , elaboração e execução do projeto científico

 

 

...............2ª etapa: Delimitação Pesquisar a produção lingüística na modalidade do texto escrito que contenha incorreções relativas à língua portuguesa.

...............Julgamos conveniente, nesse primeiro contato do aluno com a pesquisa, cujo esboço ora apresentamos, o professor restringir a sua abrangência. É imprescindível, então, que o professor demonstre que toda pesquisa necessita ser delimitada para que se possa abordá-la com maior profundidade e eficácia. A delimitação possibilita ao pesquisador tratar o assunto dentro de limites fixos, circunscritos a uma determinada particularidade. A delimitação é um recurso de fundamental importância que faz com que o pesquisador não seja acometido da freqüente compulsão de enveredar por caminhos que o distanciem do tema de suas preocupações.

...............Entretanto, nada impede que o professor, posteriormente, apresente ao aluno uma gama de assuntos a serem delimitados. Com esse tipo de atividade, favorece-se, desde o início, o desenvolvimento no aluno da capacidade de restringir qualquer tipo de assunto que lhe será útil, não só para estruturar um texto conceitual, como para estruturar futuras pesquisas de mestrado e doutorado.

...............3ª Etapa: Metodologia

Coletar diferentes materiais escritos (cerca de 20).

Registrar a procedência e a data da coleta dos referidos materiais, bem como sua especificidade.

...............A terceira etapa refere-se à metodologia, em que o professor discrimina os procedimentos que o aluno deve observar para realizar a pesquisa.

...............O primeiro procedimento concentra-se na obtenção de diferentes materiais escritos, cujo limite pode variar entre 10 e 20. O aluno deve registrar a procedência de todos os materiais, datando a coleta. Ou seja, deve ficar registrado de que forma o aluno obteve os materiais e quando obteve. Tal procedimento se justifica por que sistematiza uma atitude necessária ao futuro pesquisador, que é a do registro competente dos dados coletados.

...............Outro procedimento é especificar os materiais coligidos, distinguindo se se trata de jornal, panfleto, carta volante, oficio, cartaz, faixa, etc. Na impossibilidade de obter-se determinado material ( uma faixa, uma placa ), pode-se fotografá-lo.

...............4ª Etapa: Análise

Identificar as incorreções, procedendo-se à análise delas. Catalogar as impropriedades de acordo com a gramática normativa.

...............Essa etapa refere-se à análise de todo o material coletado. Nela, os alunos procedem à identificação das incorreções, para posterior catalogação dentro dos critérios da gramática normativa. Para tanto, os alunos podem procurar apoio em compêndios gramaticais, dicionários, qualquer material que possa fornecer um embasamento para dirimir as dúvidas.

...............Evidentemente, o professor pode auxiliar nessa tarefa, mas sempre consciente para assumir uma atitude que desperte no aluno a busca pela resposta, concedendo-lhe não a resposta pronta, e sim os caminhos que conduzam a ela.

...............Exemplificando. Digamos que os alunos tenham encontrado em um material escrito a seguinte ocorrência: "Os sorteios serão divulgados aos domingos pela Rede Globo à partir das...""

...............Detectada a incorreção, surge a dúvida: catalogá-la na parte de Ortografia ( acentuação gráfica ), ou na Regência ( crase) ?

...............Caberá ao professor a tarefa de não fornecendo a resposta, mostrar aos alunos os caminhos que os levem a apreender o conceito de crase e acento, para que, estabelecendo-se a diferenciação, consigam alcançar a significação adequada e a conseqüente catalogação correta.

...............Note-se a diferença entre fornecer imediatamente a resposta e solicitar ao aluno que a encontre. Mas a procura pela resposta deve vir precedida da maneira pela qual ela deve ser feita, e não simplesmente mandar o aluno procurá-la.

...............5ª Etapa: Conclusão Elaborar um texto, expondo as idéias sobre os resultados obtidos.

...............Todo trabalho de pesquisa possui uma conclusão. Propõe-se nessa etapa que os alunos possam elaborar, após analisado o material coligido, um texto no qual haja uma reflexão sobre os resultados obtidos.

...............O professor pode, também, realizar um trabalho de questionamento em relação ao material apresentado. Diante de dezenas de materiais escritos veiculando desde erros de grafia até erros de construção sintática, o que se pode inferir? Quais os fatores que contribuem para a existência desses erros? Nível de escolaridade? Ensino deficiente? Português é realmente uma língua difícil?

...............Sobre o professor recai a tarefa importantíssima de fazer com que os alunos iniciem o trabalho de questionamentos a partir dos resultados a que chegaram . Não basta, entretanto, que a pesquisa se concentre numa coletânea de erros : faz-se necessário que essa coletânea seja analisada à luz dos pressupostos de causa e conseqüência .

...............Exemplificando. Como resolver o problema da violência urbana? Muitas pessoas dirão que basta aumentar o número de policiais na rua e o número de vagas nas penitenciárias. Aqueles que pensam assim tratam a questão superficialmente, pois abordam na apenas em sua conseqüência; a causa da violência urbana espelha nossa situação social de profunda injustiça.

...............6ª Etapa: Discussão

Discutir em sala de aula, por meio de painéis, seminários ou outra forma, os procedimentos empreendidos para a realização da pesquisa, as dificuldades inerentes a ela, bem como as conclusões a que cada aluno chegou.

...............Nessa última etapa, a da discussão, propõe-se uma espécie de mesa-redonda na qual os alunos apresentam os resultados a que chegaram, bem como relatam as dificuldades que tiveram para a realização da pesquisa , expondo-os aos colegas por meio de painéis, seminários etc. Nessa etapa, os colegas estarão avaliando e discutindo os resultados, e caberá ao professor atuar como mediador ante as divergências que porventura apareçam.

...............Depois de concluída, a pesquisa terá de apresentar, então, uma estrutura textual formal . Essa estrutura principia pelo título, que sintetiza o conteúdo. Na introdução, explicita-se o porquê do trabalho como um todo, fornecendo-se a diretriz que conduza o leitor a compreender aonde o pesquisador pretende chegar . Na análise apresentam-se o material utilizado, a metodologia desenvolvida e o exame dos resultados obtidos pelo grupo . A conclusão trará o texto reflexivo dos alunos . Na bibliografia, mencionam-se as fontes ( referencial bibliográfico ou outra ) utilizadas para a análise do material.

...............A Pesquisa obedecerá, então, à seguinte estruturação :

Título

Introdução

Análise

Conclusão

Bibliografia

...............Julgamos que, com a apresentação dessa simples proposta de pesquisa - que, evidentemente, o professor saberá como ampliar, enriquecer e adequar a sua clientela -, um ponto possa merecer a atenção devida : que é possível empreender um projeto que vise romper o paradigma ( modelo ) de pesquisa na escola, transmitindo de geração a geração.

...............Com certeza, ocorrerão contestações de toda ordem, pois o hábito de que ao professor de português cabe lecionar a disciplina dentro da padrões preestabelecidos ainda se mantém como um empecilho a qualquer iniciativa de mudança. O poder da tradição é tão forte que pode nos desestimular e fazer com que nos desviemos do objetivo traçado: "Sair da rotina da tradição é inquietante: para si, para os colegas , para as autoridades, para o sistema", como nos ensinou Luft.

...............Todavia, é necessário ousar, aprender a ousar . Nesse sentido, as palavra do mestre Paulo Freire podem ( e devem ) servir como um incessante estímulo: "É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão de anticientífico . É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro . Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão critica . Jamais com esta apenas . É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional . É preciso ousar para ficar ou permanecer ensinando por longo tempo nas condições que conhecemos, malpagos, desrespeitados e resistindo ao risco de cair vencidos pelo cinismo . É preciso ousar, aprender a ousar para dizer não à burocratização da mente a que nos expomos diariamente . É preciso ousar para continuar quando às vezes se pode deixar de fazê-lo, com vantagens materiais".

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BIBLIOGRAFIA

FREIRE, Paulo . Professor sim, tia não : cartas a quem ousa ensinar. 9. Ed. São Paulo : Olho d’Água, 1998.

LUFT, Celso Pedro . Língua e liberdade . 2. Ed. São Paulo : Ática, 1993.

OLIVEIRA, Rita Maria Belem Dias de. Educação cientifica: recomendações de novos caminhos e estratégias para a pesquisa escolar. Revista do Professor,

Porto Alegre, v. 15, n. 58, p. 18-20, abr./jun. 1999.

SIMKA, Sérgio. Idioma prático : propagandas veiculadas na mídia merecem correção de linguagem. Revista do Professor, Porto Alegre, v. 12, n. 47, p.

28-30, jul./set. 1996.

http://www.via.com.br/cpoec/index.html


Subject: PLANETA SEDENTO

FONTE D'ÁGUA - Informativo sobre Água em português do

FLORIDA CENTER FOR ENVIRONMENTAL STUDIES http://www.ces.fau.edu/online

Fale com o Fonte d'Água: fontedagua-request@ces.fau.edu.

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PLANETA SEDENTO

Ed "Redwood" Ring*

Quanta água de fato temos? Parece bastante, já que a superfície da Terra é 71% água. Mas aparências enganam.

Toda a água na Terra cabe em um cubo não maior do que 1.126,5 Km (700 milhas) de lado. Se isso ainda parece muito, lembre-se que aí estão incluídos oceanos e calota polar. Toda a água doce do mundo, incluindo as calotas polares e a água subterrânea, caberiam em um cubo um pouco maior do que 321 Km (200 milhas) de lado. E se você limitar sua água a lagos e rios, toda ela, no mundo, caberia num mero cubo de 57 Km (36 milhas) de lado. Já que as calotas polares estão congeladas e a água subterrânea é renovada muito lentamente, esse cubo de 57 Km, representando toda a água de todos os lagos e rios do mundo, é tudo que temos.

Além disso, apenas cerca da metade dessa quantidade, estocada nos lagos e rios da Terra, é renovada a cada ano por neve e chuva. Essa quantidade renovável é o quanto os humanos, animais e os ecossistemas recebem por ano para viver.

Não acaba aí. Nações industrializadas, desenvolvidas, consumem muito mais água do que nações em desenvolvimento, num ritmo sem precedente na história da humanidade. Por toda Ásia e América Latina, os padrões de vida estão melhorando e com eles, o per capita de uso de água.

Atualmente, um americano ou europeu ocidental usa quatro vezes mais água do que alguém que vive no mundo em desenvolvimento. O que acontece quando 1,3 bilhões de chineses, outros 5 bilhões de asiáticos, 1,1 bilhão de indianos e quase 1 bilhão de latino-americanos começarem a desfrutar um estilo de vida que se aproxima dos padrões ocidentais? Mais carne, que requer mais bem alimentadas cabeças de gado, mais banhos, mais descargas sanitárias, mais fábricas, mais terra irrigada. Não há água suficiente em nosso planeta para permitir o consumo per capita de água do mundo ocidental para todo o do resto do mundo.

A escassez de água tornou-se um tema polêmico entre os ambientalistas nos últimos anos, porque os humanos têm estado vivendo além de seus meios por décadas e o dia do acerto de contas não está longe. Os céticos dizem que a escassez de água nunca chegará porque a adaptação do ser humano resolverá o problema paulatinamente. Esses céticos comparam os avisos de escassez de água àqueles terríveis avisos divulgados nos 70s que previam um mundo sem combustível fóssil; algo que nunca aconteceu e provavelmente nem acontecerá.

Mas água não é tão facilmente transportada como combustível, nem existem alternativas. Essas diferenças cruciais fazem o sinal da crise da água algo que não pode ser facilmente descartado. Racionamentos regionais se tornarão agudos na China, Ásia Central, África do Norte, Índia e outras partes, e não se pode simplesmente despachar um tanque cheio de água para resolver o problema. Que vamos ter falta d'água, se as tendências atuais demográficas e de consumo continuarem como estão, está acima de qualquer debate. A pergunta chave é o que devemos fazer?

Conservação é a solução favorita da maioria dos ambientalistas e será necessária. Outros meios precisam também ser considerados.

Redistribuição talvez não seja uma opção impensável, apesar dos impensáveis desastres tais como as transposições que destruíram o Mar Aral parecerem ser a regra, hoje em dia. Produzir mais "alimento por gota" é um outro método chave para reduzir os requerimentos de água per capita do mundo. Irrigação por gotejamento, pavimentação de concreto dos canais, transporte por tubulações no lugar de canais para reduzir evaporação são todos maneiras de economizar água; todos muito caros.

Novas lavouras, que requeiram menos água para crescer, também são parte da solução.

Finalmente, dessalinização talvez seja uma solução que oferece enorme potencial. Converter a água do mar em água potável não é apenas uma técnica que poderia oferecer virtualmente ilimitada água potável, mas a água dessalinizada do mar usada em irrigação não degradaria o solo já que o sal é completamente removido. Plataformas flutuantes em alto mar, que usem energia de convecção, geradas pela diferenças na temperatura da água em várias profundidades, poderiam produzir sua própria energia para dessalinizar a água. Um número suficiente delas poderia resultar num custo efetivo de dessalinização e trazer um real impacto ao suprimento de água fresca.

Dar ao mundo suficiente água para todos desfrutarem altos padrões de vida, requererá não apenas conservação, mas criatividade e o poder de iniciativas capitalistas. Oxalá, antes que nações inteiras se tornem sem atrativo outro que não sua sede.

Ed "Redwood" Ring* administrador, EUA

Texto original no:

http://www.ecoworld.com/Water/articles/articles2.cfm?TID=37

Tradução: Maria do Carmo Zinato - mariacz@ces.fau.edu


Reciclagem de papel torna-se terapia para doentes mentais 

Proporcionar qualidade de vida e ensinar a tolerância do diferente. Essas duas idéias sintetizam as principais preocupações dos profissionais envolvidos no Papel de Gente, um projeto na área de saúde mental que oferece atividades relacionadas à reciclagem de papel para pacientes com distúrbios psíquicos.

O projeto surgiu em dezembro de 94, a partir da iniciativa de Eliana Tiezzi Nascimento, psicóloga que trabalhava com portadores de distúrbios psíquicos graves num hospital psiquiátrico em São Paulo.

"Eu me preocupava muito com a direção do tratamento dos pacientes no hospital, um ambiente que de certa forma favorece o sentimento de exclusão social", diz a psicóloga. "Então, um dia, assistindo a um programa infantil que ensinava a fazer papel reciclado, vi uma nova alternativa de encaminhamento dos pacientes."

O primeiro passo foi realizar algumas atividades de reciclagem com os pacientes dentro do próprio hospital, o que abriu espaço para uma oficina de reciclagem semanal. "O retorno terapêutico a aqueles que participavam das atividades era tão significativo que o projeto foi formalizado," comenta Eliana, hoje coordenadora do Papel de Gente.

Em 97, a iniciativa passou a contar com o patrocínio da empresa Power Segurança e Vigilância Ltda. e, em agosto de 99, o núcleo de atividades foi transferido para um galpão independente do hospital, inaugurado como Instituto de Cultura da Reciclagem.

O galpão é aberto a qualquer pessoa que queira conhecer o equipamento de reciclagem, o trabalho dos pacientes, fazer um curso, assistir a uma palestra ou criar seu próprio produto, todas atividades realizadas sob a orientação dos pacientes recebidos pelo projeto.

Encaminhados por psiquiatras ou psicólogos, os pacientes começam no Papel de Gente fazendo um curso de capacitação; feito o treinamento, são promovidos a aprendizes e passam a integrar um grupo de trabalho, em que, como funcionários remunerados, lidam diretamente com o público.

"O que eu mais gosto no meu trabalho é ver a cooperação entre as pessoas", diz Douglas Mina, portador de distúrbio psiquiátrico que freqüenta o galpão de segunda à sexta, das 9 às 17h.

Na opinião de Eliana, esse contato entre os pacientes e os cidadãos normais é uma das grandes chaves do projeto. "A sociedade em geral tende a hostilizar o que é diferente em nome da 'normalidade'. A intenção do Papel de Gente é levar os cidadãos saudáveis mentalmente a se questionarem sobre até que ponto é 'normal' ser intolerante em relação aos outros por serem diferentes", explica. "De um lado, os pacientes ganham uma oportunidade de reintegração sócio-cultural e, do outro, os alunos têm a chance de reavaliar certos conceitos, como os de normalidade, bem-estar e respeito ao meio-ambiente", complementa ela.

Para a coordenadora, fazer papel reciclado é um interventor importante no imaginário das pessoas. "A reciclagem transforma o inútil em útil e, muitas vezes, belo." Na filosofia do projeto, uma atividade produtiva como a reciclagem potencializa as habilidades saudáveis dos pacientes, ajudando-os a administrar melhor os próprios problemas de saúde.

Vale ressaltar, entretanto, que a participação dos pacientes nas atividades de reciclagem não substitui os tratamentos médico e psicológico.

Atualmente, o projeto recebe 26 pacientes, número que deve chegar ao 100 até o fim do ano. Por enquanto, a equipe de trabalho conta com cinco profissionais, entre psicólogos e funcionários administrativos. O Papel de Gente está em fase de cadastramento no Centro de Voluntariado de São Paulo e deve abrir espaço para a participação de profissionais voluntários em breve.

A oficina tem capacidade de produzir cerca de 1.500 folhas por dia, além de outros produtos com